10.12.17

O NATAL EM QUE PERDI A INOCÊNCIA

RE-EDIÇÃO
Presépio da S. C. da Misericórdia do Barreiro.  Foto minha.




Quando eu era menina (e já lá vão tantos anos) o Natal era uma festa.
Meus pais, e meus avós maternos, diziam que na noite de Natal, o Menino Jesus, vinha recompensar os meninos bons e trazer presentes. 
Nós vivíamos num barracão de madeira que em tempos fora habitado por quatro casais e respetivos filhos, mas no qual ficaram apenas os meus pais, quando os outros casais se foram. O barracão tinha um salão com onze metros de comprimento, ao fundo do qual havia um fogão, constituído por duas fileiras de tijolos, com uma grelha em cima, e um forno de tijolo onde minha mãe cozia o pão.
 Pelo Natal quase todos os anos, vinham meus avós maternos, que viviam em Santa Cruz da Trapa, uma aldeia beirã, e se juntavam lá em casa, com alguns dos filhos, – meus tios.
Por essa altura já o meu tio, Zé Varandas, e a minha mãe  tinham três filhos cada. 
Era uma ceia de muita gente, de muita alegria, embora as iguarias fossem poucas. Meus avós sempre traziam um pouco de queijo, coisa que não víamos no resto do ano,  minha mãe fazia rabanadas, e minha tia Celeste as filhoses. As couves e as batatas, eram do quintal que meu pai cultivava à roda da casa, e o bacalhau era comprado na Seca que naquela altura sempre vendia aos trabalhadores, por um preço especial. Alguns anos, a tia Carolina fazia uma travessa de aletria, que tinha de ser muito bem dividida, para que todos pudessem provar. 
 Não havia rádio, nem televisão, nem sequer luz eléctrica. Mas havia em casa três candeeiros a petróleo, que na noite de Natal ficavam acesos até depois da meia-noite. 
Muito antes do Natal, meu pai colhia no pinhal perto da nossa casa, muitas pinhas, que secava abria e debulhava. Partia alguns pinhões para comermos e os outros eram para jogarmos, nessa noite em que toda a gente ia para a cama muito tarde. Ele mesmo fazia uma piorra com o Rapa, Tira, Põe e Deixa. Ou então jogávamos ao "Pinhas alhas" que era assim. Cada um tinha 50 pinhões para começar o jogo. Pegávamos uns quantos na mão fechada, e dizíamos para os parceiros  "Pinhas alhas" e o outro respondia "abre a mão e dá-lhas". "Sobre quantas?" E saía um número. Se fosse a quantidade que tínhamos na mão, tínhamos que dar os nossos pinhões. Mas se errassem, então tinham  que nos dar tantos pinhões quantos nós tinhamos nas mãos. E era o nosso entretém.
Pelas onze horas, tios e primos regressavam às suas casas, e meu pai dizia que tínhamos de ir para a cama. Antes porém, íamos pôr os tamancos de madeira, que ele mesmo fazia, e que eram o nosso calçado, junto ao fogão, para o Menino Jesus deixar os presentes.
Sapatos só tínhamos um par, e era para a ida à missa, ou ao médico. E nós lá deixávamos os tamanquitos e íamos para a cama na esperança, de que nesse ano, o Menino Jesus, deixasse uns brinquedos, iguais ou parecidos, aos dos filhos do capitão, que geria a Seca do Bacalhau, onde os meus pais trabalhavam e nós vivíamos.
Não sei se foi assim convosco, mas eu nunca ouvi falar no Pai Natal, senão no final dos anos sessenta, em Lourenço Marques, atual Maputo. Talvez pela proximidade com a África do Sul, lá se cultivava muito o mito do Pai Natal. Por cá, na minha infância era o Menino Jesus, que em vez de receber prendas no seu aniversário,vinha distribuí-las pelos meninos, que se portaram bem durante o ano. Porém todos os anos no dia de Natal, era sempre uma desilusão, pois em vez dos brinquedos esperados, ou até de uma peça de roupa, mais bonita, só havia meia dúzia de rebuçados e dois ou três figos secos.
Lembro-me que um ano, talvez por volta dos meus seis anos, uma vez, que ainda não andava na escola, e naquela época entravamos aos sete, decidi esperar acordada a chegada do Menino Jesus, para lhe perguntar porque é que deixava lindos brinquedos aos filhos do capitão, que eram meninos ricos, a quem não faltava nada e a nós que éramos tão pobres, que não tínhamos sequer um boneco, só deixava rebuçados. Consegui manter-me acordada durante um bom bocado e a certa altura ouvi barulho e saltei da cama, para me confrontar com o Menino Jesus. 
Quando somos crianças, temos tanto de inocència como de atrevimento, de modo que saí decidida do quarto, e  apanhei a minha mãe a pôr os rebuçados nos tamancos. Fiquei muito revoltada, pensei que o Menino Jesus não queria saber de nós, porque éramos pobres e não tínhamos uma casa de pedra. Chorei tanto, que a  minha avó que para me acalmar, me explicou que o Menino Jesus, não vinha dar prendas a ninguém, que era uma tradição dizerem isso, porque fazia anos que Ele nascera, mas que na verdade, as prendas, eram dadas pelos pais e os meus não tinham dinheiro que desse para outra coisa que não os rebuçados. Foi um choque e um alívio ao mesmo tempo.

