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23.3.14

MARIA - VII - DE NOVO APAIXONADA





De novo apaixonada

Por esta altura Elisa não andava bem. Toda a sua vida fora uma mulher forte e saudável, e o seu único receio era de que a loucura de sua mãe fosse hereditária. Embora nunca contasse a ninguém, esse era um medo que carregava no peito e que vinha sorrateiro atormentá-la nas noites de insónia, como se fora um fantasma.
Mas ultimamente não se sentia bem. Começou por uma vaga sensação de desequilíbrio, formigueiro e perda de sensibilidade nas mãos e pés. "Coluna" pensou, e tratou de esquecer. Mas aquela vaga sensação de mal-estar não a deixava esquecer. Começou a emagrecer, mas pensou que até era bom para ela. "Menos peso menos problemas de coluna". Notou que tinha mais fome e sobretudo muita sede. Mas apesar de comer cada vez mais, continuava a emagrecer.
Naquele dia estava no ateliê trabalhando num vestido de noiva com uma das empregadas e sentia-se estranhamente cansada e a vista enevoada fazia com que tivesse dificuldade em ver os delicados pontos do vestido. De repente sentiu um calor que lhe percorria o corpo, uma sensação de opressão no peito e só teve tempo de dizer à empregada que não se sentia bem antes de ficar inconsciente.
Chamada uma ambulância foi levada para o hospital onde ficou internada.
Esteve internada mais de 15 dias. Os médicos descobriram uma diabetes não controlada, com complicações renais, e também uma hipertensão arterial.
Maria teve conhecimento de que a mãe estava no hospital, e esquecendo as mágoas, correu a visitá-la.
Quando Elisa teve alta, nem parecia a mesma mulher. Estava muito magra e encontrava-se muito fraca. Porém estava feliz por a filha a ir visitar quase todos os dias.
Passou algum tempo, Elisa melhorou substancialmente, aprendeu a viver com a doença, e voltou à sua vida normal, de excelente modista, embora tivesse agora mais dificuldade em executar certos trabalhos mais minuciosos por causa dos olhos, mas esses deixava para a sua empregada fazer.
Simultaneamente com as melhoras, voltou também a prepotência em relação à filha. Queria que viesse viver consigo. Maria resistiu. Ela não queria a mãe a tomar conta da sua vida, a fazê-la viver a vida com que ela sonhara e que nunca tivera.
Foi nessa altura que Maria conheceu o homem que viria a ser o grande amor da sua vida. Artur era um jovem simpático, que foi trabalhar para a empresa onde ela já trabalhava. Recém-chegado de Moçambique, onde nascera, tinha uma simpatia que cativava.
E se ela se apaixonou pelo rapaz este também não ficou indiferente à jovem e em breve eram namorados.
Quando a jovem  apresentou à mãe o namorado, esta não foi simpática. E logo que ficou sozinha com a filha, disse-lhe que ela continuava sem juízo, que o rapaz era um "retornado" que não tinha raízes, e um sem número de outras coisas que a filha já nem memorizou tal a ira que a mãe lhe provocou.
Cedo porém Elisa deu-se conta que não ia conseguir separar a filha do namorado. Então resolveu mudar o jogo. Mostrando uma simpatia que não sentia, convidou a futura comadre para um lanche com o pretexto de que era para se conhecerem melhor.
Durante o lanche foi dizendo que a filha "nunca poderia ser mãe, que o homem que se casasse com ela teria que prescindir do sonho de vir a ser pai, mas que tirando isso era uma excelente menina."
Elisa sabia que todas as mulheres sonham com o dia em que são avós. A mãe de Artur se encarregaria de convencer o filho a não continuar aquela relação.
Enganou-se.
Maria e Artur casaram em Julho de 1985 num lindo dia de Verão.



continua



(direitos reservados)

