17.3.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XIX



No Domingo seguinte Manuel foi como combinado, até à Seca do Picado no Seixal para se encontrar com o Varandas. E aí conheceu duas das irmãs do amigo. E embora elas fossem tão semelhantes fisicamente que quase pareciam gémeas, o seu coração logo se enfeitiçou por uma delas e não houve parecenças que o baralhassem.
Logo nesse dia falou ao amigo que gostaria de namorar a Gravelina.
Ela porém não ficou muito entusiasmada. Algumas das colegas de trabalho que já conheciam o Manuel das safras no outro lado do rio, na Azinheira falavam do rapaz como sendo dado à borga e às saias. E depois era mais velho, tinha quase 9 anos a mais que ela, não lhe agradou a ideia de um possível namoro.
O rapaz porém era teimoso, e contava com a amizade do Varandas, que era o irmão mais velho e naquela época, as jovens ouviam o irmão mais velho com o mesmo respeito com que ouviam  um pai. E assim depois de alguma insistência, o Manuel começou a namorar a Gravelina, no Natal de 1945. Entretanto pelas comemorações do 5 de Outubro, acontecem em Portugal uma vaga de manifestações oposicionistas.
Exige-se o fim do Estado Novo, em nome do espírito dos Aliados. O governo é obrigado a eleições que, segundo Salazar seriam tão livres como na Inglaterra.
Dias depois os oposicionistas fundavam o Movimento de Unidade Democrática.
A 18 de Outubro, o governo decreta uma amnistia parcial. Dois dias depois, o decreto nº 35 044 cria os Tribunais Plenários Criminais para os crimes políticos e sociais, que antes eram julgados pelo Tribunal Militar Especial.
Segue-se a 22 de Outubro o decreto 35 046 que extingue a PVDE, e cria em seu lugar a tenebrosa PIDE.
Naquele tempo Manuel não se apercebia de nada disto. Estava perdidamente apaixonado. Tinha esquecido as idas a Lisboa, e tudo o que isso implicava. Todos os seus tempos livres serviam ao Manuel para ir ver a amada. Na verdade a Seca da Azinheira, era conhecida por este nome, embora o verdadeiro fosse Parceria Geral de Pescarias, e a Sociedade Lisbonense de Pesca de Bacalhau, conhecida por Seca do Picado, situada na Ponta dos Corvos, ficavam em frente uma da outra, apenas separadas pelo rio Coina. Para ir ver a jovem, Manuel tinha que atravessar o rio e na Seca havia sempre um bote e um par de remos disponíveis para o fazer. Mas às vezes o mau tempo fazia perigar as visitas. Como naquele dia, 20 de Janeiro de 1946, noite de chuva forte, e ventos intensos, em que ao regressar com o Aires, que também tinha ido ver a namorada, perderam os remos, e Manuel mergulhou várias vezes, perante o terror do amigo, até os conseguir apanhar e regressarem assim com dificuldade, mas sãos e salvos. 
Enquanto isso a vida continuava muito difícil por todo o País. Nesse mesmo mês de Janeiro, aconteceram as greves de lanifícios da Covilhã e de toda a zona da Serra da Estrela, descritas por Ferreira de Castro, em “A lã e a Neve”
E no mês seguinte os mineiros de S. Pedro da Cova, que encetam uma greve que iria durar   sete dias.


Atenção no dia 20 não haverá postagem desta saga. Dia 21 sairá um post comemorando o dia da poesia e dia 23 esta história continua. 

Bom fim de semana.

22 comentários:

AC disse...

Uma verdadeira viagem às memórias de uma família e de um povo...
Continue, Elvira, a viagem é aliciante.

Beijo :)

Luís Coelho disse...

A vida dura dos nossos antepassados e a sua coragem para vencer os obstáculos.
As transformações políticas eram muito acentuadas e nem sempre as pessoas viam a maldade refinada dos governantes.

São disse...

Continuemos, então, a saga.

Bom gim de semaana, escritora

António Querido disse...

Para uma sexta feira, acho uma história muito interessante, prometo passar por aqui mais vezes, ao sábado ou domingo que há mais tempo livre, agora só um aparte, fala em bote, atravessava o rio Coina, usando remos, isto cheira-me a fuzileiro!
Atividade que conheço perfeitamente.
Um beijo

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Esta viagem através de tempos passados está a decorrer lindamente. Em particular no que diz respeito ao nosso Manuel: homem de não desarmar facilmente, tanto no ir atrás do namoro, como dos remos...

E cá fico à espera de mais.
Um abraço; e bom fim de semana.
Vitor

tulipa disse...

passei para deixar um abraço

tulipa

TINTINAINE disse...

Li num comentário deixado no Blog do António Querido que foi funcionária da Foto Studio 66 em Nampula.
Eu estive em Nampula durante um curto período, no ano de 1967, e tornei-me amigo dos dois irmãos que abriram a casa.
Sabe o que foi feito deles?
Fizeram-me lá uma fotografia que ficou famosa por ter ganho um concurso de fotografia em Lourenço Marques.
Sabe bem recordar estas coisas!

