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2.1.18

HELENA


A mulher que caminha apressada pelo parque da cidade, há anos, que deixou para trás a juventude, mas é ainda muito bonita. Morena, de estatura média, como a maioria das mulheres portuguesas, tem uns grandes e belos olhos negros, um rosto oval perfeito, emoldurado por uma farta cabeleira negra.
Helena foi noutros tempos uma mulher muito bonita, mas a vida encarniçou-se de tal modo contra ela, que fez desaparecer o sorriso da sua boca bem desenhada, o olhar perdeu o brilho, as rugas apareceram antes de tempos e os cabelos embranqueceram.
E se os cabelos retomavam a cor com a tinta, não houve tratamento que lhe restituísse a alegria perdida.
Curiosamente nasceu no dia em que na Europa terminava a segunda Grande Guerra.
Os seus pais eram muito pobres. Tinham casado muito apaixonados, numa época, em que grande parte da população portuguesa, tinha mais sonhos que comida.
Helena, foi a primeira filha do casal, que iria ter mais sete filhos depois dela. Por companheiros de brinquedos, tinha não só os irmãos, como as outras crianças do pátio, e até os primos que viviam perto. Tudo crianças que não sabiam o que era uma boneca, ou uma bicicleta. Às vezes quando o Bernardino, caseiro da quinta matava o porco, tratava a bexiga do mesmo, e a enchia de ar para dar aos miúdos do pátio. Era uma alegria para os rapazitos. Para as meninas não havia brinquedos. Elas eram instruídas logo de pequeninas para lavarem a loiça, fazerem as camas, varrerem a casa e cuidarem dos irmãos mais novos. Elas podiam nem aprender a ler, mas tinham que saber governar uma casa.
As mães trabalhavam ali perto na Seca do Bacalhau. Um trabalho duro que as fazia andar sempre cansadas para tudo, até para pegar num filho ao colo, ou dar-lhes um beijo.
Quando Helena fez a 4ª classe, foi "servir" para a casa do senhor doutor, que ia uma vez por semana examinar o pessoal à Seca. Ele já tinha uma cozinheira, e uma criada (era assim que se chamavam as empregadas domésticas, naquela época) para a casa, mas precisava de alguém que a ajudasse, já que tinha três filhos e a criada levava o tempo a queixar-se que não conseguia sozinha tratar da casa e das crianças. E a esposa não tinha paciência para os miúdos. Tinha as suas amigas, as visitas à igreja e as suas reuniões de caridade.
Nessa altura, passou a ser a Lena, e nessa casa ficou até aos dezoito anos como "criada de servir" interna. Dormia e comia em casa dos patrões, e o que ganhava ia quase por inteiro para ajudar a criar os irmãos mais novos.
Num domingo de folga encontrou uma antiga amiga, vizinha do mesmo pátio, onde ambas nasceram. Um pouco mais velha, ela tinha casado e o marido encontrava-se numa comissão no Ultramar. No meio da conversa a amiga disse-lhe que um militar que estava em Moçambique, na mesma comissão que o seu marido queria uma madrinha de guerra, e a convidou para isso. Lena aceitou e em breve se correspondia com o rapaz que até já lhe mandara a foto e era um belo moço.
Uns meses mais tarde, o rapaz pediu-lhe namoro, prometendo-lhe que se casariam logo que ele regressasse.
A jovem estava farta da vida que levava. Alguém que lhe prometia uma vida diferente era tudo o que ela pedira a Deus.  Aceitou o namoro, e mentalmente preparou-se para o casamento e para a vida que ela sonhava.
Quando o rapaz chegou, foi falar com os pais dela, obteve autorização para o casamento e começaram a tratar dos papéis. Arranjaram uma casinha, um anexo num prédio perto da casa dos pais.
Não era o que ela tinha sonhado, mas ele estava na tropa, ela deixara a casa do senhor doutor, andava à procura de emprego, e ficava a promessa de mudarem para uma casa melhor logo que fosse possível.
O rapaz não tinha família fora criado com uma tia já idosa,
que já não podia ajudá-los.
Pouco antes do casamento, alguns eis colegas do marido advertiram-na que o jovem com quem ela ia casar não era bem aquilo que ela pensava, e que deveria conhecê-lo melhor, antes de casar, para não fosse sofrer algum desgosto.  Ela porém estava demasiado iludida com a “lábia” do rapaz e não acreditou em nenhum dos avisos.
Casaram-se em Setembro de mil novecentos e sessenta e sete.



AVISO  Esta história acaba amanhã