31.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XL


Foto do Incêndio do Teatro Nacional D. Maria II-
                                    foto do DN



Os anos mudam, mas a vida na Seca, como no resto do país nada melhora. Pelo contrário, a repressão é cada vez maior, o medo também. No início desse ano o sogro do Manuel, morre em Lisboa em casa de uma filha. 
Na Seca o pessoal continua a sua labuta diária, cada dia mais preocupada com os filhos, pois toda a gente tem um amigo, ou um vizinho cujo filho foi mobilizado para a guerra em África. 
Manuel não era racista. Nunca conhecera nenhum negro, mas sabia que existiam e para ele eram criaturas de Deus como ele.  Desde que tinha o rádio ouvia algumas vezes uma estação emissora que contava o que se passava nas províncias Ultramarinas. A mulher estava sempre a ralhar pois era muito perigoso ouvir aquele emissor, mas o facto de viver isolado junto ao rio, não era muito credível que por ali andassem os homens da PIDE. Eles preferiam outros ambientes, as tabernas por exemplo, onde os homens com um copito a mais se tornavam mais confiantes e descuidados. Ou os locais de trabalho. 
Depois tinham-lhe dito que colocando um copo de água sobre o aparelho, eles não conseguiriam saber o que ele estava a ouvir, desde que o rádio não estivesse com o som demasiado alto. Não sei se havia alguma base científica para isso, sequer sei se seria verdade, mas ele acreditava nisso e fazia-o sempre religiosamente, como quem cumpre um ritual. Depois como em boca fechada não entra mosca, ele não comentava com ninguém o que ouvia. 
No Verão desse mesmo ano, Galvão Teles aumenta a escolaridade obrigatória para seis anos, mas aos filhos do Manuel já de nada serve que já estão a trabalhar excepto a do meio que continua a tirar excelentes notas, e que será finalista no próximo ano. 
Dir-se-ia que 64 fora o princípio do fim do regime fascista, e da guerra no Ultramar, que nesse mesmo ano se estendeu a Moçambique, com a primeira acção da FRELIMO, em Chai no distrito de Cabo Delgado. 
As colónias desde Cabo Verde a Moçambique estão em guerra com Portugal, pelo seu direito à independência. 
E esse ano termina com o grande incêndio que destruiu o Teatro Nacional D. Maria II em Lisboa.

17 comentários:

Mariangela do lago vieira disse...

Oi Elvira, boa tarde!
Que maravilha de descrição desta tua história!
Gosto Muito!!
Um grande abraço, amiga.
Mariangela

Laura Santos disse...

Os perigos de se ouvirem certas emissoras nessa altura!...
Muito bem descritas as preocupações, dificuldades, e sentimentos desses anos 60.
xx

António Querido disse...

Pois assim era nesses tempos, não se podia abrir o bico já estávamos com o pescoço debaixo de água! Agora fala-se demais, trabalha-se menos, se me apetecer dou um tiro em alguém e vou para casa com uma pulseira, servindo de condecoração! Acho que já estou a falar demais!!! O meu abraço.

LopesCa Blog disse...

Gosto muito de vir aqui ler mais um bocadinho da história :)

Blog LopesCa/Facebook 

Ana S. disse...

Havia um clima de medo e tensão sempre presentes. As coisas pensadas jamais poderiam ser pronunciadas porque senão o castigo seria severo.
Abraço Elvira

esteban lob disse...

Deben haber sentido incomodidad, Elvira, los portugueses de esos y otros tiempos, al igual como los ciudadanos de países colonialistas, por los efectos de acciones en ese sentido.Y, como pasa en cada guerra o batalla,las penas son sufridas por los jóvenes y no por los políticos y(o) militares que las generan.

Abrazo austral.

Portuguesinha disse...

Bem vinda!
Estava a aguardar o seu regresso. Olhava para o canto dos blogues que revelam o post mais recente a ver se o seu era um deles :) Espero que a ausência tenha sido feliz e proveitosa.

E cá estou a ler a história de Manuel... misturada com a do país.
Sempre interessante.
Abraço

Silenciosamente ouvindo... disse...

Meu pai também ouvia esse posto de rádio e também colocava m copo
c/água. Lembro-me muito bem do inc>êndio do Teatro Nacional.
Acompanhando as suas histórias, de uma certa forma estou revivendo
partes do meu passado.
Bjs. amiga e desejo de que se encontre bem.
Irene Alves

paideleo disse...

Eran os anos de medo da ditadura. Por estas terras tamén pasou algo semellante anque non había guerra en África.
Gustoume o remedio do copo de auga na radio para que ninguén soubese o que se escuitaba.

Edumanes disse...

Estava eu no ano de 1964, no Cobué, de noite na areia junto da água do Lago Niassa, num mini emissor ouvindo a Rádio Moscovo. A locutora em bom português,
dizia que a luta armada, em Moçambique, estava pronta para entrar em acção. Tendo sido nesse mesmo ano, na noite do dia 25/26 de Setembro, atacado o Posto Administrativo do Cobué. Onde havia paz passou a haver guerra, e cada vez com mais perigosidade para as nossa tropas que lá se encontravam. Em defesa desta nossa amada Pátria!

Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

✿ chica disse...

Momentos e anos tri difíceis, muito bem trazidos aqui! Continuando...bjs,chica

Pedro Coimbra disse...

Nasceram pessoas extraordinárias em 1964 :)))
Gaba-te cesto!!
Bfds

Zilani Célia disse...

CONTINUO LENDO
http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Elisa Bernardo disse...

Ainda ando por aqui...a ler!
Beijinhos
elisaumarapariganormal.blogspot.pt

Renata Maria disse...

Anos de chumbo muito bem descritos pela amiga.
Beijo*

Rosemildo Sales Furtado disse...

Em 64 aconteceu aqui no Brasil a revoluçao e foi iniciado o regime militar.

Abraços,

Furtado.

lua singular disse...

Oi Elvira
Em 64 dizem que foi terrível, eu estudava em outra cidade e ia de trem e nós depois das aulas ficávamos "paquerendo" os "piriquitos" que eram os policiais novinhos.kkk
Fogo em teatro é um crime, adoro teatro
Beijos
Lua Singular