19.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXVI




painel de azulejos contando a história do Santa Maria,  existente no prédio construído no local onde nasceu Henrique Galvão . Foto minha
Nota, não lembro a data exacta do aprisionamento, embora lembre do facto. Neste painel, a data é 1960, mas todas as pesquisas que fiz no google me dizem que foi em 1961.


No final do ano escolar, o filho fez exame e a filha também passou para o segundo ano com excelentes notas.
 A mais velha trabalhava  agora na quinta, ganhava pouco, mas não conseguira outro trabalho. Tocava a vaca na nora, dava comida à criação, fazia recados aos caseiros.  E quando os navios chegassem lá ia trabalhar na seca. 
E assim foi que ao Verão se sucedeu o Outono e depois o Inverno, sem grandes mudanças nem sobressaltos que já ninguém esperava outra coisa, do que aquilo a que a vida os habituara. A excepção, fora que a filha mais velha do Manuel também se inscrevera na escola Alfredo da Silva no início do ano escolar, para estudar à noite.  
Porém nem um ano lectivo aguentou, o trabalho na seca era muito duro. Manuel saía do armazém às cinco e rendia a filha para que ela se fosse arranjar e fosse para a escola, onde entrava às sete. 
Saía às onze, e entre chegar a casa, comer alguma coisa e 
preparar as coisas para o dia seguinte, ia para a cama 
depois depois da uma. E se havia serão de manhã, às seis 
já estava no local de trabalho. Era impossível aguentar, mas 
ela queria porque queria estudar, e o pai não se opôs, 
apesar do sacrifício extra de terminar por ela o trabalho e de 
ir buscá-la à noite à paragem do autocarro, pois tinha receio 
de que alguém fizesse mal à miúda na azinhaga de caminho 
para casa. Desistiria no final de Janeiro, extenuada.
Mas esse Janeiro de 61 estava decidido a ficar na história, e não por esse facto pois quem eram eles, senão povo ignorado e ignorante que apenas lutava pela sobrevivência, como todo o povo na época, salvo claro os favorecidos da sorte.
  É que em 22 de Janeiro , Henrique Galvão, um barreirense, capitão do exercito português, e  opositor do regime de Salazar, comandou o "assalto" ao paquete Santa Maria, chamando a atenção do mundo para o regime ditatorial que se vivia em Portugal. 
Na seca, o pessoal não se atrevia a comentar, a PIDE estava mais activa que nunca, e o povo temia a sua própria sombra.
Com grande sacrifício, o Manuel acaba comprando uma motorizada em segunda mão a prestações.
Um a um passeia os filhos na  "pendura" para que eles sintam a sensação e participem da sua alegria. A mulher é que era pior. Ela não queria de modo nenhum, andar naquela "geringonça" tinha medo.  E tanto assim que meses mais tarde, quando o marido conseguiu convencê-la, ainda não tinham chegado à Telha e já ela se deixara cair num monte de areia na berma  da estrada.  O engraçado é que o marido  só deu por isso dois kms à frente e voltou para trás
aflito com medo da mulher se ter ferido. Encontrou-a em casa sem qualquer ferimento, mas mais relutante do que nunca em voltar a pôr o corpinho em cima da motorizada.
"Ná, quem fez este corpinho, já não faz mais nenhum"- costumava dizer. 


E porque hoje é o dia do pai, votos de feliz dia para todos os homens que sabem honrar o sagrado nome de pai. Para o Manel da Lenha que como todos sabem foi meu pai, o meu eterno obrigada, onde quer que esteja meu pai.




  

17 comentários:

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Uma saga familiar em contextualizado brilhantemente em admirável narração.
Mais parabéns, Elvira, também pela bela foto!
Um abraço.
Lúcia

✿ chica disse...

