14.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XIX

Apertou fortemente a mão que o médico lhe estendia, e dirigiu-se à porta. Subitamente, a imagem de um jovem alto, magro, de uma palidez extrema, surgiu na sua memória. Voltou-se de novo:
- Diga-me Doutor, o doente era um jovem alto, magro, de grandes olheiras, e mãos trementes?
- Como o sabe? - Interrogou o médico por sua vez.
Não respondeu. Fez um gesto indefinido com a mão, voltou-se e saiu. Na rua, dirigiu-se para casa, e enquanto uma ligeira brisa lhe acariciava o rosto, deixou que as lágrimas aflorassem os olhos, sem qualquer espécie de preconceito.

Depois de algumas voltas pela rua, para se acalmar, Pedro entrou em casa. A figura franzina da mãe, saiu da cozinha, e veio ao seu encontro.
- Até que enfim, filho. O jantar está pronto há mais de uma hora
Agarrou na mão do filho e perguntou alarmada:
- Que se passa? Estás a tremer.
Levando-a pela mão, conduziu-a ao sofá.
 – Deixe lá o jantar, minha mãe. Preciso contar-lhe tudo o que me atormentou nos últimos meses. Mas antes quero que me prometa, que não vai ficar aflita. Com a Graça de Deus, já tudo passou.
- Filho...
Havia um tal temor na voz da mãe, que ele acrescentou:
- Não fique assim. Ou então não lhe conto nada. Não há nada a temer, agora tudo está bem.

E então o jovem falou. Contou tudo, desde o primeiro momento, falou da sua dor, da raiva e da revolta contra o seu destino, do medo de a deixar sozinha, de se ter despedido do emprego, da viagem para casa da tia, de como conhecera Rita, de quanto a amava, da maneira como fugira da casa da tia, para que ela não soubesse o que se passava, da sua ida ao médico naquela mesma tarde, das análises trocadas, de tudo enfim que o atormentara nos últimos três meses. A mãe ouvia-o, e as lágrimas corriam silenciosas pelas suas faces enrugadas, enquanto os pensamentos se lhe atropelavam no cérebro. Pobre filho, quanto sofrimento, e ela, que raio de mãe era ela, que não fora capaz de descobrir nada de grave na sua súbita decisão de mudar de ares? Por fim a voz do filho silenciou. Ela abraçou-o com força, e o soluço que estivera preso no seu peito irrompeu, sonoro como trovão em tempestade de Verão.
- Então, mãe acalme-se. Compreende agora que eu viaje amanhã cedinho para as termas? A Rita vai-se embora no Domingo. E eu amo-a mãe. Não quero perdê-la.
E depositando um beijo na testa da mãe, acrescentou:
-Tenho a sensação D. Maria, que a senhora vai ter a nora que há tanto tempo pede.




18 comentários:

Luis Coelho disse...

Bom dia Elvira
As suas histórias são de uma ternura que nos faz tremer interiormente.
Momentos de grande amor.
Peço desculpa das ausências.
Estou voltando
Beijinhos

Prata da casa disse...

Tudo parece estar a entrar nos eixos. Continuo a querer saber o desenrolar dos acontecimentos.
Bjn
márcia

Elisa Bernardo disse...

Olá Elvira
Hoje chego mais cedo para acompanhar tudo por aqui e para lhe desejar um excelente fim de semana.
Beijinho grande
elisaumarapariganormal.blogspot.pt

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Está a ficar interessante e o amor anda no ar.
Um abraço e bom fim-de-semana.
Andarilhar

Rosemildo Sales Furtado disse...

Já que agora está tudo bem, chega de sofrimentos, que venham alegrias.

Abraços,

Furtado

Rui Espírito Santo disse...

Tudo bem para o Pedro e muito provavelmente para a Rita, mas devo dizer que fiquei "chocado" com a troca de análises ! :((
Nos dias de hoje essas coisas "não podem" acontecer !!! :((
... E seria de mover um processo contra essa irresponsabilidade inadmissível, que em última análise poderia até ter sido causa de possível (até) suicídio do Pedro, perante tal quadro !
... e numa visão não de tal gravidade, poderá até ainda vir a ser a causa de um grande amor perdido !... Não está garantido que ele encontre a Rita ! :(

Abraço ! :)

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tare, suas historias despertam a curiosidade, são belas.
Feliz fim de semana,
AG

Tintinaine disse...

Corre, Pedro, antes que a Rita te fuja para Castelo Branco.
Bom fim de semana, Elvira!

Odete Ferreira disse...

Atualizada a leitura, só posso desejar que traces um final feliz :)
(A introdução da troca de análises entende-se na narrativa; oxalá ela nunca ocorra na vida real; penso que, atualmemente, esse facto já não ocorreria
Parabéns pelo teu modo de narrar.
Bjo, Elvira :)

Majo Dutra disse...

Está muito interessante, Elvira.
Dias pacientes para vós.
Abraço.
~~~~~~~~~~~~~~~~

Anete disse...

Li o capítulo de hoje e peguei um pouco o fio da meada e gostei muito...
Ainda bem que o sufoco tão grande resultou num romance bonito... E a saúde do rapaz apaixonado está tranquila...
O meu abraço e bom sábado...

Edumanes disse...

Corre Pedro sem parar,
para os braços da Rita
se ela te está a esperar
é porque no amor acredita?

Bom fim de semana, amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Os olhares da Gracinha! disse...

Elvira...quando se desabafa...a alma alivia_se dos tormentos! Bj

Os olhares da Gracinha! disse...

Elvira...quando se desabafa...a alma alivia_se dos tormentos! Bj

aluap Al disse...

Para o Pedro e sua família ainda bem que tudo não passou de um erro.
A vida é o bem mais precioso que temos, ao termos saúde (nós e os que amamos) já temos 95% de razões para a viver duma forma positiva!

Beijinhos e passe um bom domingo.

Berço do Mundo disse...

Chego tarde à história, mas fico perfeitamente enternecida com o episódio que me calhou em sorte.
Beijinhos, uma linda semana
Ruthia d'O Berço do Mundo

Isa Sá disse...

Passando para acompanhar a história!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Ailime disse...

Boa tarde ELvira,
Momento emocionante esse do desabafo do filho para com a mãe.
Retratos do quotidiano que infelizmente acontecem mais do que pensamos.
Beijinhos,
Ailime