18.3.14

MARIA - V - O CASAMENTO DE MARIA




O casamento de Maria


Foi neste ambiente de dor e raiva que Maria veio ao mundo.
Quando lhe pegou ao colo pela primeira vez, Elisa jurou que a sua filha não ia ser um joguete do destino como ela fora. A sua menina ia estudar, ter uma carreira, ser independente. Foi o seu primeiro erro. Ela não se dava conta que a estava a traçar para a filha, a vida que ela quisera ter.
Ao fim e ao cabo com uma meta diferente, mas estava a cometer o mesmo erro que tinham cometido com ela.
Com o dinheiro que o marido lhe deixara, alugou uma casa, montou um ateliê e começou a costurar para várias lojas. O trabalho cresceu, as suas criações fizeram sucesso e em breve tinha duas ajudantes no ateliê, e contratava uma ama para a filha já que lhe faltava o tempo e a disposição para ela. Foi o segundo erro. A filha ia sentir esse afastamento como uma rejeição.
Maria era a criança mais bem vestida do bairro. A mãe sempre estava fazendo belos vestidos para a filha que mais parecia uma boneca, que menina rica se entretivesse a mudar de roupa a todas as horas. Pouco depois de completar 4 anos ficou doente.
Vários médicos e muitos exames depois foi detectado uma doença óssea. Elisa foi aconselhada a levar a filha para Londres onde havia um médico especializado nessa doença. Ela contactou um dos irmãos que emigrara para lá cinco anos antes e contou o que acontecia com a filha. Recebeu como resposta, as passagens de avião e algumas libras, bem como a afirmação de que as esperava no aeroporto.
Partiram as duas e um mês depois Elisa regressou sozinha. Não podia estar tanto tempo longe do ateliê, e o irmão ficava com Maria até que ela estivesse curada.
Mais uma vez Maria sentiu que não era muito importante para a mãe.
Um ano depois Elisa voltou a Londres para buscar a filha. Segundo os médicos uma cirurgia resolveu o problema da malformação óssea das mãos, e dos pés, e com a medicação esperavam que não surgissem novos problemas com o crescimento. Porém Maria nunca poderia vir a ser mãe, porque a sua bacia não aguentaria as transformações de uma gestação.
Custa a crer à luz da medicina atual, que um médico dissesse "nunca". Porém Elisa sempre repetiu isto ao longo dos anos, tantas e tantas vezes, que a filha foi crescendo revoltada consigo mesmo por se achar inferior. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que comentamos esta história. Ela disse-me. "Eu vou ser mãe. Ela vai ver que eu sou capaz" Raras vezes Maria se referia à mãe como tal. Quase sempre dizia "ela".
Elisa era muito exigente com a filha. Ela sonhava a filha como um modelo de perfeição, e definitivamente ela era uma criança normal, uma adolescente igual a tantas outras.
E assim Maria foi crescendo com uma relação muito difícil com a mãe. Sentia-se incapaz de ser como a mãe desejava e isso amargurava-a. Para se "vingar"estava sempre a contrariar a mãe. Se esta lhe dizia para vestir umas calças, ela vestia saia, se lhe dizia para vir direta da escola para casa, ela ia para casa de uma amiga.
Maria era meiga com a sua ama. Também comigo. Até mesmo com a professora. Mas não com a sua mãe. Era uma relação estranha, como se estivessem sempre medindo forças entre si.
Porém quando a mãe chorava, Maria refugiava-se no seu quarto e chorava também. Era uma estranha relação de amor-ódio que durou muito para além da infância e adolescência. Eu diria até que durou toda a vida.
Quando fez 17 anos começou a namorar, e aí "caiu o Carmo e a Trindade" como soe dizer-se. A mãe não consentia o namoro. E ameaçou manda-la estudar para Londres, telefonou ao irmão para sondar a hipótese de ele receber lá a sobrinha. Resultado? Maria ficou grávida e decidiu que ia casar. A mãe repetiu o que sempre disse sobre uma possível gravidez. E disse mais. Que não ia haver casamento nenhum, que ela ia fazer um aborto, que era uma menina que tinha que estudar, ir para a universidade etc...etc. ...
A jovem não se convenceu. Disse que se a mãe não autorizasse o casamento fugia de casa e nunca mais ia saber dela. E mais, ameaçou a mãe de ir à polícia denunciá-la por querer obrigá-la a fazer um aborto.
Casou-se num Sábado à tarde. Era o mês de Maio de 1975.


Continua

(direitos reservados)


Bom amigos a boa notícia é que há quatro dias não tenho nenhuma crise de falta de ar, a sinusite, otite e conjuntivite já se foram e a tosse está quase. Ou seja. Com a graça de Deus e muitos medicamentos estou quase totalmente recuperada. 
Um curiosidade.
A foto acima, é a minha no dia do meu casamento religioso em Nampula no ano de 1971. Estava já casada há mais de 3 anos pela lei dos homens. Atenção que só usei a foto porque achei que se enquadrava no tema. A história é ficção nada tem a ver comigo que tenho um casamento de 46 anos graças a Deus muito feliz.

19 comentários:

Luis Eme disse...

grande Maria, mulher-coragem.

abraço Elvira

Anne Lieri disse...

Linda foto,Elvira! E só agora me toquei que a história é sua!Muito comovente e dificeis situações de vida! bjs,

Bell disse...

História de superação.
Os pais de tanto amarem e quererem o melhor para os filhos acabam errando e feio.
Cada escolha que um filho faz, por mais que o pai não aceite é preciso apoiar. Falo isso todo santo dia.
Se vc não apoia seus filhos o mundo os abraça ( com tudo de ruim e bom que ele tem).

bjokas =)

eduardo maria nunes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
eduardo maria nunes disse...

