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14.12.19

CONTOS DE NATAL - A TRABALHAR NO DIA DE NATAL








Aquele 25 de Dezembro era um dia invulgarmente sossegado nas urgências. Sossegado, isto é, exceto no caso dos enfermeiros, especados em torno do posto de enfermagem, resmungando por terem de trabalhar no Dia de Natal.

Naquele dia eu era a enfermeira de triagem e tinha acabado de sair para a sala de espera para fazer umas limpezas. Como de momento não se viam doentes à espera, voltei ao posto de enfermagem para tomar uma chávena de cidra quente do jarro que alguém tinha levado para beber no Natal. Nessa altura, um funcionário das admissões regressou ali e disse-me que tinha cinco doentes à espera de serem avaliados.


Eu lamentei-me:

— Cinco? Como é que fiquei com cinco? Ainda agora estive lá fora e não havia ninguém na sala de espera.

— Bom, há cinco pessoas inscritas.

Portanto, eu saí dali e chamei o primeiro nome. Cinco corpos vislumbravam-se no meu balcão de triagem, uma mulher pequenina e pálida e quatro criancinhas com roupas um tanto amarrotadas.

— Estão todas doentes? — perguntei com algumas suspeitas.

— Sim — disse ela em voz débil e baixou a cabeça.

— Muito bem — respondi, sem convicção. — Quem é a primeira?

Uma a uma elas sentaram-se, e eu fiz as habituais perguntas preliminares. Quando chegou ao momento de descrever os problemas que as levavam ali, as coisas tornaram-se um tanto vagas.

Duas das crianças tinham dores de cabeça, mas essas dores de cabeça não eram acompanhadas da linguagem corporal habitual, como segurar a cabeça ou tentar mantê-la imóvel ou semicerrar os olhos ou fazer caretas. Outras duas tinham dores de ouvidos, mas apenas uma conseguia dizer-me qual dos ouvidos estava afetado. A mãe queixava-se de tosse, mas parecia esforçar-se por produzi-la.

Algo estava errado naquele cenário. A política do nosso hospital, contudo, não era a de recusar pacientes, portanto nós iríamos vê-los. Quando expliquei à mãe que poderia demorar algum tempo até que um médico pudesse vê-la, mesmo estando a sala de espera vazia, que as ambulâncias tinham trazido vários doentes em estado crítico para as traseiras do hospital, ela respondeu:

— Levem o tempo que for preciso; aqui está quentinho.

 Depois voltou-se e, com um sorriso, conduziu a sua prole para a sala de espera.

Num pressentimento (chamem-lhe instinto de enfermeira) espreitei a ficha depois do funcionário das admissões ter acabado a inscrição da família. Morada não havia — eram sem-abrigo. A sala de espera estava quente.

Espreitei a família amontoada à volta da árvore de Natal. A mais pequenita estava a apontar para a televisão e a dizer qualquer coisa à mãe. A mais velha olhava para o seu reflexo num enfeite da árvore de Natal.

Regressei ao posto de enfermagem e referi que tínhamos uma família de sem-abrigos na sala de espera — uma mãe e quatro crianças, entre os quatro e os dez anos de idade. Os enfermeiros, a resmungar por causa do trabalho no Natal, passaram a preocupar-se com uma família que apenas tentava aquecer-se no Natal. A equipa passou à ação, tal como quando temos uma emergência médica. Mas esta era uma emergência de Natal.

No dia de Natal todos nós tínhamos a oferta de uma refeição grátis na cafetaria do hospital, portanto pedimos essa refeição e preparámos um banquete para os nossos convidados de Natal.

Precisávamos de presentes. Juntámos laranjas e maçãs num cesto que um dos nossos fornecedores tinha trazido para o departamento para o Natal. Fizemos pequenos pacotes para presente com autocolantes que fomos buscar ao departamento de radiologia, doces que um dos médicos tinha trazido para as enfermeiras, lápis de cor que o hospital tinha de um recente concurso de pintura, botões em forma de ursinhos que o hospital tinha dado aos enfermeiros na formação anual, e ursinhos felpudos que os enfermeiros prendiam nos seus estetoscópios. Encontrámos também uma caneca, uma embalagem de cacau em pó e mais uma miscelânea de coisas. Tirámos laços e papel de embrulho e sininhos das decorações do departamento para as quais todos tínhamos contribuído.

Tão a sério como quando tentámos ir ao encontro das necessidades físicas dos doentes que vieram até nós naquele dia, a nossa equipa trabalhou para suprir as necessidades e superar as expectativas de uma família que apenas queria estar quente no dia de Natal.