Acontecimentos, dedicação ao trabalho e estudo ,força de vontade... Tive que rir com os tombos só vistos após 2 km, rs... Muito legal de ler! bjs, chica

Ana S. disse...

eheheh cair da mota deve ser uma experiência traumatizante. É caso para nunca mais repetir mesmo!
Feliz dia do pai Elvira :)

Edumanes disse...

A vida continuava lá seca e em todo o país! Para quem esperanças tinha, de que a mudança de política mais tarde ou mais cedo iria acontecer! Com o assalto ao Paquete Santa Maria, se enganado não estou aconteceu no mês de Janeiro do ano de 1961! A seguir no dia 4 de Fevereiro desse mesmo ano, foi atacada a 7ª Esquadra de Polícia em Luanda, estendendo-se ao norte de Angola, onde o horror sem fronteira, nem contemplação matou barbaramente, crianças inocentes, sem que os culpados algumas vez tivessem sido condenados!

Tenha um bom fim de semana, amiga Elvira, um abraço,~
Eduardo.

Portuguesinha disse...

A sua homenagem ao pai não tem um dia, Elvira. A história que relata revela isso. Feliz Dia!

Edumanes disse...

O senhor Manuel da lenha,
pai da nossa amiga Elvira
para além da morte, sem vida
em paz, com Deus se mantenha!

Tintinaine disse...

Continuo de pedra e cal a acompanhar a história do Manel e da sua filha que o não esqueceu neste dia!

Silenciosamente ouvindo... disse...

O capítulo da sha actual história hoje comoveu-me mais que o habitual,
porque colocou uma foto do seu pai, porque hoje é o dia do pai, por
falar no assalto ao Santa Maria.

Os jovens de hoje precisavam de saber a história do passado recente
deste país, para compreenderem melhor, o que este povo já sofreu.

Por causa desse assalto uma grande amiga teve que sair do país.

Desejando que esteja bem.
Bom fim de semana.
Irene Alves

Crocheteando...momentos! disse...

Uma homenagem magnífica... Boa noite amiga

Rogerio G. V. Pereira disse...

Recuperei hoje (agora) atrasos de leitura.
Em boa hora o fiz...
Manuel da Lenha trás (trazia) a alma no rosto. Aposto que se ele ria, ria
Se ele se arreliava não o escondia
Certo?

Ane disse...

Oi Elvira!Uau,então é a história de sua família e o Manuel da Lenha é o seu pai!Não sabia!Acho que não atentei para isso antes...A história é tão cheia de detalhes das coisas daquela época,de como se vivia com dificuldade,que eu devia ter desconfiado.Linda sua homenagem.E a história muito interessante.Um abraço!

Rosemildo Sales Furtado disse...

Onde quer que esteja, o Manel deve estar feliz pela homenagem e orgulhoso da filha que tem.

Abraços,

Furtado.

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
QUE ORGULHO DEVES TER DESTE PEQUENO GIGANTE QUE ERA TEU PAIZINHO, POIS FOI ELE QUEM ESCREVEU ESTA DOLORIDA MAS LINDA E RICA HISTÓRIA.
PARABÉNS AMIGA PELO HERÓI QUE FOI SEU "MANEL".
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Odete Ferreira disse...

Acompanhando, amiga...
Neste relato, emocionei-me.
Onde quer que esteja, honras o teu querido pai.
BJO e um xi coração :)

Renata Maria disse...

Adorei saber que a história é do seu pai. Adoro vir aqui mesmo com atraso.
Beijo*

Laura Santos disse...

Muito significativa a história do assalto ao Santa Maria, um acto de grande afronta ao regime.
Ah, por acaso pensei logo, desde os primeiros capítulos, que o sr Manuel da Lenha fosse o seu pai. E que pai! Parabéns, uma pessoa fantástica.
xx

Elisa Bernardo disse...

Atrasei-me uns dias e confesso que já sentia falta de acompanhar esta história.Estou de volta e a acompanhar:)
Beijinhos querida Elvira
elisaumarapariganormal.blogspot.pt