Até aqui já se sabe como foi a vida da Maria. Só espero que este conto tenha um fim feliz.
Olhando para o bolo e recordar aquele feliz acontecimento, só é pena é tudo acabar!
Quanto à sua saúde, força amiga Elvira, não se deixe por o que lhe faz mal vencer!
Um abraço
Eduardo.

António Querido disse...

"Dos fracos não reza a história", como diz o nosso povo! Eu também ontem acabei o antibiótico, fiz uma faringite,seguida de dores musculares e problemas respiratórios, hoje já andei a semear batatas, temos que ser mais fortes e lutar contra as malvadas que nos atacarem!
Gostei da foto, fez-me lembrar a minha Celeste, quando em 1968, partíamos o nosso bolo, ainda hoje na data de aniversário, (dia de São Pedro), comemoramos com o mesmo carinho e amor, desejo as suas rápidas melhoras!
Com o meu abraço

Renata Maria disse...

Só superam os que têm fibra. Como Maria, como Maria Elvira, que supera a doença e nos deixa felizes.
Beijos,
Renata

Andre Mansim disse...

Oi Elvirinha!
Que bom que está quase 100% recuperada! fico muito feliz, pois gosto muito de você!

O texto está bom demais, vc fala de familias e de histórias envolvendo o cotidiano bem demais. Já te falei, vc tem que ler Erico Verissimo.

Hahahahahahahaha. Um beijão!

esteban lob disse...

Me alegro mucho que esas enemigas tan desagradables, otitis,sinusitis y conjuntivitis ya te hayan dejado tranquila, apreciada Elvira.

Sónia M. disse...

A coragem das mulheres
mesmo contra as mulheres...

Adorei as fotos e fico feliz em saber que se encontra melhor.

O meu abraço

Olinda Melo disse...


Ai, tenho de vir ler os outros posts para saber a história toda.

Ainda bem que já se sente melhor. Desejo-lhe total recuperação.

Bj

Olinda

luís rodrigues coelho Coelho disse...

As suas narrativas de casos comuns prende-nos a atenção.
A relação entre pais e filhos nem sempre é a melhor. Muitas vezes o dinheiro e a ambição sobrepõem-se aos valores da união, respeito e amor.
Pior é que as pessoas continuam repetindo os mesmos erros. Parece que sabem o mal mas não querem mudar as atitudes.

LUZ disse...

Olá, estimada Elvira!

Já li, aqui, que está em franca recuperação, graças a Deus e à medicina.

Li, com tenção e reflexão, mais uma parte do seu conto, que é pura ficção, mas acho que tanto mãe, quanto filha, não procederam da melhor maneira.

Agora, os filhos já podem ir à polícia, quando levam um açoite, ou mesmo, noutras situações.
Casar e ter filhos era a fuga, noutros tempos. Agora, não precisam de fugas, porque a vida é delas/es, tal como o corpo.
Uns conseguem ser felizes, outros, a maioria, são profundamente infelizes.

Que bonita, Elvira, no dia do seu casamento católico! Elegantíssima, e de verde, porque o vosso casamento tem sido sempre, PRIMAVERAS.

Beijos, com apreço e amizade para todos.

Zé Povinho disse...

Estou a colocar a leitura em dia. Bonita fotografia...
Folgo que a saúde esteja a caminhar bem.
Abraço do Zé

Fátima Pereira Stocker disse...

Boa noite, Elvira

Desculpe a minha ausência, mas ando tão cansada que só ligo o computador para o trabalho. São etapas que é preciso viver, apesar de nos tirarem o tempo para aquilo de que gostamos.

Beijos

Maria Rodrigues disse...

Elvira, que lindos e romanticos estão na foto.
Ainda bem que se sente a recuperar.
Hoje passei especialmente para desejar um feliz Dia do Blogueiro.
Beijinho e continuação das suas melhoras.
Beijinhos
Maria

Emília Pinto disse...

Antes de mais, Elvira, quero dizer-lhe que fiquei muito contente por saber que está completamente recuperada. Ainda bem, pois agora chegou a Primavera e tem que aproveitar o bom tempo e as flores que ela nos trará. Quanto aos contos, mais uma vez, retratam experiências de vida, umas felizes e outras dolorosas e sempre com bastantes erros cometidos de parte a parte. Havia bastante exagero, naqueles tempos, por parte dos pais em relação ao comportamento e atitudes dos filhos e agora passa-se precisamente o contrário; passou-se dos 8 aos 8ooo, como se costuma dizer; não há maneira de se encontrar o equilibrio necessário nos relacionamentos , quer nas famílias, quer na sociedade em geral. Cá estarei para continuar a acompanhar esta história, amiga. Boa noite e que a saúde não volte a faltar-te. Um beijinho.
Emília

Dorli disse...

Oi Elvira,
Em tempo algum eu iria deixar nem que fosse minha mãe fazer nas minhas escolhas, minha mãe só usava linho e eu nunca gostei de frescuras, usava o que gostava e casei-me com quem quis.
Ninguém pode obrigar uma pessoa fazer o que não quer, depois ela se revolta e faz besteiras.
Feliz pela sua melhora
Beijos
Lua Singular

Olinda Melo disse...


A Elisa, coitada, não teve uma vida fácil. E a Maria também muito cedo viu-se confrontada com a doença e a ideia de que a mãe não a amava...

O que irá acontecer a seguir?

Bj

Olinda