1.3.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XV


O ano seguinte começou com grande atividade bélica, por parte do Japão, que num só mês invade a Indonésia, conquista Kuala Lumpur na Malásia, invade a Birmânia, e a Nova Guiné.
A guerra prossegue o seu caminho de morte e destruição, em que cada vez mais países se vêem envolvidos.
Com a chegada da Primavera, os bacalhoeiros lá vão de novo para a pesca. O pessoal acabou a safra e a volta à terra faz-se de comboio, como de costume.
Manuel decide ficar uma semana em casa da irmã e finalmente conhece os sobrinhos.
Nasce em Avintes Adriano Correia de Oliveira.
Surge um novo fenómeno religioso. Depois de Fátima e dos pastorinhos, agora é Balasar, uma freguesia da Povoa de Varzim, onde uma mulher paralítica de nome Alexandrina Maria da Costa deixou de comer alimentando-se apenas da comunhão diária.
Alexandrina pedia que o mundo inteiro fosse consagrado ao Sagrado Coração de Maria. Pedido esse que o Papa Pio XII satisfez em Outubro desse ano, nas comemorações dos 25 anos das aparições de Fátima.
Rommel derrota o VIII exército britânico e conquista Tobruk
Um comboio vindo da Holanda traz 559 prisioneiros para Auschwitz. Destes, aproximadamente 200 foram seleccionados para trabalhos forçados, os demais foram executados nas câmaras de gás. Entre eles estavam Edith Stein, (Stª Teresa Benedita da Cruz) e sua irmã Rosa.
Em Junho o lugre bacalhoeiro Maria da Glória é atacado por um submarino alemão ao sul da Groenlândia e afunda-se. Tal como o resto da frota portuguesa, este barco estava pintado de branco e tinha pintado no costado uma enorme bandeira portuguesa que o identificava como barco de um país neutro, mas ou por erro ou vá-se lá saber porquê não escapou à sanha dum submarino alemão. Da tripulação 46 homens no total 2 morreram logo no barco com as primeiras rajadas. Os restantes 44 fizeram-se ao mar, nos pequenos dóris que serviam para a pesca. Porém o mar agitado, as más condições atmosféricas,  e a precaridade das pequenas embarcações, fez com que as pequenas embarcações se dispersassem e ao fim de dez dias apenas fossem encontrados 8 sobreviventes.
Mais tarde em Setembro , outro bacalhoeiro o "Delães" foi afundado por outro submarino, quando já carregado de bacalhau regressava a Portugal. Talvez por saberem o que tinha acontecido com a tripulação do "Maria da Glória" a tripulação do Delães amarrou fortemente os penos dóris entre si, formando um todo compacto que lhes salvou a vida. Foram encontrados por outro bacalhoeiro menos de 24 horas passadas.
Em Novembro, enquanto o Manuel e alguns colegas, procediam à descarga do Creoula, Heinrich Himmler visitou o campo de concentração de Dachau, e seleccionou algumas dezenas de pessoas para experiências médicas. Essas pessoas foram depois deliberadamente infectadas com o vírus da Malária.
Poucos dias depois, tropas alemãs e italianas invadem a França.
Americanos australianos e japoneses defrontam-se na batalha de Guadalcanal.
Poucos dias antes do Natal, estreia no cinema Éden em Lisboa “Aniki Bóbó” de Manuel de Oliveira.
Pela Primeira vez na vida, Piedade saiu da aldeia, e veio de comboio para Lisboa. Laurinda queria que a mãe viesse passar o Natal à sua casa, e até já tinha convidado os irmãos para irem também. Assim naquele dia 22 de Dezembro, ela saía do comboio em Santa Apolónia, onde já a esperava o genro e ficava abismada com o tamanho da cidade. Mas o que mais lhe custou e a deixou apavorada foi o cacilheiro. Era Inverno, o mar estava “picado” e Piedade rezou o tempo todo da travessia.


PRÓXIMA POSTAGEM DIA 4

21 comentários:

Luís Coelho disse...

Uma parte da história mundial que também nos atinge.
Pedaços da nossa pobreza perdida neste jardim à beira mar...
Uma leitura agradável.

BRANCAMAR disse...

Passo para deixar um beijinho. Do Manuel, sendo uma das primeiras histórias que lhe conheci e apreciei, relembrei algumas passagens.

Com amizade e saudade.
Branca

Smareis disse...

Muito gostosa de ler e sentir alguma passagem dessa história.

Depois de alguns dias ausente, estou de volta tentando colocar tudo em dia.
Volto depois pra ler os capitulo passado.
Abraço grande!

Mírian Mondon disse...

Bom dia Elvira,
Venho agradecer a gentil visita e aproveito para colocar a leitura em dia.
Bom texto e terei que voltar para ler os anteriores, o que farei com prazer.

Abraços,

São disse...

