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29.11.17

MARIA - PARTE III

 RE-EDIÇÃO


Foto minha, tirada da minha varanda. Ao fundo, o pinhal donde se desce para o rio.


Uma velha amiga

-Boa tarde – saudei ao reconhecê-la. Não me diga que veio ver o pôr-do-sol.
-Olá amiga – respondeu enquanto nos cumprimentávamos. Nem a tinha visto. Estava aqui numa de recordar o passado.
- Às vezes recordar é viver. Veio sozinha? – Perguntei intrigada.
- Estou sozinha, amiga. A minha vida deu uma volta que às vezes nem eu própria acredito. Vamos andando que lhe conto tudo. Na verdade tinha vontade de passar por sua casa. Mas receava incomodar, e por isso vim para aqui.
- Incomodar? Isso nem parece seu. Vamos embora. E janta connosco.
No silêncio que se seguiu dei-lhe o braço e encetámos a caminhada até minha casa. Eu aguardava que ela falasse. Há quanto tempo não a via? Oito, dez anos, talvez. E admirava-me vê-la sozinha. E o marido? Porque não estava com ela?
- Estou divorciada.
Parei. Era surpreendente. Maria sempre tivera esse dom. Adivinhar os meus pensamentos. Quando criança, era uma espécie dum jogo, depois foi transformando-se num hábito. Quantas vezes pensei dizer-lhe alguma coisa, e ela me respondia antes que eu concretizasse a pergunta? Tantas que lhe perdi a conta. Era como se para ela os meus pensamentos estivessem escritos na testa. O contrário também acontecia por vezes. Mas era muito raro.
Naquele momento a minha surpresa era pelo teor da informação.
Conheci-a há quarenta anos atrás. Ela era uma menina e eu mulher feita e casada. Gostei dela assim que a vi, com aquele instinto maternal que nós mulheres temos e que nos faz olhar as crianças e pensar nelas como se fossem um pouco nossos filhos. Ela também se afeiçoou a mim e foi crescendo e alimentando a amizade que nos unia.
Maria não era uma mulher de grande beleza embora fosse considerada uma mulher bonita. Rondaria o metro e sessenta de altura, de corpo esbelto, rosto oval, olhos verdes rasgados e boca bem desenhada, que mostrava ao sorrir uma longa fileira de dentes alvos. Testa alta, cabelo curto e liso, escuro. O nariz, um pouco comprido, destoava e retirava grande parte da beleza do rosto.
Estava casada há quase quinze anos e ela e o marido formavam um dos casais mais apaixonados que eu conhecia. Por isso a sua informação me surpreendeu tanto. Caminhámos em silêncio, eu esperando a confidência, ela perdida nos tortuosos caminhos das suas recordações.
- Não sabe o quanto tenho sofrido. A minha vida desandou e eu fui caindo, caindo até bater no fundo. Agora estou tentando voltar a sentir gosto pela vida. Mas está difícil.
Chegámos a casa, onde o meu marido já me esperava para jantar. Também ele ficou surpreso com a presença da minha amiga, mas discreto não fez perguntas.
O jantar decorreu numa animação forçada. Maria esforçando-se por mostrar uma alegria que não tinha, e nós fingindo que acreditávamos. O serão decorreu sem qualquer confidência da sua parte, talvez pela presença do meu marido, e combinamos encontrar-nos no dia seguinte, para ela “lavar a alma” palavras suas, ditas baixinho, enquanto me abraçava na despedida.

Continua



30.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XLVII





Desceram até Cascais, onde assistiram ao pôr-do-sol na Boca do Inferno. Depois pararam junto à praia do Tamariz, para uma rápida mirada ao Casino e aos jardins, e finalmente regressaram
Há muito tempo que era noite cerrada, quando às oito horas Salvador estacionou o carro junto de um moderno edifício de apartamentos, no Parque das Nações. Voltou-se para ela.
- Trouxe-te aqui, para te mostrar a minha casa, e te retribuir o jantar de ontem. Mas se preferes ir a um restaurante…
- Mas tu disseste que não sabias cozinhar.
- E é verdade. Mas aquecer comida no micro-ondas, faço-o como o melhor dos cozinheiros, - disse sorrindo. – Tenho uma empregada que cozinha muito bem. Ela fez o jantar, enquanto fazia o almoço. E a comida para amanhã. Faz sempre isso aos sábados de manhã, porque sai à uma e só regressa na segunda-feira. Apesar de conhecer e frequentar bons restaurantes, só o faço em ocasiões especiais, ou em jantares com clientes. Sou um homem caseiro.
- Então vamos.
Subiram no elevador até ao oitavo andar. O apartamento era composto por uma grande sala, com uma parede toda em vidro, que dava para a varanda.
Uma grande casa de banho, com banheira e jacúzi, um quarto de casal, um escritório, o quarto de hóspedes, e uma cozinha totalmente equipada, em madeira cor de pinho.
- O que achas? – Perguntou ele quando acabou de lhe mostrar o apartamento.
- Acho que só podias estar a gozar quando dissestes que gostavas da minha sala. Este apartamento é maravilhoso.
- Comprei-o já mobilado. É moderno, funcional, mas falta-lhe qualquer coisa. Não tem alma. É a minha casa, mas podia ser de qualquer outro, não há aqui uma peça escolhida por mim, percebes? A tua casa é a tua cara. Vê-se que puseste nela muito amor. Mas é melhor jantarmos, estou com fome. Tu, não?
-Também.
-Então deixa cá ver o que a Odete cozinhou hoje. Carne assada com batatas, arroz de pato e bacalhau no forno. O que preferes?
-Carne assada. Eu ponho a mesa.
-OK. Toalhas na terceira gaveta do lado esquerdo, - disse colocando a travessa no micro-ondas. Tirou os pratos e os copos e pôs em cima do balcão. Procurou uma garrafa de vinho, que abriu enquanto a jovem punha a mesa. Retirou a travessa do micro-ondas, e colocou-a na mesa.
-Espera, está aqui, a salada. É só temperar. E o pão, ali naquela caixa. E pronto, podemos começar.
A refeição decorreu de forma agradável, com a jovem a elogiar a empregada, porque a carne estava realmente suculenta e muito saborosa.
Depois do jantar, enquanto Anete metia a loiça na máquina, Salvador tirava os cafés.
- Fazemos uma equipa fantástica, não fazemos? – Perguntou ele sorrindo quando lhe dava a chávena do café.
Sem saber bem o que esperar daquele “novo” Salvador, ela limitou-se a sorrir.



Quase a acabar esta história, que eu tinha pretendido acabar até ao dia 31, mas que a falta da Internet e o facto de não saber publicar pelo Smartphone fez com que se atrasasse.