21.3.14

MARIA - VI - A REVIRAVOLTA





A reviravolta

Cedo Maria percebeu que o marido não era o homem que ela imaginara antes do casamento. Depois de uma semana de lua-de-mel em Braga, regressaram para um quarto na casa dos sogros. Tudo bem que eles se esforçaram e durante essa semana transformaram o quarto de solteiro do filho num bonito e confortável quarto de casal. Mas não era a sua casa. Paulo tinha-lhe prometido que assim que chegassem ia começar a procurar casa para eles, mas agora parecia não estar muito interessado nisso.
-Quando o bebé nascer, juro que trato de alugar casa. Agora é melhor ficarmos aqui, a minha mãe está atenta a qualquer coisa e eu vou trabalhar mais descansado – dizia ele quando Maria o pressionava.
Ela calava-se  mas não era feliz. A sogra era simpática, mas sempre dava um jeito de lhe fazer ver que a casa era dela.
Em Junho, na véspera de S. João, Maria sofreu um aborto espontâneo e perdeu o bebé.
Foi um grande desgosto. Que se tornou numa dor sem tamanho quando a mãe a visitou e lhe disse:
-Foi melhor agora que mais tarde. Tinha-te avisado. Não vais poder ter filhos. E por teimosia estragaste o teu futuro.
Nesse momento Maria sentiu um ódio intenso pela mãe. E não se conteve.
- Pois eu te juro que vou ter os filhos que quiser. Porque é que tu foste mãe e eu não posso ser? Quem julgas tu que és? Um ser superior? Odeio-te. Põe-te na rua e esquece que me conheces. Nunca mais te quero ver.
Elisa saiu acabrunhada. Ela era assim parecia uma mulher seca, nunca a ensinaram a ser de outro jeito. Talvez se o marido tivesse vivido mais uns anos, quem sabe até mais uns meses ela seria hoje uma mulher diferente. Mas Alberto inicialmente só se preocupou com o ser ar de aldeã. E depois a sua morte prematura, e a necessidade de sobreviver sem ele tornou-a ainda mais seca. Porém ela amava a filha e o que queria era vê-la feliz. Talvez os métodos estivessem errados, mas Elisa não se dava conta disso.
Longe da mãe, e depois do desgosto inicial, Maria decide retomar os estudos. Mas o marido não deixa. Isso, e o facto de continuar a viver com os sogros, que apoiavam o filho e achavam que lugar de mulher casada era em casa, fez com que a jovem "abrisse os olhos" e começasse a pensar que se tinha visto livre da "tirania" da mãe para cair num lugar onde não tinha liberdade, nem intimidade. Sentia-se enjaulada. E o sonho que tinha alimentado de um casamento feliz foi desaparecendo aos poucos até que o casamento não era mais do que uma enorme desilusão, à qual ela deu fim com o divórcio logo que fez 18 anos.
Sozinha, Maria resolveu dar um novo rumo à vida. Não queria ir para casa da mãe. Nem ficar a viver na zona para não se encontrarem. Não lhe perdoava o não ter tido uma palavra de consolo quando ela perdeu o bebé.
Empregou-se em Lisboa, alugou um pequeno apartamento com mais duas jovens, voltou a estudar à noite e sentiu-se enfim uma mulher livre e feliz.
Um ano depois essa felicidade já não era tanta assim. Maria tinha muitas saudades da mãe. Disse-me um dia em que me procurou para saber dela, que sem a mãe se sentia incompleta. Como se lhe tivessem amputado uma parte do corpo.
"Não sei explicar que diabo de sentimento é este. Sinto raiva, amor, saudade. E sinto ódio. Por ela, pelo carinho que nunca lhe senti, e por mim, que nunca fui capaz de lhe cobrar esse carinho, que sempre vi nela a mulher sem erros, e sempre me senti inferior"


Continua


(direitos reservados)

Bom amigos, relativamente à minha saúde já retomei a minha vida normal, embora ainda tenha um pouco da tosse alérgica.  Mas enfim outros males não apareçam que este mais dia menos dia também acaba.
Obrigada a todos pelo vosso carinho e cuidado. Que Deus vos abençôe.

