15.9.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS... DO ESTADO. PARTE VI



                                               foto minha.

Em 62 Manuel continuava a viver no velho barracão de madeira, assente em pilares de cimento, junto ao rio Coina, Era, o lenhador da Seca, o homem que transformava os grossos troncos de azinheira, trazidos do Alentejo, em cavacos, que alimentavam os grandes fogões das maltas dos homens e mulheres. Pois o Manuel, não só cortava e rachava a lenha, como a transportava num carrinho de mão para estes locais, e também para a casa do Capitão, o gerente da Seca, e para as casas dos residentes fixos no local, os empregados de escritório, os electricistas, os vigias e o posto de Guarda Fiscal, que asseguravam o bom funcionamento da Seca durante todo o ano. Manuel era um homem magro, de baixa estatura, mas de uma força extraordinária.
 Causava espanto, a agilidade com que ele manejava uma marreta de 16 quilos, por ele, baptizada de segunda-feira. A mulher do Manuel, era simultaneamente porteira,e trabalhadora da Seca,  já que era ela quem abria o portão, para o pessoal que vindo do Barreiro, encurtava caminho, passando pela caldeira do Alemão, e seguindo junto ao rio, até ao portão de entrada na Seca, que lhe ficava à porta. Quando passavam as últimas pessoas, fechava o portão à chave, e seguia com elas para o trabalho de lavar, salgar, banhar, estender ou enfardar o bacalhau. À tarde saía um pouco mais cedo para ir abrir o portão, por onde o pessoal passava de regresso a casa. Cabia-lhe ainda, a ingrata tarefa de revistar os cabazes que o pessoal trouxera com o almoço, não fora alguém esconder nele algum bacalhau. Na Seca havia outro portão, que servia para os trabalhadores que moravam na Telha, ou vinham de Palhais, ou Santo António. Era a entrada principal por onde passavam os carros.



                                              foto minha

O casal tinha três filhos com pequena diferença de idade e ainda criava um dos irmãos mais novos da mulher que tinha quase a idade da sobrinha mais velha. Dos finais de Março a Setembro, com a inactividade da Seca, a mulher do Manuel não tinha trabalho, e o ordenado dele, não dava para sustentar seis bocas. O pequeno terreno que desbravara ao mato, ajudava com os legumes, e a mercearia ele mandava pôr no rol, que pagava religiosamente quando a próxima safra começava, agora já com a ajuda da filha mais velha, e do cunhado, que já trabalhavam na safra. Estávamos em Maio, num daqueles dias quentes, que mais parecem de Julho, quando à Seca, chegaram dois polícias numa carrinha, em busca do Manuel. Ele estava no trabalho, no armazém da lenha, e lá chegados os polícias deram-lhe voz de prisão, e levaram-no sem sequer poder avisar a família. Entrar algemado na carrinha, foi para o Manuel uma vergonha e dor tão grande, que ele pensou não resistir.

17 comentários:

✿ chica disse...

Estou gostando e esse mais um capítulo bem escrito e inspirado! vamos acompanhando! bjs, chica

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
Às vezes contava numa só postagem grande um conto verdadeiro e ninguém acreditava, pois quem sabe de nós somos só nós mesmos, então lá no outro blog passei a contar só conto de ficção.
Adorando...
Beijos
Minicontista

Mariangela do Lago Vieira disse...

Oi Elvira, boa tarde!
Mais uma bonita continuação da tua história. E muito bem escrita.
Te desejo uma boa semana!
Abraços,
Mariangela

Rogerio G. V. Pereira disse...

Nesse tempo,
a um homem de trabalho
não devia haver vergonha em ser preso

Pedro Coimbra disse...

Agora é que já não faço ideia para onde se dirige a história.
Continuarei a acompanhar.

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Momentos de leitura que nos obrigam a comparar os tempos e as atitudes das pessoas. Os polícias cumprem ordens.As pessoas deixam de ser humanas e passam a ser coisas... As leis são uma capa rota que defendem uns e prendem outros...

Berço do Mundo disse...

Não me diga que o foram buscar por causa das botas???
Aguardo ansiosamente os desenvolvimentos da história
Beijinhos, uma linda semana (por aqui chove muito, é o Outono que se anuncia)
Ruthia d'O Berço do Mundo

Fernando Santos (Chana) disse...

Belo post...Espectacular....
Cumprimentos

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, historia cativante muito bem escrita, porque foi o homem preso? será por ser pobre e lutar diariamente contra a pobreza que a vida lhe deu?.
AG

Emília Pinto disse...

Só faltava, essa...o Manuel preso!!! Não esperava nada disso, mas cá ficarei atenta ao desenrolar da história. Imagino a dor e a vergonha do Manuel. Naquele tempo o sacrifício da vida era grande, mas prezava-se muito o bom nome e a honestidade. Ser preso era raro a não ser quando alguém achava que este ou aquele tinha ideias comunistas.. Bem, amiga, logo saberei o motivo da prisão. Fica bem. Um beijinho e até sempre
Emília

Edumanes disse...

porque, nesse tempo era assim,
ainda hoje quase assim continua
o que é bom mais depressa tem fim
quem não tinha casa vivia na rua
ao relento como as flores no jardim!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço.
Eduardo.

Laura Santos disse...

Que história!...Estive a ler o começo da narrativa, e na verdade embora a história ainda não esteja acabada, existem vidas que ultrapassam a ficção! Muito bom!
Também reparei que fez anos no dia 3; os meus parabéns muito atrasados! :-)
Bom resto de semana, Elvira.
xx

lourdes disse...

Estive a ler os episódios todos. A vida foi bem dura para o nosso Manuel e sua família. Eram tempos muito difíceis.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Será que depois de tanto tempo o Manuel vai pagar por ter desertado?

Obrigado pela visita e comentário deixado no nosso Arte & Emoções.

Abraços,

Furtado.

Pedro Coimbra disse...

Este é o último post a que tenho acesso :(
Bfds

Janita disse...

Venho colocar em dia a história de vida do Manuel e família, Elvira.
Há mais dois episódios que estão publicados e ainda não li.
Penso que a prisão do Manuel se deverá ao facto dele ter sido considerado desertor, aquando do roubo das botas, mas já vou ali acima ler mais.
Acho incrível a sua capacidade descritiva de factos ocorridos há tantos anos atrás. Excelente!
Um abraço.

Socorro Melo disse...


Olá, Elvira!

Pobre Manuel, tudo por causa do par de botas, hein? Vamos ver como ele se saiu. A expectativa é grande.

Grande abraço
Socorro Melo