20.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXVII


      Capela do quartel, foto do google




 Estávamos em Maio de 62, num daqueles dias quentes, que mais parecem de Julho, quando à Seca, chegaram dois polícias numa carrinha, em busca do Manuel. Ele estava no trabalho, no armazém da lenha, e lá chegados os polícias deram-lhe voz de prisão, e levaram-no sem sequer poder avisar a família. Entrar algemado na carrinha, foi para o Manuel uma vergonha e dor tão grande, que ele pensou não resistir. Ao mesmo tempo que mandava um vigia avisar a mulher do Manuel, o Capitão, gerente da seca, telefonou para o posto no Barreiro, para saber do que era acusado, um homem que levava a vida a trabalhar, e não se metia em escaramuças nem políticas. Foi então informado, de que a ordem viera de Lisboa, com a acusação de que Manuel era um desertor.
 Parece que à época, os mancebos aptos para a tropa, não ficavam livres depois de ela acabar, mas passavam a uma situação de reserva que só terminava aos 45 anos. Manuel fizera 44 em Abril. Ora todos os anos, eram vistos os processos, de todos os mancebos que cumpriram tropa e estavam nessa idade. E encontraram a caderneta militar do Manuel, que lhe devia ter sido entregue quando da passagem à reserva. Daí a investigarem o tempo de tropa dele foi um passo. E logo descobriram a deserção. E em consequência disso, Manuel estava agora preso e ia ser mandado para Lisboa. Precisamente para o quartel de Caçadores 5 em Campolide, de onde tinha desertado em 1941.
Uma vez no quartel, foi-lhe dito que teria de cumprir os quase dois anos de tropa que lhe faltavam quando desertou. Como porém em Abril de 63, faria 45 anos, e passava à reserva, ficaria na tropa até essa data. Ou seja, quase um ano.
Dá para imaginar o sofrimento do Manuel? Os jovens militares, gozavam com ele, mal acabava a formatura. Não estava em prisão no quartel. Estava na tropa, embora sem licença de saída.
Recebia a visita da mulher no quartel, e mortificava-se com a situação da família, agora sem o seu ordenado, que era o único na casa até à próxima safra, e ainda obrigada a gastar dinheiro em viagens para as visitas. Chorava todos os dias. E tudo por causa de umas malfadadas botas da tropa, que não pudera pagar ao estado.
Trabalhador humilde, sempre pronto a qualquer trabalho, mesmo que nada tivesse a ver com o armazém da lenha, alegre e bem-disposto, apesar de todas as dificuldades, o Manuel granjeara a simpatia, não só de todos na Seca, como do próprio patrão, que vivia em Lisboa e só muito raramente vinha à seca. Lembro, que ela era gerida pelo capitão Aníbal. Porém quando o patrão precisava de um homem para qualquer trabalho na sua casa, ou jardim, telefonava para a seca e o capitão mandava para lá o Manuel.
Boa pessoa, sabendo reconhecer os méritos do Manuel, o patrão deu ordem ao gerente da seca, para manter o ordenado do Manuel enquanto ele estivesse ausente. Não satisfeito com isso, o patrão, usou de toda a sua influência, (e se era influente a família Bensaúde) para retirar o Manuel daquela agonia. E foi por isso que ele, voltou à liberdade no início de Setembro, bem a tempo de dar um beijo à filha no dia dos seus 15 anos.



25 comentários:

Luis Coelho disse...

Homens ricos de personalidade e de força de viver.
Vidas escritas com o próprio sangue.

Isa Sá disse...

a passar para acompanhar a história.

Bom domingo!

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

Edumanes disse...

Era mesmo assim. Na tropa quando se mudava de unidade, ou se passava à situação de disponibilidade, tinha que se entregar todo material que antes se tinha recebido.Quem o não entregasse tinha que o pagar. Por isso quando nos roubavam algum desse material. O melhor era manter-se em silêncio e fazer o mesmo. O Manuel, se calhar não o conseguiu fazer antes de ter que entregar as botas. Teria, portanto, que continuar na tropa até as pagar, e só depois disso passaria à situação de disponibilidade! Todavia, o Manuel terá pensado que o melhor seria desertar? Se calhar sem antes ter pensado, nas consequências que a seguir surgiriam em seu desabono! Alguns portugueses, na idade de serem chamados para cumprir o serviço militar! Por causa da guerra nas ex-províncias ultramarinas, piraram-se assalto para a França, os quais só voltaram após o 25 de Abril de 1974. Graças à liberdade, não foram dados como desertores, por isso não foram presos nem tiverem que cumprir o serviço militar!
Tenha amiga Elvira, um bom dia de domingo, um abraço,
Eduardo.

