2.7.17

ROSA - PARTE III


No invólucro da Rosa mulher, que era a sua figura, vivia uma inocente menina que nada sabia da vida, nem dos maus instintos de alguns homens. Talvez por isso não se assustasse, nem pensasse em fugir, quando no Domingo seguinte os dois rapazes, apareceram lá no monte, onde ela passava as tardes com o gado. De resto tinha-os visto na desfolhada, não eram totalmente estranhos.
Chegaram de mansinho, como quem não tem pressa, e, de súbito, um segurou-lhe os braços e o outro meteu-lhe a mão entre o corpete e apalpou-lhe um seio. Aterrorizada, lutava para se desenvencilhar e quanto mais lutava, mais eles riam. Atiraram-na ao chão, levantaram-lhe a saia e rasgaram-lhe as cuecas. Ela continuava a gritar e a estrebuchar, mas de nada lhe valeu. De repente, sentiu-se esmagada, sob o peso do corpo masculino e a dor fê-la gritar, ao sentir o seu corpo rasgado pelo alarve desejo do homem. A dor, a raiva, a humilhação foi tanta que a pobre quase desmaiou. Mas não teve essa sorte. E teve de suportar não só a dor física, como o resfolegar do homem e o bafo quente do segundo homem que se apossou dela mal o primeiro a deixou. Rosa sentia-se morta, nem força tinha já para protestar. Nem disse nada quando os dois a ameaçaram, que davam cabo dela, se  contasse a alguém o que lhe tinham feito, antes de abalarem rindo em direção à aldeia. Ao Domingo, o Zé Rato, sempre ia tocar a sua concertina para o adro da igreja, onde se fazia um bailarico, e foi para lá que eles se dirigiram.
Rosa, não sabia, por quanto tempo ficara ali descomposta, deitada sobre a relva. Teriam passado alguns minutos, que lhe pareceram horas, quando a custo se levantou, o corpo e a alma destruídos. Agarrou no que restava das cuecas,  e limpou-se como pôde.  Depois ajoelhou e com as mãos cavou um buraco, onde as enterrou.
Levantou-se, pegou no bordão e começou a tocar as ovelhas para o curral. Não chorava. O seu desespero era como fogo que lhe devorava as entranhas.
Assustou-se a avó, com a sua entrada em casa. Primeiro, porque costumava chegar mais tarde, segundo porque o seu aspeto era por demais estranho. Trazia o cabelo e as roupas desalinhadas, e os olhos orlados por grandes círculos roxos, encontravam-se vidrados. Pela experiência, que lhe davam os muitos anos de vida, a avó soube imediatamente o que tinha acontecido à sua menina. Pôs uma panela de água ao lume, foi buscar o alguidar de zinco, despejou-lhe um cântaro de água fria. Enquanto a água não fervia, foi buscar uma combinação da neta e um lençol velhinho mas limpo. Depois, com as mãos trementes, tirou-lhe o vestido, e não pode deixar de reparar nas manchas sanguinolentas nas coxas, nem nas manchas roxas num dos seios. Despejou o tacho da água a ferver no alguidar, já mais de meio de água fria, experimentou a temperatura e agarrando na mão da neta disse:
- Vem. Não podemos lavar a alma, mas o corpo sim. Vais sentir-te um pouco melhor.
Ajudou-a a meter-se no alguidar e deu-lhe banho como se ela fosse uma criança. Depois, com imenso carinho, enrolou-a no lençol, enxugou-a  e enfiou-lhe a combinação de estopa grosseira. E ajudou-a a, a deitar-se na cama.
Rosa não chorara nem dissera uma única palavra desde que chegara a casa e a velha senhora começava a assustar-se.


continua

23 comentários:

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanha a história!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Tintinaine disse...

Está dado o tiro de partida para uma história interessante. Vamos ver onde a contadora nos leva.
Bom domingo!

✿ chica disse...

Pobre Rosa!! Suportar calada, sem reagir... Credo! bjs, chica

Roaquim Rosa disse...

bom dia
esta historia esta a ser tão interessante quanto espetacular no que diz respeito ao enredo e aos cenários.
não admira que tenha esgotado a sua edição.
não desfazendo todas as que já acompanhamos penso que esta nos vai deixar muito comovidos.
continuação de um bom domingo
JAFR

Anete disse...

Bom domingo, Elvira.
Acompanhando Rosa! Capítulo forte, entretanto, ela superará a brutalidade da experiência e o seu "perfume e beleza" hão de trazer dias de triunfo!...

Por aqui, atividades e "emoções familiares" nestes dias... Já já, churrasco do niver de um dos genros...
Vamos adiante... Bjs

Edumanes disse...

Já li da outra vez este capítulo da Rosa. Mas, continuo a acompanhar!

Tenha uma boa tarde de domingo amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

redonda disse...

Não estava nada à espera disto, que barbaridade, coitada da Rosa, espero que sejam apanhados e castigados os que lhe fizeram mal

um beijinho

AvoGi disse...

Malvados. Pobre Rosa...
Kis :=)

Janita disse...

Pobre Rosa. Quanta barbárie, Deus meu. Não esperava nada esta tragédia logo ao terceiro capítulo, quando tudo parecia encaminhar-se para que a Rosa crescesse e fosse uma jovem feliz.
Neste conto já escrito e publicado, penso que o final já foi traçado, pelo que só me resta acompanhar o desenrolar da triste história.
Um abraço, boa semana.

Majo Dutra Rosado disse...

É sempre tristemente chocante...
Uma boa semana e um Julho feliz...
~~~ Abraço ~~~

Ana S. disse...

é uma triste e cruel realidade que até nos dias de hoje é recorrente.
Boa semana,
Abraço

Beatriz Pin disse...

Ja fiz um percorrido polos últimos capítulos, polo aniversario de Pedro... Parabéms por ese livro Rosa do que lin o que nos deixóu. Agora esta nova historia que me fai lembrar a miña nenez, pois tamén transcurreu na aldea e resúltame familiar. Tentarei seguila....!!!! Obrigada pela sua visita! Feliz semana, Elvira.

Graça Sampaio disse...

Mau de mais, mas desgraçadamente verdadeiro...

Odete Ferreira disse...

Acabei de ler os três primeiros capítulos, com muito agrado. Contudo, este entristeceu-me.
Bjinho, Elvira

Pedro Coimbra disse...

A violação é um crime hediondo.
Só conheço um castigo para esse crime (um jurista não devia escrever isto) - a castração química.
Abraço, boa semana

Silenciosamente ouvindo... disse...

Um drama vivido por muitos mulheres
nessa época.
Vou seguindo.
Desejo que esteja bem.
Bjs.
Irene Alves

Cantinho da Gaiata disse...

Mau, mau Maria, não gostei muito.
Bjs

Os olhares da Gracinha! disse...

Um drama de muitas vítimas que deve ser bem penalizado! Bj

Gaja Maria disse...

OH! que triste...

Ailime disse...

Um acto ignóbil difícil de suportar.
Muito bem escrito.
Beijinhos,
Ailime

lua singular disse...

Oi Elvira
Malditos que temos até hoje em maior proporção
Beijos
Lua Singular

Berço do Mundo disse...

Espero que os 2 biltres tenham o castigo que merecem!

Smareis disse...

Coitada, esse é um drama vivido por muitas.
Beijos Elvira! Adorando a história!
Escrevinhados da Vida