Fizemos turnos para podermos juntar-nos à festa de Natal na sala de espera. Cada enfermeiro ou enfermeira fazia a sua pausa para almoço com a família, mas escolheram passar o seu tempo de “folga” com estas pessoas cujas risadas e tagarelice deliciosas se tornavam bem contagiantes. Quando chegou a minha vez, sentei-me com elas na pequena mesa de banquete que tínhamos preparado na sala de espera. Falámos durante um pedaço acerca de sonhos. As quatro crianças começaram a contar-me o que queriam ser quando crescessem. A de seis anos deu início à conversa:

— Eu quero ser enfermeira e ajudar as pessoas — afirmou ela.

Depois de as quatro crianças terem partilhado os seus sonhos, olhei para a mãe.

Ela sorriu e disse:

— Eu só quero que a minha família esteja em segurança, quente e satisfeita — assim como estão agora.

A “festa” durou a maior parte do turno, até conseguirmos encontrar um abrigo que daria guarida à família no Dia de Natal. A mãe tinha pedido que as suas fichas fossem retiradas, para que estes doentes não fossem vistos nesse dia no serviço de urgências. Mas foram tratados.

À medida que caminhavam em direção à porta para se ir embora, a de quatro anos veio para trás a correr, deu-me um abraço e suspirou:

— Obrigada por terem sido os nossos anjos hoje.

Quando correu de novo para ter com a família, todas me disseram adeus mais uma vez antes que a porta se fechasse. Dei meia volta, devagar, para voltar ao trabalho, um pouco envergonhada pelas lágrimas que tinha nos olhos. Uma colega nossa tinha com ela uma caixa de lenços que foi passando a cada enfermeira que estava a trabalhar.

Num dia de Natal que nunca mais iríamos esquecer.

Victoria Schlintz

12 comentários:

chica disse...

Triste ,mas lindo! Belo e comovente final! Bjs,chica

Isa Sá disse...

Uma história inquietante....

Isabel Sá  
Brilhos da Moda

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Gostei deste conto.
Um abraço e bom fim-de-semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
Livros-Autografados

aluap disse...

Nos tornarmos melhores pessoas faz parte do Natal.
Abraço.
Bom fim de semana.

esteban lob disse...

Es, Elvira, cuando todos desearían más días de Navidad.

Cidália Ferreira disse...

Mais um brilhante conto de Natal! Obrigada:)

-
--> Não desapareces do meu sentimento
.
--> Invenções
Linke do blogue dos netos. https://imagensquedispensampalavras.blogspot.com/
Beijo, e um excelente fim de semana!

Os olhares da Gracinha! disse...

Excelente... Bj

Edum@nes disse...

Se todas as pessoas fossem tratadas como foi essa mãe e suas filhas, sem abrigo, Que se dirigiram ao hospital, onde foram acolhidas e não escorraçadas pelos medicos e enfermeiros, na noite de Natal. Muita gente devia ler esse conto e seguir o exemplo…

Tenha um bom fim de semana amiga Elvira. Um abraço.

Sandra May disse...

Vim aqui fazer uma visita e parei logo nesse conto que me deixou bem emocionada, até porque minha filha mais velha é enfermeira e muito envolvida emocionalmente com os pacientes e pessoas em situação de sofrimento, de um modo geral... ela, inclusive, vai estar de plantão na noite de Natal no hospital do Cérebro, onde trabalha.
Minha filha me conta várias situações, e me disse que muitos pacientes fica mais calmos quando ela segura nas mãos deles... a prática da enfermagem aqui no Brasil é de pouco envolvimento com os pacientes, dificilmente a equipe médica ou de técnicos e enfermeiros olham nos olhos dos pacientes. Tá faltando amor no mundo!
Ainda bem que existem finais felizes e emocionantes também.
Adorei ler!
Um beijo e tenham uma semana muito abençoada.

Rosemildo Sales Furtado disse...

O final não poderia ser melhor. Adorei o conto Elvira. Parabéns pela escolha.

Abraços,

Furtado

JP disse...

O Natal também serve para isto… para termos a noção do privilégio que temos e de que por vezes podemos dar até mais sentido às nossas vidas se ajudarmos outras a terem sentido…

Abraço, gostei muito

Gaja Maria disse...

Só mesmo num conto, porque a realidade seria bem diferente, infelizmente.
Abraço Elvira