29.3.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XXII

O ano de 47 chega ao fim, com o "Zé Varandas" a ser pai. Era também uma menina. E começava um estranho desafio com o amigo e cunhado Manuel. Ver quem teria primeiro o filho homem que ambos sonhavam.
O novo ano começa com a prisão da Comissão Central do MUD.
A nível internacional, Janeiro termina com o assassinato do apóstolo da não violência,  Mahatma
Gandi.
Em Fevereiro, o Capitão e  gerente da Seca, chamou o Manuel, e disse-lhe que precisava daquela barraca para a nova porteira. Mas atendendo a que ele tinha sido pai há pouco, se ele quisesse ir viver para o barracão junto ao rio, já lá viviam três casais, mas o barracão era grande, e tinha quatro quartos pelo que um estava livre, ele podia mudar-se para lá. Mais tarde se veria. Claro que Manuel aceitou. Não tinha dinheiro para outra opção.
O casarão, como ele lhe chamava, era um enorme barracão assente em pilares de cimento, com 1m de altura, para que a água passasse por baixo nas tempestades de Inverno, ou nas marés vivas de Agosto, pois ficava bem na margem do rio Coina. Tinha quatro quartos, com portas e chave, e um salão de 11 m de comprimento por 4 m de largura. Contrariamente aos quartos, este salão não tinha nenhum forro por baixo do telhado, pelo que não raras vezes pingava lá dentro quando chovia. A meio do salão uma grande mesa comprida, e de cada lado um banco corrido de madeira. A mesa era utilizada pelos quatro casais. A um canto do salão,uma "almofada" de cimento sobre a qual assentavam dois tijolos, com uma grelha de ferro em cima,  que servia de fogão. A luz era fornecida pelos candeeiros a petróleo, e a água as mulheres iam buscá-la ao chafariz da Telha, em bilhas de barro, que transportavam à cabeça sobre uma rodilha de pano a que chamavam "sogra".
  Entre o barracão e o chafariz uns quinhentos metros bem medidos. Os casais davam-se bem, eram colegas e amigos, gente da mesma terra em busca de trabalho e uma vida melhor.
A primeira obra do Manuel no casarão, foi a construção de um forno, junto ao fogão, para as mulheres poderem cozer pão.
Se por um lado não havia grande privacidade, cada casal partilhava o quarto com os filhos, por outro havia sempre uma mulher disponível para cuidar dos miúdos, dois rapazes do Aires, um casal do António, mais um rapaz do Carlos, e a menina do Manuel.
Fora deste pequeno mundo do Manuel, o outro lá fora continuava a girar.
Enquanto o governo de Salazar assinava um acordo com os americanos para a cedência da base das Lajes, a justiça chilena, ordenava a prisão de Pablo Neruda, Luther King é ordenado e indicado como pastor auxiliar na Igreja Batista de Atlanta, e a mulher do Manuel descobre que as poucas roupas que tinham comprado de enxoval antes do casamento se estavam a estragar todas, devido ao salitre entranhado nas tábuas com que o marido fizera a mobília.
Em Março o MUD é ilegalizado, e alguns dos seus destacados membros são presos. A safra do bacalhau chega ao fim e os bacalhoeiros partem para os mares da Gronelândia, para mais uns meses de pesca.
No mês seguinte são organizadas manifestações de apoio ao regime. Da Universidade de Coimbra vêm os professores a Lisboa homenagear Salazar que festeja vinte anos de poder.
Passado o desencanto do primeiro momento o nosso Manuel vive encantado com a sua menina, e passa todos os momentos livres ensinando-lhe gracinhas.
No aeroporto Shannon, Irlanda, despenha-se um avião americano, fazendo 50 vítimas.
O Brasil encabeça a lista de países da América do Sul e Central que conjuntamente com o México assinam a Convenção para a Concessão dos Direitos Civis à Mulher, em Maio desse ano. Nessa mesma altura decorre em Haia, o Congresso da Europa, e na Checoslováquia entra em vigor uma nova Constituição, enquanto se preparam eleições com lista única e a U.R.S.S. acusa Tito de traição. Ainda em Maio, mais precisamente no dia 14, Israel proclama a sua independência e no dia seguinte é atacado pelos estados árabes vizinhos.
O Partido nacionalista (pró-apartheid) vence as eleições na África do Sul.
Culturalmente Portugal fica mais pobre com a morte de Vianna da Motta.
No mês seguinte o funeral de Bento de Jesus Caraças transforma-se numa importante manifestação contra o governo.
O navio dinamarquês Kjoebenhavn afunda após colidir com uma mina. A bordo 140 pessoas perdem a vida.
 A União Soviética impõe boicote económico à Jugoslávia.
Começa o bloqueio a Berlim.
Em Julho teem inicio as negociações para o Pacto do Atlântico.  Norton de Matos anuncia a sua candidatura a Presidente da República, e lança o “Manifesto à Nação”.
O Jornal da JOC é proibido e acusado de publicar literatura Marxista, e de “Prejudicar a alma da Nação”.
Em Agosto, o Varandas veio com a novidade. A mulher estava outra vez “prenha”. Desta vez é que vinha  aí um menino.
A filha do Manuel faz 1 ano, em Setembro, e é uma miúda franzina mas saudável.
“Esta sai ao pai” dizia ele com orgulho, já esquecida a desilusão do ano anterior.
Regressam os bacalhoeiros e recomeça a labuta de mais de 400 pessoas. É a altura em que regressam os que partiram para a aldeia, e se dá a festa do reencontro com os que ficaram.
É nesse mês de Setembro que o Ministro da Finanças anuncia que Portugal aceita as regras do plano Marshall.
Na Europa, a cidade de Berlim é dividida. A Alemanha encontra-se igualmente dividida dando início a um longo período de dois países de raízes comuns, mas governos opostos.
E é também nesse mês que a Gravelina descobre que está outra vez grávida.
Ao Manuel renovam-se-lhe as esperanças do filho homem que tanto anseia.
E o ano termina com a aprovação pela ONU da Declaração Universal dos Direitos do Homem.