18.3.14

MARIA - V - O CASAMENTO DE MARIA




O casamento de Maria


Foi neste ambiente de dor e raiva que Maria veio ao mundo.
Quando lhe pegou ao colo pela primeira vez, Elisa jurou que a sua filha não ia ser um joguete do destino como ela fora. A sua menina ia estudar, ter uma carreira, ser independente. Foi o seu primeiro erro. Ela não se dava conta que a estava a traçar para a filha, a vida que ela quisera ter.
Ao fim e ao cabo com uma meta diferente, mas estava a cometer o mesmo erro que tinham cometido com ela.
Com o dinheiro que o marido lhe deixara, alugou uma casa, montou um ateliê e começou a costurar para várias lojas. O trabalho cresceu, as suas criações fizeram sucesso e em breve tinha duas ajudantes no ateliê, e contratava uma ama para a filha já que lhe faltava o tempo e a disposição para ela. Foi o segundo erro. A filha ia sentir esse afastamento como uma rejeição.
Maria era a criança mais bem vestida do bairro. A mãe sempre estava fazendo belos vestidos para a filha que mais parecia uma boneca, que menina rica se entretivesse a mudar de roupa a todas as horas. Pouco depois de completar 4 anos ficou doente.
Vários médicos e muitos exames depois foi detectado uma doença óssea. Elisa foi aconselhada a levar a filha para Londres onde havia um médico especializado nessa doença. Ela contactou um dos irmãos que emigrara para lá cinco anos antes e contou o que acontecia com a filha. Recebeu como resposta, as passagens de avião e algumas libras, bem como a afirmação de que as esperava no aeroporto.
Partiram as duas e um mês depois Elisa regressou sozinha. Não podia estar tanto tempo longe do ateliê, e o irmão ficava com Maria até que ela estivesse curada.
Mais uma vez Maria sentiu que não era muito importante para a mãe.
Um ano depois Elisa voltou a Londres para buscar a filha. Segundo os médicos uma cirurgia resolveu o problema da malformação óssea das mãos, e dos pés, e com a medicação esperavam que não surgissem novos problemas com o crescimento. Porém Maria nunca poderia vir a ser mãe, porque a sua bacia não aguentaria as transformações de uma gestação.
Custa a crer à luz da medicina atual, que um médico dissesse "nunca". Porém Elisa sempre repetiu isto ao longo dos anos, tantas e tantas vezes, que a filha foi crescendo revoltada consigo mesmo por se achar inferior. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que comentamos esta história. Ela disse-me. "Eu vou ser mãe. Ela vai ver que eu sou capaz" Raras vezes Maria se referia à mãe como tal. Quase sempre dizia "ela".
Elisa era muito exigente com a filha. Ela sonhava a filha como um modelo de perfeição, e definitivamente ela era uma criança normal, uma adolescente igual a tantas outras.
E assim Maria foi crescendo com uma relação muito difícil com a mãe. Sentia-se incapaz de ser como a mãe desejava e isso amargurava-a. Para se "vingar"estava sempre a contrariar a mãe. Se esta lhe dizia para vestir umas calças, ela vestia saia, se lhe dizia para vir direta da escola para casa, ela ia para casa de uma amiga.
Maria era meiga com a sua ama. Também comigo. Até mesmo com a professora. Mas não com a sua mãe. Era uma relação estranha, como se estivessem sempre medindo forças entre si.
Porém quando a mãe chorava, Maria refugiava-se no seu quarto e chorava também. Era uma estranha relação de amor-ódio que durou muito para além da infância e adolescência. Eu diria até que durou toda a vida.
Quando fez 17 anos começou a namorar, e aí "caiu o Carmo e a Trindade" como soe dizer-se. A mãe não consentia o namoro. E ameaçou manda-la estudar para Londres, telefonou ao irmão para sondar a hipótese de ele receber lá a sobrinha. Resultado? Maria ficou grávida e decidiu que ia casar. A mãe repetiu o que sempre disse sobre uma possível gravidez. E disse mais. Que não ia haver casamento nenhum, que ela ia fazer um aborto, que era uma menina que tinha que estudar, ir para a universidade etc...etc. ...
A jovem não se convenceu. Disse que se a mãe não autorizasse o casamento fugia de casa e nunca mais ia saber dela. E mais, ameaçou a mãe de ir à polícia denunciá-la por querer obrigá-la a fazer um aborto.
Casou-se num Sábado à tarde. Era o mês de Maio de 1975.


Continua

(direitos reservados)


Bom amigos a boa notícia é que há quatro dias não tenho nenhuma crise de falta de ar, a sinusite, otite e conjuntivite já se foram e a tosse está quase. Ou seja. Com a graça de Deus e muitos medicamentos estou quase totalmente recuperada. 
Um curiosidade.
A foto acima, é a minha no dia do meu casamento religioso em Nampula no ano de 1971. Estava já casada há mais de 3 anos pela lei dos homens. Atenção que só usei a foto porque achei que se enquadrava no tema. A história é ficção nada tem a ver comigo que tenho um casamento de 46 anos graças a Deus muito feliz.

