Um Natal de outros tempos
Era
o primeiro Natal que Clara passava na casa da avó depois que se formara. Em
criança, vivera ali muitos anos. Na verdade, depois que o seu pai morrera,
quando ela tinha apenas oito anos, fora a avó Emília quem cuidara dela, uma vez
que a mãe tinha poucos instintos maternais e pouco se preocupava com ela. Assim Clara vivera com a avó até entrar na
Universidade. E depois que terminara o Curso de Direito, resolvera estabelecer-se
na vila, a dez minutos da aldeia e da casa da avó
Os
dias antes do Natal eram de grande azáfama na aldeia. A terra estava em festa, pois as famílias
estavam todas reunidas. Todas as casas tinham alguém de fora. Era um marido que
chegara da França, um irmão que vinha do Canadá, uns sobrinhos da Alemanha.
Nunca, nem mesmo em agosto, havia tantos emigrantes na aldeia. Até na Casa
Grande, como toda a gente chamava a casa da sua avó, havia gente nova
Clara
pensou com tristeza que gostaria de que essa gente fosse a sua mãe, mas não. A
mãe ficara na sua casa com atual marido, a preparar a viagem a Paris que ele lhe
oferecera de prenda de anos, dois dias atrás.
A avó tinha dois empregados, António o
caseiro, e Arminda a mulher que era simultaneamente a empregada e a melhor
amiga da avó.
E
as visitas em casa da avó, eram o Carlos e a mulher que vinham mostrar o seu
rebento aos avós. O Carlos era o único filho do António e da Arminda, que
estava emigrado em França e que há dois anos não vinha à terra.
A avó tinha o hábito, de fazer a Ceia de Natal
com os empregados, como se todos formassem uma só família. Tinha sido um hábito
instituído pelo seu falecido marido, há mais de quarenta anos. E quando ele
morreu a viúva manteve a tradição.
Clara
adorava a avó, e achava muito interessante a maneira como ela vivia o Natal.
Uma das coisas que para a avó era sagrada, era deixar a mesa posta, com as
rabanadas, o arroz-doce, as broas, o bolo-rei, enfim todos os doces
tradicionais do Natal, toda a Santa Noite. Dizia a avó, que na noite de Natal,
os espíritos tinham autorização para visitarem os seus familiares que ainda
estavam na terra. Por isso a mesa ficava posta para os receber.
Depois da ceia foram todos à Missa do Galo. Clara
nunca tinha visto a pequena igreja tão cheia. A um canto os meninos do coro, todos
vestidos de branco, entoavam lindos cânticos. Na homilia, o Padre Miguel,
lembrou a história do nascimento de Jesus, chamando a atenção para o bonito
presépio montado num dos lados do altar, e regozijou-se com a presença dos
emigrantes presentes.
No
adro da igreja, ardia um enorme madeiro, junto da qual estavam vários homens a
conversar. Para eles a Missa tinha sido um pretexto para conviverem, enquanto
as mulheres lá dentro oravam ao Criador.
O
dia de Natal, começou com a missa matinal, no fim da qual, cumpriu-se o ritual
do beijo ao Menino Jesus, que o Padre Miguel retirou do presépio e passou entre
os presentes.
Terminada
a cerimónia, Clara e a avó, Carlos e os pais, regressaram a casa, onde a sua mulher
ficara com o bebé.
Depois
do almoço em família, cansada a avó foi deitar-se um pouco, enquanto Clara
ajudava a arrumar a cozinha e António e o filho saíam até ao único café da
aldeia.
Mais
tarde, regressaram enregelados e juntaram-se às mulheres na sala, onde a lareira
acesa fazia esquecer o frio que se fazia na rua.