Elvira Carvalho


20 comentários:

aluap Al disse...

Eu já sou do tempo em que havia árvores de Natal e Pai Natal, mas lembro-me bem que o principal do Natal era o Presépio e a figura do Menino Jesus, que muitos, inclusive eu, nos anos 70, só os podíamos ver na Igreja, Escola e no Café da aldeia.
Também coloquei muitas vezes um sapato (algumas vezes uma bota, por ser maior que o sapato) na chaminé para o Menino Jesus deixar os meus presentes, que eram chocolates. Lembro-me do Pai-Natal, do coelhinho, do palhaço, de chocolate “da Regina”, mas não muito grandes. Mas ficava contente, porque chocolates não se comiam todos os dias!
A noite do dia 24 é que era grande, muito grande...
Abr/boa semana.

Edumanes disse...

Gostei de ler esse seu conto referente ao dia de Natal. Como era vivido no seu tempo de criança. O Pai Natal era um engano. Não descia pela chaminé, nem prendas lá deixava para os mais pobres. Disso tenho eu a certeza porque nunca lá deixou nenhuma para mim. Portanto, não tenho saudades do Natal desse tempo!
Tenha uma boa noite de domingo amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

lis disse...

Ahh Elvira a gente se comove com essas histórias que se parecem com milhares de outras.
As diferenças nessa época são gritantes, em se tratando de crianças.
Para ser sincera,nunca gostei do Natal.Celebro sempre o iniciar do novo Ano mas no Natal fico quietinha em casa. rs e sempre contei logo que Papai-Noel era só uma forma de presentear e festejar o nascimento de Jesus.E,que eram os pais e amigos que festejavam trocando presentes.
Adorei ler Elvira
Tenha uma bonita semana, Beijo

O meu pensamento viaja disse...

Como sempre, um belo texto.
Beijinhos

Tintinaine disse...

Passou-se assim também comigo, os candeeiros de petróleo, a ceia pobre, os presentes deixados pela mãe, etc.. Só ouvi falar no Pai Natal quando comecei a estudar e nos livros de leitura lá vinha isso escarrapachado. Comecei com o Pére Nöel, dos livros de francês, e depois veio tudo o resto. Quando cheguei à Alemanha, em 1970, era o Santa Klaus. Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.

Janita disse...

Inocência e crença perdida, mas Alma cheínha a transbordar! Isso é o que verdadeiramente conta.
Gostei muito desta narrativa de um dos seus Natais de infância, amiga Elvira.

Um abraço

Vanessa disse...

Gostei muito da sua narrativa de Natal. Os tempos mudam, hoje em dia não vemos este entusiasmo e tradição pelo Natal e pelo seu próprio significado, mas sim pelo consumismo, infelizmente.
Tenha um ótimo domingo!

Tais Luso disse...

Elvira:
Gostei imensamente desse teu texto, e por um motivo: contas a verdade e expões as diferenças que nunca poderia ter vivenciadas por crianças. E deu no que deu, uma criança triste num momento que deveria ser alegre para todas. Histórias como essa já li de outras crianças, e hoje adultas. Não gosto de Natal, não gosto de Ano Novo, já gostei naquela época de criança e quando meus filhos eram crianças. Hoje não vejo mais sentido, é um consumismo exagerado em que os comerciantes pensam em vender a qualquer custo, já começando a enfeitar suas lojas ao máximo no mês primeiro dia de novembro, como apareceu aqui. Um país em crise se preocupando com essa festa que hoje nada tem de cristã, na verdade é festa pra comerciante ficar feliz. Milhões de pessoas se queixam, mas é difícil dizer 'NÃO' para essas festas.
Gostei imensamente da tua narrativa!
Beijo, amiga.

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Um belo texto minha amiga e gostei do presépio.
Um bom Domingo.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
Livros-Autografados

Graça Sampaio disse...

É sempre um rasgão na nossa integridade cada vez que perdemos a inocência... Dói...

Beijinhos gratos por nos contares estas tuas pequenas grandes histórias, Elvira!

Boas Festas!

Gaja Maria disse...

