17.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXIV


Foto de Rui Pires do blog Olhares d'Ouro




No ano anterior, sabendo que depois da matança do porco, e com as frutas e legumes que semeava no quintal, ia fazer menos despesas, o Manuel resolvera inscrever toda a família, para uma excursão de oito dias a Lamego, a fim de assistirem às festas da Senhora dos Remédios. Falara com o organizador, e fora pagando um tanto todas as semanas, a fim de ter tudo pago na hora da partida no final de Agosto. As crianças estavam muito felizes e ansiosas pela viagem, pois tirando uma ida até ao Montijo para a festa da Senhora da Atalaia, e uma ou outra viagem a Lisboa, quase sempre rumo ao hospital, como quando a filha fora operada à garganta, não conheciam nada mais que a seca, e o Barreiro.  
A viagem foi muito interessante, visitaram algumas belas localidades que ele próprio não conhecia, como Tomar, onde visitaram o Convento, e o jardim. Neste um dos elementos da excursão tirou uma fotografia ao grupo, para mais tarde recordarem. Na excursão iam outros familiares e os vizinhos tudo gente amiga, como se fossem uma só família. As crianças estavam deslumbradas com tudo o que viam, e ele tinha pena de não ter uma máquina fotográfica para registar esses momentos de felicidade.  Na Figueira da Foz, ficaram pouco tempo mas ainda assim as crianças, ficaram maravilhadas com o tamanho da praia. Ao quarto dia chegaram enfim a Lamego. Nessa noite não encontraram alojamento, ficaram na camionete, e ninguém dormiu pois durante toda a noite se ouviam os ranchos folclóricos. 
No dia seguinte, assistiram à imponente procissão cujos andores eram transportados por carros de bois, com as crianças vestidas de anjinhos sentadas aos pés dos santos, em nuvens de algodão.
Saíram logo depois da procissão em direcção à Régua. E no dia seguinte iniciou-se o regresso, onde ainda se visitaria entre outras terras o Luso. A viagem correra bem até aí, tudo era alegria.  Mas no Luso a Gravelina teve outro ataque daqueles já referenciados. 
Primeiro perdeu os sentidos, e depois começou a rasgar-se, a morder-se, e a atacar quem dela se aproximava, ao mesmo tempo que gritava. Chamada uma ambulância, foi levada para o hospital de Coimbra. Ele seguiu com a mulher e os filhos ficaram na camioneta com a restante família e vizinhos.
Duas horas mais tarde, já a camioneta estava em Coimbra o Manuel chegou com a indicação de que a Gravelina tinha ficado internada para exames. Ele viria buscá-la quando tivesse alta.
Escusado será dizer que se acabou a alegria para o resto da viagem.
Dias mais tarde, o Manuel foi chamado ao escritório da seca para lhe comunicarem que tinham recebido um telefonema do hospital a comunicar que a  Gravelina teria alta no dia seguinte.
Foi o irmão João que lhe emprestou o dinheiro para a viagem, e assim Manuel foi buscar a mulher.
Parece que o seu mal seria consequência da cirurgia que tinha feito.
Tinha que levar mensalmente uma injecção até à idade da menopausa. E o que é certo, é que se foram os "encostos" que os vizinhos diziam que tinha.

20 comentários:

Luis Eme disse...

Tudo o que a Elvira escreve é um retrato de um outro país, que existiu mesmo, não é ficção. Em que a vida só era fácil para meia dúzia de pessoas...

abraço

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Uma excursão muito atribulada, mas fez-me lembrar os meus tempos de miúdo quando ia com a família de excursão a Espanha.
Um abraço e boa 5ª Feira.

Isa Sá disse...

a passar para desejar um ótimo dia e acompanhar a história.

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

Tintinaine disse...

Este episódio ainda não conhecia! Será que a partir de agora em diante vai ser tudo novo?
Assim espero.

Blog da Gigi disse...

Abençoado dia!!!!!!! Beijos

Anete disse...

Uma continuação com notícias não boas da esposa do Manuel... Puxa!
Uma excursão atribulada, mas com alguns proveitos.

