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10.12.17

O NATAL EM QUE FIQUEI RICA






Ser pobre e satisfeito é ser rico. E bastante rico.William Shakespeare
Havia uma árvore naquele Natal. Não tão grande e frondosa como outras, mas estava pejada de enfeites e tesouros e resplandecia de luzes. Havia presentes, também. Alegremente embrulhados em papel vermelho ou verde, com etiquetas coloridas e fitas. Mas não tantos presentes como de costume. Eu já tinha reparado que a minha pilha de presentes era muito pequena.
Nós não éramos pobres. Mas os tempos eram difíceis, os empregos escassos, o dinheiro à justa. A minha mãe e eu partilhávamos uma casa com a minha avó e com os meus tios. Naquele ano da Depressão, toda a gente espaçava refeições, levava sanduíches para o trabalho e ia a pé para poupar nos bilhetes de autocarro. Anos antes da Segunda Guerra Mundial, já vivíamos no dia-a-dia, como muitas outras famílias, o que então se iria ouvir como slogan“Usa-o, aproveita-o ao máximo; faz com que funcione, ou passa sem ele.”
Havia poucas escolhas. Compreendia pois porque era tão pequeno o meu monte de presentes. Compreendia, mas sentia, ainda assim, uma ponta de pesar à mistura com um complexo de culpa. Sabia que não poderia haver surpresas empolgantes naquelas poucas caixas vistosamente embrulhadas. E sabia que uma delas tinha um livro. A minha mãe arranjava sempre um livro para mim. Mas nada de vestidos novos, camisolas ou um roupão acolchoado e quentinho. Nenhum dos miminhos tão desejados na altura do Natal…
Havia uma caixa com o meu nome da parte da minha avó. Guardei-a para o fim. Talvez fosse uma camisola nova, talvez um vestido — um vestido azul. A minha avó e eu gostávamos ambas de lindos vestidos e de todas as tonalidades de azul. Soltando os devidos “Ohs” e “Ahs” ao ver a aromática barra de sabonete feito de mel, as luvas vermelhas, o já esperado livro (um novo da Nancy Drew!), rapidamente cheguei àquele último embrulho. Dei por mim a sentir uma centelha do entusiasmo do Natal… Era uma caixa bastante grande. Com vergonha de mim mesma por ser tão gananciosa, por esperar receber um vestido ou uma camisola (mas esperando na mesma!), abri a caixa.
Meias! Só meias! Soquetes, meias altas, até mesmo um par daquelas meias horrorosas de algodão branco que estavam sempre a escorregar e se enrodilhavam em volta dos joelhos.
Esperando que ninguém tivesse dado conta do desapontamento, peguei num dos quatro pares e agradeci à minha avó, com um grande sorriso. Ela também sorria. Não com o seu sorriso educado e distraído de “Sim, querida,” mas com o seu sorriso feliz e radiante, de “Isto são coisas importantes para uma mulher!” Será que me esquecera de alguma coisa? Olhei de novo para a caixa no chão — nada, a não ser as meias. Só que agora eu conseguia ver que havia outro par por debaixo do que eu tinha pegado. Duas camadas de meias. E mais uma! Três camadas de meias!
A sorrir de verdade, comecei a retirá-las da caixa. Meias cor-de-rosa, meias brancas, meias verdes, meias de todos os tons inimagináveis de azul. Toda a gente estava a olhar, rindo comigo, enquanto eu atirava as meias ao ar e as contava. Doze pares de meias!
Levantei-me e dei um abraço tão apertado à minha avó que até nos doeu às duas. “Feliz Natal, menina Joan!” disse ela. “Agora, todos os dias, terás muitas escolhas a fazer. Estás rica, minha querida! ” E era verdade. Naquele Natal e durante todo o ano, todas as manhãs, eu escolhia do meu elegante armário da roupa interior qual o par de meias a usar. E sentia-me rica. E ainda sinto!
Mais tarde, a minha mãe disse-me que a minha avó tinha andado a esconder aquelas meias durante quase um ano — poupando todas as moedinhas, comprando um par de cada vez. Um dia, tendo visto um lindo par de meias azuis com as beiras elásticas bordadas à mão, ela pedira mesmo ao compreensivo vendedor para deixar um sinal a reservá-las durante três semanas.
Dentro daquela caixa estava embrulhado um ano de amor.
Foi um Natal que eu nunca esquecerei.
A prenda da minha avó mostrou-me como as pequenas coisas podem ser importantes.
E como o amor nos faz a todos imensamente ricos.
Joan Cinelli
Jack Canfield & Mark Victor Hansen
Chicken Soup for the Soul – Christmas Cheer
Chicken Soup for the Soul Publishing, LLC, 2008
(Tradução e adaptação)

