foto minha
O ano de
1935 foi para Manuel, o ano da sua libertação da aldeia, do conhecer de outras
terras, outras gentes, pois foi nesse ano que veio pela primeira vez para o
sul, para trabalhar na Seca do Bacalhau. Tinha 17 anos e há três, que pedia à
mãe para lhe deixar ir trabalhar para junto dos irmãos. Era um jovem franzino
mas de muita “genica”. Brincalhão, sempre com um chiste na ponta da língua,
Manuel era a antítese dos seus irmãos. Os três anos seguintes, foram para Manuel uma nova rotina. Nos fins de Setembro, ia de camioneta até S. Pedro do Sul, e aí apanhava o comboio para Lisboa. Atravessava o Tejo e ia a pé pela Caldeira do Alemão, na margem do rio Coina, até à Azinheira Velha, nos arredores do Barreiro, onde funcionava a Seca de Bacalhau. Aí trabalhavam perto de quatrocentas pessoas. Muitos “ratinhos” como ele. Mas também muitas mulheres dos arredores, especialmente da Baixa da Banheira, Barreiro e Palhais,embora de Palhais, não fossem muitas, pois também lá havia uma seca de bacalhau, embora não tão grande, quanto a da Azinheira. Os “ratinhos” eram os homens e mulheres do norte, e eram assim chamados pelos “camarros”, nome antigo porque eram conhecidos os barreirenses, e que segundo a lenda era atribuído aos pescadores, que utilizavam as terras barrentas do rio para descansar. Cama sobre o barro, camarro. Embora nessa altura, os barreirenses, ou “camarros” fossem uma minoria, pois a maior parte das pessoas a viverem no Barreiro, eram na sua maioria, algarvios e alentejanos, que tinham vindo para o Barreiro atrás de uma vida melhor, e de um emprego nas fábricas da CUF, ou nas fábricas de cortiça do Nicola e do Alemão. E então, a grande maioria das mulheres que trabalhavam na Seca, viviam nas redondezas e eram mulheres ou filhas de homens que trabalhavam nessas fábricas. Os homens que trabalhavam na safra, na Azinheira, vinham do norte do país, onde quase não havia trabalho, a não ser nos campos. Claro que quando os homens eram casados e tinham filhos, a família os acompanhava. Na Seca havia meia dúzia de habitações. Para o Capitão, - o gerente – e para os empregados de escritório, o electricista, o ferreiro, e os capatazes. O resto do pessoal, se dividia por dois enormes edifícios, chamados de "maltas” .Uma “malta" para os homens, outra para as mulheres. A ”malta” era uma espécie de caserna, com uma parte de quartos, cada um com várias camas, uma zona para duches, e um enorme fogão a lenha, que ocupava toda a parte central do edifício, onde em tempo de actividade, havia duas cozinheiras, na malta das mulheres, e dois cozinheiros na malta dos homens, e um enorme refeitório de longas mesas de pedra, e bancos corridos de madeira. Estes fogões e estes refeitórios iguais nas duas “maltas” serviam não só para o pessoal residente durante as “safras”, mas também para o pessoal dos arredores que ali trabalhavam, que levavam a comida em cru numa pequena panela, deixavam no refeitório, e quando chegava a hora das refeições, ela estava pronta e quentinha.