O primiero filme de Manoel de Oliveira é de uma ternura incrível e ainda hoje gosto muito de o ver. Também tenho essa foto na magens.

Um abraço

Severa Cabral(escritora) disse...

Boa noite minha querida amiga!
Vc sempre nos surpreende com suas historias tão interessante...
Na blogsfera temos um amigo que criou um blog novo só com rimas,a meu pedido e de uma amiga,pois amo rimas e como não tenho nenhum talento para rimar,pedir para ele fazer um,por isso te convido para uma visitinha,pois está no começinho e ainda estamos em festa de abertura...
Agradeço sua passagem por lá.

http://rimablogeutedouumaflor.blogspot.com/

BlueShell disse...

Isto é História, minha querida Elvira!
Vir aqui enriquece a gente: obrigada pelo provilégio.
BEIJOSSSS

Dulce disse...

A cada capítulo, novos acontecimentos no mundo e na vida de Manuel...

Beijos e bom final de semana

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Foi muito bom ler as referências aos afundamentos de navios portugueses durante a guerra: a neutralidade pode ser cumprida por quem a declara, mas nem sempre por quem a deve aceitar.

Esta questão dos navios afundados até gerou controvérsia entre a comissão de censura e a marinha portuguesa que, coisa extraordinária, acusa a comissão de censura de ter sido muito branda ao permitir a publicação de algumas notícias... podiam comprometer os interesses nacionais, dizia o Chefe de Estado Maior da Marinha!

Beijos

Zé Povinho disse...

A guerra não nos passou tão ao lado como se julga, e a miséria desses dias deve ser recordada.
Abraço do Zé

Mariangela disse...

Boa tarde Elvira!
Obrigada por essa história que tanto nos enriquece!
Beijo
Mariangela

Mar Arável disse...

Excelente

os bacalhoeiros são barcos
incomensuráveis
conheço-os de perto
desde Aveiro

Paulo Cesar PC disse...

Querida Elvira, ao mesmo tempo que acompanho essa serie de publicações que você faz, também acabo aprendendo com realidades tão particulares a vocês. Isso também é muito bom. Um grande abraço.

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

O mundo tomado pela loucura, bacalhoeiros afundados, enquanto por cá muita gente passava fome, vivendo com senhas racionadas.

Mas, de tudo o que li, fica-me a imagem da Piedade, coitada dela... enjoada a atravessar o Tejo, para chegar ao outro lado.
E cá iremos a acompanhar o Manuel neste resumo histórico muito bem organizado.
Até à próxima, com um abraço.

Vitor

Lilá(s) disse...

Depois de alguns dias ausente, vim colocar a leitura em dia...gosto de acompanhar o Manuel nesta história que me vai enriquecendo.
Bjs

Kim disse...

Olá amiguita
Como de costume aqui venho beber a história que já nem lembrava.
Beijinho

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

"Comentário ao comentário"

Essa sua família toda junta dava um Ministério da Marinha...

A minha estadia lá foi mais curta: de 64 a 74; depois, por razões familiares acabei por sair - com grande pena minha, que gostei muito dos anos que lá passei.
Estive na Guiné, de 71 a 73, onde fuzileiros era gente que lá não faltava - e muitos foram aqueles que transportámos a bordo. Nomes, já não recordo; ficaram muitas e agradáveis recordações - e também as menos boas não faltaram...

Gostei de saber da história da família; dum modo de vida que naqueles tempos não era nada fácil ...
Um abraço amigo.

Vitor

Luis Eme disse...

que bela lição de história, Elvira.

abraço

Je Vois La Vie en Vert disse...

Querida Elvira,
Respondendo ao teu comentário no meu blog, descobriste mais ou menos para onde eu ia, não foi bem um santuário mas fui a uma peregrinação na Terra Santa. Mais tarde quando conseguir colocar as minhas ideias em ordem (voltei de madrugada com centenas de fotos), farei uma postagem com algumas (para não maçar as pessoas com muitas...) fotos.
Mesmo com receio de ver fotos ou filmes horrorosos que me tinham deixada com pesadelos, fui ver o museu do Holocausto em Jerusalém e sabendo já alguma coisa sobre o que se tinha passado, ainda aprendi mais sobre este inconcebível acontecimento. O teu artigo veio mesmo a propósito relatar o inimaginável.

Beijinhos
Verdinha

Belisa disse...

Olá

Beijinhos e estrelas doces...

jorge esteves disse...

Li o que me faltava, até aqui. As minhas memórias são reflexíveis, mas algumas bem desenhadas e vincadas. Isto a propósito da imagem (a seca do bacalhau) e do que, um dia, outro dia, uma vez e outra vez, foi acontecendo aos lugres bacalhoeiros portugueses. Muita mãe, mulher, filhos foram 'forçados' a um luto por uma guerra em que, dizem, Portugal não entrou...

abraços