16 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...

Será este o meu 72º Natal
em que serei 72 vezes rico

chica disse...

Q@!eu lindo e essa riqueza faz bem, emociona! beijos, chica

Isa Sá disse...

Das pequenas coisas, se fazem os grandes momentos da vida. E esses nunca se esquecem...


Isabel Sá
Brilhos da Moda

Gil António disse...

Grandiosidades da existência na apreciação de pequenas coisas.
.
Tema de hoje
Margens de sedução de branca espuma
.
Deixando um abraço humilde e poético.
.

Os olhares da Gracinha! disse...

Há "natais" assim que jamais serão esquecidos!!!
Bom domingo!

Tintinaine disse...

É assim mesmo, chega de materialismo!
Bom Domingo, Elvira!

Joaquim Rosario disse...

Bom dia
eu conheço pessoas que ainda dão muito valor a um simples chocolate prateado de Pai Natal.
um bom domingo para todos
JAFR

António Querido disse...

Lembro-me quando tinha 5/6 aninhos, ainda era filho único, era rico porque todos os mimos familiares eram para mim, na noite de Natal meus pais deixavam-me adormecer ao quentinho da lareira, levavam-me ao colo para a cama e metiam debaixo da chaminé um sapato meu, quando acordava no dia seguinte lá ia eu a correr ver o que tinha dentro do sapato, quase sempre eram meia dúzia de rebuçados e eu dava saltos de contente!
Era assim há setenta anos atrás, éramos ricos, felizes e alegres.

O meu abraço.

cantinhovirtualdarita disse...

Passando para deixar um abraço de
agradecimento,desejar boas festas com
muita paz e sabedoria,são meus votos pra vc
e toda família.....🌷

Abraços com carinho!

└──●► *Rita!!

Lúcia Silva Poetisa do Sertão disse...

Encantador esse conto, muito emocionante e rico em mensagens de valor às pequenas coisas, aos pequenos gestos, os quais tornam-se grandiosos pelo esforço em agradar a quem amamos.
Beijos e um feliz domingo!

Edum@nes disse...

Do que a saúde na vida,
não há outra, maior, riqueza
quem só pensa de certeza
no dinheiro será egoísta?

Tenha uma boa tarde de domingo amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Majo Dutra disse...

Querida Amiga.
Gostei muito do belíssimo conto. Está de parabéns pelo bom gosto em selecioná-lo.
Foram tempos muito difíceis.
Um fim de Advento tranquilo e muito feliz.
~~~ Grande Abraço ~~~

Gaja Maria disse...

Um presente mesmo rico este. Há que saber dar valor aos gestos das pessoas :)

Ailime disse...

Uma história rica em amor.
Muito linda!
Beijinhos,
Aiime

Graça Sampaio disse...

Que lindo conto!! Gostei muito de o ler. Boa escolha, Elvira!

Beijinhos.

Roselia Bezerra disse...

Olá, querida amiga Elvira!
Muito bonito o conto e com luzes natalinas a iluminar cada linha dele...
Simplicidade e humildade faz parte do nosso amado Natal do menino Deus...
Seja muito feliz e abençoada!
Bjm de paz e bem