11.7.17

ROSA - PARTE XIV


Quando em 1969, a filha mais velha da Rosa se casou, ela já não sabia do marido há largos meses.
Mergulhado nos ideais comunistas, João fora-se embrenhando na política e tornando-se um membro muito ativo no partido. A política é uma amante muito ciosa dos seus afetos e não tem contemplações com outros amores, especialmente em regimes fascistas e repressivos. Assim, aos poucos foi-se afastando cada vez mais da família. No começo, ele conseguia conjugar o seu trabalho, a vida familiar e as obrigações do partido sem levantar grandes suspeitas. Mas à medida que se foi tornando mais influente dentro do partido, isso tornou-se praticamente impossível. E quando, após uma denúncia, a maior parte dos seus camaradas foram surpreendidos e presos, João, que só não fora à reunião porque nesse dia entrara às dezasseis horas no trabalho e só saiu à meia-noite, pensou que a sua prisão estaria por horas. Em parte por causa da família, e em parte porque achava que seria mais útil ao partido cá fora do que preso, fugiu nessa mesma noite. Mais uma vez, Rosa ficava numa situação precária, com três crianças e um adolescente frágil e doente para cuidar e alimentar. Valeram-lhe as duas filhas mais velhas e algumas vizinhas. Estas ajudavam não só com alguma comida como também arranjando-lhe mais horas de trabalho. De vez em quando, chegava uma carta com dinheiro. Não muito, mas era uma ajuda. Embora as cartas não trouxessem remetente, Rosa sabia que eram do marido. A primeira carta chegou com carimbo de Beja, a segunda de Lisboa, a terceira de Faro. Cada uma de um sítio diferente. Ela não podia saber que a carta que recebia viajava sempre com algum camarada para uma terra distante e só lá era metida no correio. Mas este era um estratagema que eles usavam para despistar a PIDE. Agora, a filha mais velha ia casar. Rafael era um excelente rapaz, muito trabalhador. Filho único, de mãe viúva, conseguiu livrar-se da ida para o Ultramar, por ser dado como amparo de mãe.
Rosa sentia uma grande tristeza por não ser o marido a levar a filha ao altar; e não tê-lo a seu lado naquele dia tão importante das suas vidas. Afinal, a noiva era a sua menina. Tinha medo que ele estivesse preso. Há vários meses que, não recebia nenhuma carta. Falava-se em sussurro que nas últimas semanas tinham sido efetuadas muitas prisões. De vez em quando, desaparecia um vizinho. No Barreiro, havia muitas mulheres como ela. Viúvas da política. Algumas eram viúvas de facto pois os seus maridos foram torturados até à morte. Outras eram viúvas de maridos vivos, pois que estes estavam presos e muitas vezes nem a família sabia onde, ou ainda, andavam fugidos por terras estranhas.

Continua


Nota: O Barreiro foi uma terra muito martirizada pela PIDE.
Quase meio milhar de homens foi preso, sem cometer outro crime, que não fosse reclamar da vida de miséria que tinha. Claro que entre eles havia membros do partido comunista que lutava na sombra contra a politica fascista do regime. Mas a grande maioria, apenas queria uma vida melhor e nem sabiam o que era comunismo, quanto mais pertencer ao partido. Muitos deles não resistiram às sessões de tortura.

15 comentários:

António Querido disse...

Até na minha pequena aldeia aconteceu, um meu vizinho estava na tasca a jogar às cartas, foi abordado por dois, que se identificaram, depois de algemarem o rapaz meteram-no no carro e a família nunca mais soube dele! Ditaduras eram assim, ou és dos nossos ou desapareces.

Em Liberdade envio o meu abraço.

✿ chica disse...

Passando pra deixar um beijo praiano e agradecer ! chica

Roaquim Rosa disse...

que vida mais frustrante que a rosa tem tido !!!
JAFR

Tintinaine disse...

Passei por esse período, sempre ouvindo falar da PIDE à minha volta, mas nunca senti que ela realmente existisse. Ou eu não valia nada e não me viam como uma ameaça política, ou tive muita sorte de nunca ter caído na boca de algum bufo.

Gaja Maria disse...

Tempos muito difíceis esses segundo contam meus pais. Ele vai aparecer para o casamento?

Edumanes disse...

Naquele tempo era proibido reclamar,
quem com fome para comer pedia pão
uma ofensa considerado por Salazar
que prejudicou a mais pobre população!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Arroz Di Leite disse...

Passando para lhe desejar uma linda tarde.
Bjs

Tânia Camargo

AvoGi disse...

Tempos difíceis...e hoje tanta liberdade sem respeitar os que morreram ou desapareceram
Kis :={

Silenciosamente ouvindo... disse...


Seguindo com todo o interesse.

A maldita PIDE que há pessoas, que hoje

em dia, parecem não querer acreditar que

existiu.

Um bj.
Irene Alves

Priscila Ponto Cruz disse...

Dias difíceis para a Rosa, coitada :(
Beijocas,
♥Priscila♥

Minhas Pinturas disse...

Querida Escritora Elvira, li de uma só tacada todos os capítulos até agora publicados e a maneira como descreves me prende com surpresa,ao perceber como era tão sofrida e cheia e sacrifícios a vida de seu povo naquela época. Estas mostrando a historia de Portugal que não conhecia com tanta profundidade, a luta do povo contra o comunismo. Particularmente acho que todo regime sempre é muito melhor para os dirigentes, nunca tão bom para o povo, somos sempre enganados e explorados.
Alem da história em si, vou descobrindo a diferença de certos nomes em nossos vocabulários, que busco no dicionario para entender melhor. Estou adorando conhecer a alma e a luta dos portugueses, visto que meus sogros eram portugueses, (ela Emília de Carvalho e ele Aníbal Machado), mas vieram para o Brasil muito jovens e nunca falaram desta época, talvez por já estarem no Brasil.
Estou amando ler, e aguardando ansiosa o termino, parabéns
beijinhos, Léah

redonda disse...

Não tinha ideia que tivesse sido assim no Barreiro.
Se estamos em 1969, só faltam cinco anos para 25.4.1974...

Cantinho da Gaiata disse...

Tanto sofrimento para a coitada da Rosa.
Para mim ainda o Pai a vai levar ao altar.
Bjs

Socorro Melo disse...


Foram tempos de verdadeiras trevas mesmo. Mesmo assim, ao que parece, a humanidade não aprendeu nada com a História.

Berço do Mundo disse...

Retrata com muita clareza uma época da qual só ouvi falar nos livros de História. Muito bem!