Uma Boa 5ª Feira, Elvira.
Abraço

Odete Ferreira disse...

A acompanhar com muito interesse, como sabes.
É relevante o episódio da Gravelina. Ainda bem que ocorreu perto de um hospital onde foi possível diagnosticar e corrigir o seu problema. Quantas mulheres foram alvo destas superstições!
Bjo, Elvira

Edumanes disse...

Era assim nesse tempo! Não me surpreende o que li nesse episódio. Mas, uma viagem como essa que Manuel ofereceu à sua família não era muito usual, para quem tinha parcos recursos financeiros. Eu nasci no Monte do Vale Burro-Fornalhas Velhas-Vale de Santiago-Concelho de Odemira. Fui criado na Ribeira do Sessal, freguesia de Colos. Até à idade de 21 anos, o mais longe que me desloquei, terá sido num raio de 40 quilómetros. Só no dia 6 de Maio de 1963 é que viajei para a cidade de Elvas, onde assentei praça no Exército. De onde viajei em Julho desse mesmo ano para Abrantes. De onde em Setembro desse mesmo ano, viajei para a cidade de Leiria, e só em Outubro desse ano é que tive a oportunidade de passar por Lisboa, a caminho da santa terrinha, afim de me despedir da minha família e amigos. Estava mobilizado, para no dia 10 de Outubro no Cais da Rocha Conde de Óidos, em Lisboa, embarcar no Navio Pátria, com destino a Moçambique, conforme aconteceu!

Desejo para você amiga Elvira, uma boa tarde, um abraço.
Eduardo.

Mariangela do lago vieira disse...

Coitada da Gravelina... "encosto"... o povo tem cada uma! Ninguém pode ter alguma crise que já pensam o pior, ainda bem que tudo deu certo!
Uma boa tarde Elvira!
Abraços,
Mariangela

José Lopes disse...

Sempre um azar para ensombrar uns poucos momentos de felicidade...
Cumps

Gaja Maria disse...

Naquela altura mal havia acesso aos médicos, coitada da Gravelina e do Manuel. Retrato de tantas famílias naquela época. Beijinho Elvira

Olinda Melo disse...


Um passeio algo ensombrado pela doença da Gravelina mas que teve o seu lado positivo, visto que, com os tratamentos, os "encostos" acabaram.

Abraço

Olinda

Elisa Bernardo disse...

Sempre a acompanhar a história mesmo que tarde e a más horas (2h23) ☺️
Aproveito para lhe desejar uma ótima sexta feira :)
Beijinho grande
elisaumarapariganormal.blogspot.pt

Pedro Coimbra disse...

Insisto na epilepsia.
Bfds

Portuguesinha disse...

Hormonas de compensação? Terá sido?
Fico muito curiosa com as causas e tratamentos de certos males.
Tenho quase a certeza que muitas pessoas perderiam os seus «encostos» se fossem privilegiadas com o diagnostico correto.

Pobre Gravelina... ataques tão graves. Hoje em dia não existiria compaixão - não a que existia nesses tempos. Seria considerada maluca, doida e todos se afastariam. A existência de pena de uma alma atormentada ficou para trás, nesses tempos em que as almas eram mais cristãs e frequentavam a igreja, onde alguns sermões abordavam a importância de ajudar o próximo. Hoje é mais "ajuda-te a ti mesmo".

Maria do Mundo disse...

A fotografia é da maior procissão da minha terra Natal. Já me perdi na história, mas não me esqueci de aqui vir.

Rosemildo Sales Furtado disse...

O pobre nunca é alegre por todo o tempo, há sempre um pouco de tristeza para temperar a alegria. Faz parte da vida.

Abraços,

Furtado.

Zilani Célia disse...

TOMARA QUE A MULHER MELHORE, UM PROBLEMA A MENOS PARA MANUEL.
http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Renata Maria disse...

História que parece ser ficção, mas que na realidade é verdade. Amo.
Beijo*

Laura Santos disse...

Antigamente toda a maleita da qual não se sabiam as razões era considerado "encosto". Felizmente hoje há mais conhecimento.
xx