✿ chica disse...

Tão bom acompanhar essa história e já 15 anos a menininha de outrora? bjs, chica

São disse...

E o tempo passa rápido....

Beijinhos amigos e com votos de bom domingo

ONG ALERTA disse...

Interessante, abraço Lisette.

rendadebilros disse...

Tempos duros que aliado a alguma ingenuidade e ignorância chegavam a este ponto. Muitos pormenores de vidas que já foram esuqecidas pela maioria. Beijinhos. Bom Domingo.

Anete disse...

Elvira, não tinha certeza de que o Manuel era seu pai, gostei de saber.
Uma história de familia bem contada.
Dinamicamente estamos conhecendo mais você... Você é uma personagem da sua própria narração!
Tudo muito interessante de se ler...
Um bom domingo... Abç

Blog da Gigi disse...

Lindo final de domingo!!!!!!!!!! Beijos

Rosemildo Sales Furtado disse...

Olá Elvira! Com certeza esse beijo avivou a lembrança dos 15 anos da menina.

Li e comentei até a parte XXIX. Voltarei com mais tempo para ler as partes que faltam.

Abrigado pelas visitas e amáveis comentários deixados no nosso Arte & Emoções.

Abraços,

Furtado.

Crocheteando...momentos! disse...

Um beijo que lhe acalmou a angonia de um tempo onde a liberdade lhe foi retirada!
Boa semana

Crocheteando...momentos! disse...

Um beijo que lhe acalmou a angonia de um tempo onde a liberdade lhe foi retirada!
Boa semana

LopesCa Blog disse...

Complicado coitado
Blog LopesCa/Facebook 

Vieira Calado disse...

Caríssima:
Creio que me disse que viria por cá, por estes dias.
Mande-me um recado.
A ver se nos encontramos..
Beijinhos!

Mariangela do lago vieira disse...

Que linda história Elvira, e o tempo passa...você já com 15 anos e recebendo o beijo do saudoso pai.Beijo que ameniza tantas coisa passadas na vida difícil!
Abraços, boa noite!!
Mariangela

Mariangela do lago vieira disse...

Que linda história Elvira, e o tempo passa...você já com 15 anos e recebendo o beijo do saudoso pai.Beijo que ameniza tantas coisa passadas na vida difícil!
Abraços, boa noite!!
Mariangela

Portuguesinha disse...

Ora, ora. Quem diria!
Uma decisão do passado a apanhar o Manel... até eu já havia esquecido!!
Imagino o espanto da família, dos amigos.
Deve ter sido uma pessoa abençoada.

Zilani Célia disse...

SERIA UMA GRANDE INJUSTIÇA, UM HOMEM DO BEM COMO O MANUEL CONTINUAR PRESO.
http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Renata Maria disse...

Tempo, tempo como passa! Muito boa a narrativa.
Beijo*

Laura Santos disse...

Apesar de tudo , Manuel teve um bom patrão que para além de não lhe retirar o ordenado, ainda intercedeu por ele. Voltar para casa deve ter sabido tão bem!
xx

Elisa Bernardo disse...

Ainda por aqui a acompanhar:)
beijinhos
elisaumarapariganormal.blogspot.pt

Odete Ferreira disse...

Acontecia cada coisa!
Mas como se costuma dizer "quem tem amigos não morre na cadeia", o Manuel soube cultivá-los e assim regressou rápido ao seio familiar.
Bjo, Elvira

Emília Pinto disse...

Nem sempre é assim, mas no geral um bom empregado faz um bom patrao e o bom patrão faz o bom empregado. No caso do Manuel isso aconteceu, felizmente Sabes quem me dizia isso? A empregada que eu tive no Brail e esteve tantos anos comigo que, sempre que lá vou a visito. A minha filha tinha 9 anos quando voltamos para Portugal e hoje, com 34, quando visita a " tia" ( empregada) abraça-se a ela e as duas choram feito crianças. Nunca deixei que nada lhe faltasse lá no Brasil, precisamente porque dela recebi sempre muita dedicação e amor pelos meus filhos. Elvira, desejo -te um boa Páscoa , junto dos teus , sempre com muita saúde e alegria. Beijinhos
Emilia

Carmem Grinheiro disse...

Olá, Elvira.
O Manuel teve um homem bom como patrão.
Deixo-lhe votos de uma boa Páscoa de paz.

esteban lob disse...

Hola Elvira:
Todas las guerras son terribles y lo peor es que no se trata solamente del pasado. Tenemos realidades en nuestros días, con peligros no solamente referentes a conflagraciones declaradas, sino sorpresivas y suicidas, en cualquier rincón de cualquier ciudad.

Abrazo.