15.3.14

MARIA - IV - A MÃE DA MARIA




 A mãe da Maria

Naquela noite custei a adormecer. O reencontro com Maria trouxe à tona sentimentos que na azáfama diária a gente até esquece. Em tempos houve entre nós uma grande amizade e uma certa cumplicidade. Eu via em Maria a filha que o destino não me quisera dar. Ela via em mim… bom, sei lá o que na verdade ela via em mim. Talvez uma irmã mais velha, talvez a mãe que ela gostaria de ter, talvez tão só uma amiga muito especial a quem se confiam segredos que são só nossos.
Elisa, a mãe de Maria era a única rapariga dos sete filhos que seus pais tiveram. A última quando a sua mãe já desesperava com tanto rapaz. Nascera por um “descuido” do pai, porque a verdade é que na aldeia se dizia que sete filhos rapazes, o mais velho ou o mais novo seria lobisomem, e a pobre da avó de Maria, levou os nove meses até ao parto a pedir a Deus que fosse uma menina. Fez até uma promessa de ir a Fátima a pé se obtivesse essa graça. Por isso quando Elisa nasceu foi uma alegria e um alívio sem tamanho.
A menina cresceu sempre cercada dos cuidados dos irmãos que a tratavam como se ela fosse uma joia preciosa e a protegiam de tudo e todos como se o simples aproximar de alguém lhe pudesse roubar o brilho. Nunca foi brincar com outras crianças a não ser no pátio da escola e sempre debaixo do olhar protector de um dos irmãos. Já adolescente, não saía de casa, onde a mãe a ensinava a costurar, e a fazer lindos panos de renda que haviam de ser para o seu enxoval. Aos poucos os irmãos foram deixando a aldeia rumo à capital em busca de uma vida diferente. Elisa também sonhava com esse dia, mas como deixar a aldeia? Os pais não deixavam, era o que faltava uma mulher solta no mundo. Só se fosse casada. Porém os rapazes escasseavam na aldeia. Não foram apenas os seus irmãos que foram em busca de nova vida. Quase todos os rapazes jovens o fizeram. Alguns foram até para o Brasil. De modo que Elisa foi ficando em casa dos pais e as esperanças de uma vida diferente iam-se desvanecendo com o passar dos anos.
Um dia, o pai de Elisa sofreu uma trombose e em poucas horas morreu. A mulher enlouqueceu. Os vizinhos diziam que fora do desgosto, os filhos também acreditavam nisso, mas a filha sabia bem que há largos meses vinha notando atitudes na mãe que denotavam a caminhada rumo à demência. A morte do marido fez com que a caminhada fosse mais rápida, e aquilo que até aí só a filha notara, passou a ser visto por toda a aldeia.
Elisa cuidou da mãe até ao último momento. Se antes da morte do pai ela não podia sair nem ter amizades porque lhe era proibido, depois ainda que o quisesse, também não o conseguiria. As pessoas olhavam-na com desconfiança e murmuravam entre dentes.
“Coitada, vai acabar louca também”
Depois do funeral da mãe, Elisa arrumou as suas poucas roupas numa maleta e veio com os irmãos para Lisboa. Tinha 29 anos de uma vida de repressão e clausura e nenhuma experiência de vida.
Quando dois meses depois o irmão lhe disse que um amigo queria casar com ela e que ela devia aproveitar, pois em breve envelheceria e já não teria oportunidade de arranjar marido, Elisa aceitou correndo, ansiosa por conhecer uma vida diferente por ter a sua casa, a sua vida.
Alberto, era um homem bom, trabalhador, que a amou e lhe deu uma vida como ela nunca teve.
Ensinou-lhe a tirar partido da sua beleza, ensinando-lhe como se vestir para realçar o seu corpo delgado mas bem proporcionado. Levou-a a um salão, onde lhe cortaram a trança, fazendo-lhe um corte que a rejuvenesceu e lhe tirou aquele ar provinciano que ostentava quando casou. Também lhe ensinaram como usar um batom e uma sombra para realçar a boca e os olhos que já de si eram muito bonitos.
Em pouco tempo nada restava da Elisa que a aldeia conhecera. Pelo menos na aparência.
Alberto gostava de sair com a mulher que exibia aos amigos com orgulho, e a quem fazia todas as vontades, especialmente quando Elisa lhe disse que ia ser mãe.
Porém Alberto não chegou a ver esse bebé nascer. Morreu uma tarde de Julho quando regressava do trabalho, colhido por um comboio na passagem de nível sem guarda.
Elisa julgou enlouquecer de dor e raiva. Dor porque aprendera a amar o marido, e raiva contra o destino que parecia não querer que ela fosse feliz.