Neste caso foi um alívio a perda da inocência. Acaba-se por compreender as coisas :)

Emília Pinto disse...

O meu Natal era como o teu, Elvira, só que vivia numa casa de tijolo. O tamanquinho era colocado junto à lareita e uns rebuçados eram lá colocados pelo Menino Jesus. Nesses tempos todos tinham um Natal pobre lá na minha aldeia e eu até era considerada uma felizarda por ter uns rebuçadinhoa, mas hoje, fico a pensar naquelas crianças a quem o Pai Natal dá muitos brinquedos e a outras nenhum. Que pensarão estes últimos? O ano passado a minha neta ficou admirada porque o Pai Natal lhe tinha dado muitas mais coisas do que tinha pedido na carta que escrevera. Que terão pensado os outros meninos ao ouvi-la dizer isso ? Acho que fazemos mal ao dizer que os presentes são dados pelo pai natal ou pelo menino Jesus, pois fazemos deles Seres muito injustos, Se fosse hoje não teria dito nada disso aos meus filhos. Também não concordo que se dê tantos presentes às nossas crianças, e nesse erro me incluo, dado que os meus netos recebem demasiado. Claro, não sou eu que dou ( dou um a cada um..), mas há quem dê. Beijinhos, Elvira e, se não vier aqui antes desejo-te um Natal cheio de alegria e saúde, mas, com certeza, virei cá antes.
Emilia

Lucia Silva disse...

Lindo conto relatando fielmente o seu Natal, o qual não foi tão diferente do meu, pois meus pais também eram pobres e recebíamos bonequinhas pequeninas e, quando vinha brinquedos melhores, na época que ele trabalhava na mineração e o patrão dava brinquedos a todas as crianças e brinquedos bons, a felicidade era imensa.
Beijos e uma semana bem feliz!

Pedro Coimbra disse...

O menino Jesus é um símbolo.
Que os pais personificam.
Tantas vezes com muito sacrifício.
Boa semana

Portuguesinha disse...

Eu lamento que já não se fale em Menino Jesus.
Lamento que o Pai Natal tenha OBLITERADO Jesus.

Porque o espírito pode parecer o mesmo, mas não é.
O menino Jesus, a pesar de não trazer prendas boas para os meninos pobres, era o responsável pelo ajuntamento familiar e por esses momentos bem passados. Pelos cozinhados caseiros e pelos jogos inventados.

O Pai natal é o símbolo do consumismo numa época que devia ser mais familiar e de partilha com terceiros. Representa dinheiro - agora tão em voga para substituir o "trabalho" e a "chatice" de se procurar presentes. Representa todos esses brinquedos fabricados em série, que se compram em qualquer altura, em qualquer parte, por qualquer tostoes. Por um euro pode-se comprar uma boneca de plástico, com cabelo comprido, pente, acessórios!

É simultaneamente triste porque todos querem de volta um Natal mais parecido com o da infância e poucos hoje sabem como é. O pinheiro - que antes era verdadeiro, passou a artificial, as decorações são de plástico, o presépio foi reformado, alguém se veste de pai-natal com um fato rasca comprado numa loja chinesa, os presentes são comprados e não feitos e até muita comida que vai à mesa vem da fábrica que a fez.

Em minha casa ainda existe o meio-termo. Ainda há presépio, mas também há pai natal. Ainda há comida caseira - felizmente, mas também alguma sobremesa já comprada. Ainda há convívio e conversa, mas também muita preocupação em não ser aquele que não vai dar um presente com "apresentação" mas que não seja muito caro... lol.

Um abraço e FELIZ NATAL!

Cantinho da Gaiata disse...

Olá Elvira!
Gostei imenso de saber a sua história sobre a fantasia do pai Natal, acho que todos tivemos isso em mente.
Embora eu tenha crescido nesse mundo da fantasia, tínhamos algumas prendinhas.
Beijinho grande.

Isa Sá disse...

É bom recordar...


Isabel Sá
Brilhos da Moda

Larissa Santos disse...

Bom dia, Elvira. Identifiquei-me com algumas coisas no texto. Quando era criança, também só recebia rebuçados e bom bons, nada mais... :( Adorei o texto

Hoje:-Prometeste-me um dia d'amor em alto mar.

Bjos
Óptima Segunda-Feira

Roaquim Rosa disse...

bom dia
mudam os tempos e as vontades , mas o menino jesus estará sempre presente nos nossos corações em todos os Natais , pois quer queiramos ou não ELE é a principal figura do presépio Natalício .
JAFR

São disse...

Jesus menino será sempre o centro do Natal, embora a data seja o aproveitamento pelo cristianismo da celebração de Midas, deus solar.

Adorei ler o testemunho,amiga.

Boas festividades, sereno Natal, feliz 2018!

Enorme abraço

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...