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10.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXV






No seu escritório, Pedro não conseguia concentrar-se no trabalho. O seu corpo estava ali, mas o pensamento estava com Joana, e com a sua vida pessoal. Há mais de ano e meio que se casara. E nunca em toda a vida, pensara que a vida matrimonial, lhe desse tanto prazer, e o fizesse tão feliz. Quase esqueceu aquela maldita cláusula  de que o casamento teria que durar no mínimo dois anos. Habituado a lidar com os negócios, não teve em conta sentimentos. Apenas pensou no filho, e esse era o tempo que ele pensava necessário para conquistar o menino e estabelecer, um laço afetivo que levasse a que qualquer juiz lhe entregasse a guarda dele, se houvesse divórcio. Toda a vida lidara com mulheres interesseiras, por isso apesar de Joana ter dito que não queria o seu dinheiro, ele fez questão de se acautelar e de estipular no documento a verba a que ela teria direito no fim dos dois anos em caso de separação. 
Mas Joana não se parecia em nada com as mulheres com quem lidara antes. Ela nunca teria aceitado aquele negócio se não fora a doença da mãe. Era boa filha, uma excelente mãe, e uma lutadora, que durante o ano e meio que durava o casamento, nunca aceitara a vida que ele lhe podia proporcionar, e lutara sempre pela sua independência económica. E a verdade é que cada dia tinha mais trabalho, e não raro tinha de recorrer a  uma agência de trabalhos temporários para contratar pessoal que serviam, as suas iguarias nas festas mais importantes.
Porém ultimamente ela estava diferente. Andava pensativa, tinha perdido o brilho no olhar, e até o seu sorriso parecia forçado.
Ele tinha vontade de lhe perguntar o que se passava. Mas o medo de que ela lhe dissesse que estava cansada, farta dele, e queria o divórcio era maior do que tudo o resto. Nunca acreditara no amor, e nem sabia se aquilo que sentia era amor, só sabia que ela se tornara numa necessidade tão importante para ele como o ar que respirava. Não queria que o casamento acabasse, sentia que a vida deixaria de ter sentido se ela partisse.
Lembrou-se da conversa que tinha tido na véspera com Ricardo. O amigo estranhara o seu humor e dissera.
- Deixa-me adivinhar, estás assim por causa da Joana e do casamento maluco que inventaste.
- Estou apreensivo, sim. Até há pouco tempo, tudo parecia estar bem, eu diria que ela era feliz. Depois, começou a ficar pensativa, preocupada, às vezes dá-me a sensação de que está ausente. Faltam menos de seis meses para os dois anos da cláusula. Receio que se tenha cansado e esteja a pensar pedir o divórcio, mal terminem os dois anos.
-E isso importa-te? Não tens já o teu filho? E não me disseste que só ele te interessava.
- Tens razão. Mas agora penso na minha infância e não quero isso para o meu filho. Ele deve crescer com o pai e a mãe a seu lado.
-O divórcio, não impede que isso aconteça desde que tenham a guarda partilhada.
-Não é a mesma coisa.
- E tu não me enganas. Apaixonaste-te pela tua mulher. Já não é o menino que te importa, mas ela.
- Não sejas tonto. A Joana é uma excelente companheira, e uma ótima mãe. Seria muito bom para o desenvolvimento do Pedro, tê-la a seu lado.
- Sei. E eu acredito que o Pai Natal existe,- disse o amigo em tom jocoso. Se não queres admitir que amas a tua mulher não o faças, mas depois não te queixes, se ela realmente pedir o divórcio.
E agora ele interrogava-se. Será que o amigo tinha razão? Será que aquela angústia que o invadia, aquele medo de a perder era realmente amor?

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