Ricardo encontrava-se sentado no sofá, da sala, que
mantinha às escuras, desde que chegara, da casa de Isabel.
Estava contente por ela ter aceitado a sua proposta. Era
o melhor para a criança e para eles. Não ia para tribunal, lutar pela sua
guarda, mas aquela menina era a única pessoa do seu sangue, que lhe interessava, não
queria nada com o irmão e dispensava os filhos dele. Reconhecia que pela
emoção, Isabel deveria ficar com a menina. Amava-a, cuidara dela desde que
nascera. Mas as suas condições financeiras não lhe permitiam dar-lhe o que ele lhe podia proporcionar.
Logo o ideal era a criança ser criada pelos dois. Depois, casar com Isabel, não
era sacrifício nenhum. Ela não era propriamente uma beleza, mas tinha um rosto
interessante, onde brilhavam uns olhos castanhos, num tom que lhe lembrava o
chocolate, e uma boca pequena e bem desenhada. O cabelo comprido (que ele
gostaria de ver solto) era castanho dourado. Não, não era uma beleza que
chamasse a atenção, mas havia qualquer coisa nela que a tornava especial.
Talvez a luz que irradiava dos seus olhos. Era como se a alma lhe quisesse escapar
por eles. Nunca tinha visto aquela luz em qualquer outro ser. Se ele confiasse
nas mulheres, seria fácil apaixonar-se por ela. Mas não, ele não se deixaria
enganar de novo. Tinha-o jurado a si mesmo, há muitos anos atrás. Além do mais,
casado não teria necessidade de procurar outras mulheres, nem de estar sempre
alerta contra as armadilhas em que elas são mestras. Tinha a certeza que a
nível sexual o casamento ia ser um sucesso. Excitava-se só de lembrar o que
tinha sentido quando a beijara.
Admirara-se com o casamento quase clandestino que ela
impôs. Sempre pensou que o dia do casamento, era o dia com que as mulheres mais
sonham, e os casamentos de amigos a que foi convidado, as noivas sempre
pareciam umas princesas. Mas enfim ela tinha uma ideia diferente, ele não ia
criar um entrave por causa disso. Tinha a certeza que mais tarde, quando ela se
habituasse à vida que ele tinha, iria mudar de ideias.
Quem em plena posse das suas faculdades mentais, iria querer uma vida de privação e sacrifício, quando tinha à mão de semear, uma vida sem dificuldades?
Quem em plena posse das suas faculdades mentais, iria querer uma vida de privação e sacrifício, quando tinha à mão de semear, uma vida sem dificuldades?
Esticou o braço, acendeu a luz e pôs-se de pé. Olhou o
relógio de pulso. Meia-noite. No dia seguinte tinha muito que fazer. Ir ao
registo para dar andamento aos papéis necessários ao casamento. Precisava ligar
ao Artur. Contar-lhe o que tinham decidido e convidá-lo para apadrinhar a
cerimónia. Afinal aquele casamento tinha sido ideia sua. Esperava que o tempo de espera não fosse longo, afinal se os dois
tinham nascido na cidade e eram maiores de idade, não havia razões para longa
espera. Se houvesse necessidade de pagar urgência fá-lo-ia. Faltava pouco mais
de um mês para o Natal, e gostaria de já estar casado nessa data. Era a única
época do ano em que sempre se sentia sozinho, e meio depressivo.
Apagou a luz e dirigiu-se à casa de banho, a fim de se
preparar para dormir.
Estão todos convidados para o casamento. Amanhã.
Estão todos convidados para o casamento. Amanhã.