Continua


(direitos reservados)


À margem.  Como este conto já está escrito na totalidade, as postagens sairão de 3 em 3 dias.  Entretanto eu continuo com altos e baixos, com dias que parece que já estou boa e outros em que parece que voltei ao início. Vamos a ver no que isto acaba 

11.3.14

MARIA - III - UMA VELHA AMIGA

A boa notícia é que estou muito melhor. E que a continuar assim lá para o fim de semana penso estar completamente recuperada. Muito obrigada a todos os que me apoiaram nesta fase má da minha saúde.


Uma velha amiga

-Boa tarde – saudei ao reconhecê-la. Não me diga que veio ver o pôr-do-sol.
-Olá amiga – respondeu enquanto nos cumprimentávamos. Nem a tinha visto. Estava aqui numa de recordar o passado.
- Às vezes recordar é viver. Veio sozinha? – Perguntei intrigada.
- Estou sozinha amiga. A minha vida deu uma volta que às vezes nem eu própria acredito. Vamos andando que lhe conto tudo. Na verdade tinha vontade de passar por sua casa. Mas receava incomodar, e por isso vim para aqui.
- Incomodar? Isso nem parece seu. Vamos embora. E janta connosco.
No silêncio que se seguiu dei-lhe o braço e encetámos a caminhada até minha casa. Eu aguardava que ela falasse. Há quanto tempo não a via? Oito, dez anos talvez. E admirava-me vê-la sozinha. E o marido? Porque não estava com ela?
- Estou divorciada.
Parei. Era surpreendente. Maria sempre tivera esse dom. Adivinhar os meus pensamentos. Quando criança, era uma espécie dum jogo, depois foi transformando-se num hábito. Quantas vezes pensei dizer-lhe alguma coisa, e ela me respondia antes que eu concretizasse a pergunta? Tantas que lhe perdi a conta. Era como se para ela os meus pensamentos estivessem escritos na testa. O contrário também acontecia por vezes. Mas era muito raro.
Naquele momento a minha surpresa era pelo teor da informação.
Conheci-a há quarenta anos atrás. Ela era uma menina e eu mulher feita e casada. Gostei dela assim que a vi, com aquele instinto maternal que nós mulheres temos e que nos faz olhar as crianças e pensar nelas como se fossem um pouco nossos filhos. Ela também se afeiçoou a mim e foi crescendo e alimentando a amizade que nos unia.
Maria não era uma mulher de grande beleza embora fosse considerada uma mulher bonita. Rondaria o metro e sessenta de altura, de corpo esbelto, rosto oval, olhos verdes rasgados e boca bem desenhada, que mostrava ao sorrir uma longa fileira de dentes alvos. Testa alta, cabelo curto e liso, escuro. O nariz, um pouco comprido, destoava e retirava grande parte da beleza do rosto.
Estava casada há quase 20 anos e ela e o marido formavam um dos casais mais apaixonados que eu conhecia. Por isso a sua informação me surpreendeu tanto. Caminhámos em silêncio, eu esperando a confidência, ela perdida nos tortuosos caminhos das suas recordações.
- Não sabe o quanto tenho sofrido. A minha vida desandou e eu fui caindo, caindo até bater no fundo. Agora estou tentando voltar a sentir gosto pela vida. Mas está difícil.
Chegámos a casa, onde o meu marido já me esperava para jantar. Também ele ficou surpreso com a presença da minha amiga, mas discreto não fez perguntas.
O jantar decorreu numa animação forçada. Maria esforçando-se por mostrar uma alegria que não tinha, e nós fingindo que acreditávamos. O serão decorreu sem qualquer confidência da sua parte, talvez pela presença do meu marido, e combinamos encontrar-nos no dia seguinte para ela “lavar a alma” palavras suas ditas baixinho enquanto me abraçava na despedida.