Bom fim de semana. E vou, mas volto dia dia 2 com mais um pedaço desta história.

17 comentários:

AC disse...

Elvira,
A saga do Manuel está a revelar-se um vislumbre histórico muito apreciável.
Os meus parabéns!

Beijo :)

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Uma vida de pobre muito bem contada.

Quero desejar-lhe uma Páscoa feliz. Em princípio, só regressarei depois do dia 9.

Beijos

Mariangela disse...

Bom dia Elvira!
Manuel e sua esposa, apesar de todas as dificuldades que enfrentam, tem a felicidade dos encantos da filhinha e o amor que os unem.
Uma bela história!
Um forte abraço!
Mariangela

António Querido disse...

Este Manuel e esposa, fizeram-me lembrar, aqueles casais que nos anos 60, atravessavam fronteiras que na altura se denominava de "Salto" à procura d´uma vida melhor, é uma história que contém tanto de interessante, como de arrepiante pensando como as pessoas lutavam para sustentar os filhos, os nossos jovens hoje queixam-se, com alguma razão, mas felizmente para eles, não sentiram na pele esses tempos difíceis, em que a maior parte dos portugueses/as viviam "À RASCA"!
O meu abraço

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Dessa vez, consegui vir numa sexta-feira, "saboreando" tudo bem "fresquinho"...deliciosamente fresquinho. Menina, a gente lendo num ímpeto de gulodice...sabe, quando estamos com sede e vamos ao pote?

E por falar em "pote": aqui,no Ceará, as mulheres carregam "pote" d'água (de barro) na cabeça, forrando-o com uma rodilha de pano velho. As cenas, se parecem!

Que gostosura, de narrativa!
Dia 2, estarei aqui, minha querida elvira.

Beijos,
da Lúcia

edumanes disse...

Muito boa história,
Muitos sofrimentos
Muita memória
Muitos desencantos.
Muitas mortes
Muitos nascimentos
Poucas sortes
Alguns desenvolvimentos
Na Europa para uns sorte
Para outros descontentamentos
Assim era, é e continuará a ser.

Desejo uma boa noite para você.
Um abraço,

Luis Eme disse...

quanta informação, quanta cultura geral.

abraço Elvira

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Vida dura a do Manel mais a mulher. Aqui retratada em cores bem cinzentas e carregadas, num quadro lindamente pintado - ilustrando a realidade da época, e comum a tanta gente.
E depois o outro mundo maior, que a reboque do Manel nós vamos conhecendo, guiados por mão sabedora.

Foi um prazer ler;parabéns!
Abraço amigo; bom fim de semana.
Vitor

Lilá(s) disse...

É curioso ver que apesar das dificuldades os casais partilhavam eram amigos e felizes! Mais um pedaço de história interessante e cativante.
Bjs

Paulo Cesar PC disse...

Elvira, sua narrativa é coberta de um calor emocional que nos envolve por completo. Parabéns, viu! Um beijo no seu coração.

manuela barroso disse...

E a história do nosso Manuel, é cada vez mais interessante, com todos os factos históricos a enriquecê-la. Belo trabalho, Elvira.
Bjisss

Luma Rosa disse...

Fica a curiosidade em saber se, por fim, Manuel será pai de um menino? Os acontecimentos históricos servem de paralelo, mas também para mostrar como eles afetam os mais simples. Adorando seguir a saga de Manuel e ansiosa pelo próximo capítulo. Bom fim de semana!! Beijus,

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Concordo plenamente com um comentário acima...esta sim era uma geração à rasca e eu faço parte dessa época em que os sacrifícios eram muitos e ainda por cima sem liberdade. Ainda hoje quando passei em Vila do Conde para ver o mar( faço isso muitas vezes ao fim de semana) me lembrei destas tuas histórias, pois lá ainda permanece o lugar onde se secava o bacalhau; está tudo abandonado e o prédio em ruínas; parece que se vai construir lá um jardim o que acho bem, pois da maneira que está mais vale ser destruído. Sempre lembro destes teus personagens sofridos quando lá passo. Como sempre uma verdadeira lição de história, Elvira. Voltarei para ver se o Manuel realiza o sonho de ter um filho homem. Beijinhos, amiga e uma boa Páscoa.
Emília

esteban lob disse...

Hola Elvira:

Nuevamente te paso a saludar con mucho agrado, para deleitarme con tus tan bien hilvanadas historias y recuerdos.

Un abrazo austral.

paideleo disse...

E segue este relato marabilloso da familia.
O que arde na Galiza está ao norte e non me afecta fisicamente anque si me pon triste.

BlueShell disse...

Nova mudança, e nova gravidez renovam a esperança num filho Homem.A Declaração Universal dos Direitos do Homem tembém trazia consigo que "todos os Homens nascem livre e iguais"...mas até hoje só se verificam atropelos à dita Declaração...
EXCELENTE, Elvira.
Esperamos por ti
BJ BSHell

Rafeiro Perfumado disse...

Delicioso, ver a evolução do mundo juntamente com a vida do Manuel.

Beijoca!