AFRICA EM POESIA disse...

Vou lendo com calma continua
beijinhos

De Amor e de Terra disse...

Minha menina, bom dia.
Há muito que não apareço por cá e sempre que recomeço estas minhas "viagens" pelos Blogs dos Amigos e Amigas, encontro conforto e agradáveis surpresas, nas publicações
que me oferecem.
Obrigada!!!
Bjs.
Maria Mamede

aflores disse...

Histórias de um Povo, de amor , de encontros e de luta.
Histórias de uma VIDA.

Bem haja.

Tudo de bom.

;)

Georgia disse...

Minha querida amiga, vc e seus contos contado a saga destes dias que deixaram saudades...

E já comecou a esquentar por ai?

Te desejo uma semana abencoada

Bjao

Lilá(s) disse...

Mais um trecho desta bonita saga, história bem contadas!
Foram tempos muito difíceis, em todos os aspectos.
Beijinhos

Mar Arável disse...

Grato pela citação do meu Seixal
Na verdade não existem bons amanhãs
sem boas memórias

Kim disse...

Dalgumas coisas já me tinha esquecido, doutras ainda me lembro. Vou continua "à coca".
Beijinho Elvira

Zé do Cão disse...

Elvira
Não conheci o Manuel, mas conheci o Capitão Picado. a Sociedade Lisbonense da Pesca de Bacalhau (passei tantas facturas para lá). A ponta dos Corvos, a Ponta dos Corvos.
Como a conhecia, como a conheço, mas já não é minha,.
Uma visita recente até lá, de automóvel, coisa impossível naquele tempo, em que os Dóris cortados faziam o seu império para atravessar o canal, onde estão os pilares que serviriam para montar as linhas do comboio que nos levariam até Cacilhas. Obra inacabada, por causa da corrente vinda Baía do Seixal.
Nessa visita recente à Ponta dos Corvos, tirou-me a vontade de voltar. Lugar sujo, imundo mesmo.
A um paraíso o que fizeram!
meu abraço

Severa Cabral(escritora) disse...

Minha querida amiga!
Hoje venho vestida de blogueira para pedir e desejar felicidade prá vc,prá mim,prá nossos amigos que fazem esse mundo acontecer,virar,mexer,remexer o mundo do bloguista...
meu recadindo para seus típanos;vc é uma blogueira da qual tiro o chapéu por ser boa comentarista,com porte de boa amiga da qual aprendi a amar como aquela amiga que mora do outro lado da nossa rua,que temos o prazer de sentir sua energia.Continue assim,que continuarei te amando neste universo tão globolizado,ou melhor,tão nosso,kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
bjs meu docinho de côco!

Maria disse...

Minha Querida Elvirinha:
Parece mentira, mas só hoje descobri este seu "romance". Comecei a ler, já vou adiantada. Tive que parar, porque já me doem os olhos. Amanhã ou depois, chego aqui. Estou a adorar. Esta mistura da história de vida do Manuel, de Portugal e do mundo, é um achado. Depois de ler mais, farei mais comentários. Não deixe isto a meio. É um documento interessantíssimo e importante.
Beijinhos
Maria

jorge esteves disse...

Hoje, como é dia de 'pousar', aproveito para ler e reler uns escritos mais atrás. E, depois, espero, espero, que chegue o próximo escrito, a 23...

abraço,
jorge

Leninha disse...

Elvira querida,

Como sempre,tu nos fazes mergulhar na história desta família e deste país...fazes com que viajemos e nos encantemos com as peripécias dos personagens e nos assustemos com os costumes antigos(as moças obedecem aos irmãos mais velhos como se fossem seus pais),e nos fazes lembrar de nossas avós,também obrigadas a aceitar as imposições familiares.
Bjsssss,minha querida,
Leninha

BlueShell disse...

Bom dia querida. tenho de ir ler para baixo...porque já me "perdi"!

Eu e a máscara...uma epopeia...uma GUERRA!!!
Antes de ontem, ao deitar, o meu marido brincava perguntando: "Então esta noite...vão ser quantos metros em mergulho de profundidade? ...eu , com as lágrimas a quererem saltar dos olhos, respndi: "não vou longe, fico-me pelos corais"!
E lá foi...outra noite para esquecer e uma amanhecre com dores de cabeça....
Olha...não morro do mal..mas morro da cura_ nada mais certo!

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

...e Manuel descobre o amor! Estou seguindo a leitura, com imenso interesse. Vou lá na postagem do Dia Mundial da Poesia, que já vi que tem poema seu. Passei correndo e agora vou lá, me deliciar...com certeza!

Um abraço!

Maria disse...

Elvirinha Querida:
Cheguei hoje aqui. Quero mais.
Contar um Romance de Amor, a história de uma família, a história de uma Nação, do mundo, não é trabalho fácil. A minha amiga conseguiu. Agora, é só continuar.
Até um cheirinho de livros (A Lã e a Neve).
Estou curiosa, para saber o resto.
Quando vem o próximo capítulo?
Parabéns e beijinhos
Maria