Continua


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10.3.14

MARIA - II - A SURPRESA


                          notícias da minha saúde
(Acabei de chegar do médico. Isto porque apesar de estar muito melhor, continuo com tosse e falta de ar.
E então vou ter mais 15 dias de antialérgico, " Bilaxten " de spray nasal "Avamys" e ainda uma bomba, "Assieme" E voltar lá daqui a 15 dias se ainda não estiver totalmente bem.)


A Surpresa

A praia fica uns dois metros abaixo do nível da Quinta. Daí que as águas do rio nunca viessem até às oliveiras mesmo nas marés vivas de Agosto, ou quando estava mau tempo no Inverno. O mesmo não se passa do outro lado da azinhaga onde começa a Seca que ali naquele sítio está ao nível do rio.Daí que um pouco mais à frente onde as cassas e armazéns da Seca começam, o arame farpado dê lugar a uma parede de cimento que nós chamávamos muralha.  Mas ali naquele canto, onde hoje apenas se vêm ervas, existia o grande barracão de madeira onde meus irmãos nasceram e onde habitámos durante toda a nossa infância. Por isso ele estava assente em pilares de cimento, com mais de mais de um metro de altura. Para que não acordássemos em dia de marés grandes, dentro de água.

Atravessei a azinhaga e mergulhei os pés na faixa de areia, agora bem pequena, e transportada para lá por camiões da Câmara, já que a areia original da praia, desapareceu toda com o empurrar do rio para o lado de cá pelos aterros da Siderurgia Nacional. Fui caminhando lentamente. As águas de tão calmas pareciam artificiais. O sol estava prestes a desaparecer no horizonte e deixava nelas um rasto avermelhado, como uma estrada de fogo.
Sentei-me na areia entre dois tufos de junco, e perdi-me nas minhas recordações. Lembrei-me daquela vez em que saí de casa para apanhar amoras naquelas silvas do outro lado da cerca, e fiquei presa nelas sem conseguir desenvencilhar-me dos picos que me prenderam a saia. Não me recordo que idade tinha, mas era muito pequenina. Chorei tanto com medo que ninguém me encontrasse. E os meus pais aflitos percorrendo a margem do rio pensando que eu teria ido para lá e quem sabe estaria afogada.

“Vi” o meu irmão, brincando sozinho com a areia, abrindo poços e fazendo construções, e a minha irmã escondendo-se com medo dos GNR, que vinham de vez em quando a cavalo até à Seca, onde se reuniam com a Guarda-fiscal, cujo posto ficava no topo norte da malta das mulheres. “Vi” o grande barracão lá bem no cantinho, encostado à cerca, e o portão que aí havia e que a minha mãe abria todas as manhãs para o pessoal que vinha do Barreiro a pé pela Caldeira do Alemão para trabalhar na Seca. Quando passava a última pessoa, a minha mãe fechava o portão e ia com ela para o trabalho na Seca. À noite saía um pouco mais cedo e vinha na frente para abrir o portão.

Lembrei do quintal enorme que meu pai cultivava, do feijão verde, que nós comíamos cru sempre que alguma vagem nos chamava a atenção, ou quando tínhamos fome e os pais ainda não tinham vindo do trabalho, os tomates as cenouras, e até as cebolas que comíamos com um pouco de sal.

“Vi” o meu pai encostando uma escada de madeira ao barracão, subir ao telhado e colocar lá a bandeira do seu clube, naquele ano em que o Porto foi campeão na década de 50. Era tão raro naquela altura o F.C.P. ganhar alguma coisa.

O sol desaparecera no horizonte, o dia prestava-se para dar lugar à noite, e decidi regressar a casa.

Ao chegar à Quinta quedei-me surpreendida. Na minha frente levantava-se a mulher que me intrigara uma hora antes. E era afinal uma velha conhecida…


Continua

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6.3.14

MARIA - I - REGRESSO AO PASSADO.

Graças a Deus estou em franca recuperação, embora ainda em tratamento que só termina no próximo domingo. O que eu tive foi uma crise alérgica, que desencadeou uma crise de sinusite, o tratamento para a sinusite fez piorar a alergia, o medicamento foi trocado por outro que me provocou vómitos e alucinações, o que me levou de novo às urgências e nova troca de medicamentos. Enfim foram 3 idas às urgências em menos de 10 dias mas à última acertaram e estou muito melhor. Sem nada de novo, nem grande disposição criativa por enquanto, vou republicar um conto, já antes aqui publicado, na época em que eu publicava e retirava as publicações pouco depois pelo que muitos de vós não o devem ter lido. Espero que gostem




Regresso ao passado

Foi num fim de tarde de Setembro, quando o Verão caminha já ao encontro do Outono. O dia estivera bonito, um sol radioso, mas já sem aquele calor abrasador do pino do Verão.

Aí pelas seis da tarde, a saudade invadiu-me o peito e aos poucos foi-se instalando, qual erva daninha, alastrando na horta. Saudade dos meus tempos de menina, vivendo à beira-rio, do pôr-do-sol tingindo de vermelho as calmas águas, do cheiro a limo, do bater dos remos dos pescadores.

Eu não sou mulher de ficar remoendo a saudade, quando estou numa situação privilegiada para ir até lá passear um pouco na praia, molhar os pés na água, e quem sabe encetar uma viagem ao passado das minhas recordações e aos meus tempos de menina.

Peguei nas chaves, e num livro. Não porque estivesse a pensar ir ler para a beira-rio, quando o entardecer se apressava, mas porque sempre considerei um livro como um amigo, e ter um amigo por perto sempre foi um amparo para as minhas emoções.

Desci os dois lances de escada, atravessei a estrada, e entrei na quinta que me ia levar à margem do rio Coina, uns metros adiante. Enquanto caminhava pela quinta, que de quinta apenas tem o nome, pois se trata de um descampado de uns 300 metros ao fundo do qual um pinhal dava inicio à descida acentuada que terminava lá bem na margem do rio, uns 250 metros adiante.

Desci quase correndo levada pela urgência das recordações.

No fundo a todo o comprimento da quinta, uma fileira de oliveiras que as pessoas utilizavam como sombra, quando no Verão procuravam a praia. Em tempos aquela quinta era chamada a Quinta do Xavier, e da parte de cima das oliveiras, havia imensas figueiras, com cujos frutos os meus irmãos, e todas as outras crianças pobres do sítio se deliciavam. Porque aquela quinta sempre foi pública. Uma azinhaga servia de caminho para quem descia da Telha para a praia. E no Verão aquela praia ficava tão povoada como a melhor praia da actualidade. A extensa fieira de oliveiras, e as imensas figueiras serviam de sombra para as pessoas acamparem por baixo e fazerem belos piqueniques sob a sua sombra. Claro que isto foi há muitos anos atrás antes da Siderurgia Nacional se ter instalado no Seixal, o que empurrou o rio para a Quinta do Xavier e roubou a bela margem de areia da praia. Também o progressivo desenvolvimento do Barreiro, com o consequente aumento de esgotos para o rio, transformou a ótima qualidade de água em qualquer coisa, imprópria para o banho.

Do outro lado da azinhaga, a cerca de marcos com arame farpado, que delimita a antiga Seca do Bacalhau da Azinheira Velha. Mesmo junto à cerca, ficava o barracão onde vivi a minha meninice, e onde nasceram meus irmãos. Parei ali por momentos, olhando para o passado, ouvindo o som da briga dos meus irmãos, ou o barulho da corrente do cão no arame, por onde ele corria dum lado ao outro do barracão.

De súbito, voltei ao presente com um leve som, e fiquei surpresa ao notar que não estava sozinha. Ali ao lado debaixo de uma oliveira, sentada no chão, uma mulher que me pareceu ainda jovem, mas que escondia a cara nos joelhos fletidos. Parecia que não tinha dado por mim e como eu também não estava interessada noutra coisa que não aquele regresso ao passado, resolvi afastar-me em direcção à água, não sem antes ter lançado um novo olhar à figura e me ter parecido achar-lhe qualquer coisa de familiar.


Continua


(direitos reservados)