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13.7.22

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE II


O quadro é obra minha. Podem ver se ampliarem a foto. Foi uma prenda de casamento para a Beatriz. Rsrsrs.



Sentiu um baque no peito. Apesar de não ser ela quem conduzia o carro no momento do acidente, sentia-se culpada por ele. Se não tivesse aceitado ir aquela festa, quem sabe o marido teria também ficado em casa. Se quando viu que ele estava demasiado embriagado tivesse insistido para virem de táxi, quem sabe teria convencido Jorge a deixar lá o carro. Mas de que adiantava agora, todas aquelas hipóteses, se já nada podia voltar a ser como dantes?

Desapertou o cinto de segurança, abraçou a amiga, e ainda antes de abandonar o carro disse:
-Telefona-me à noite para combinarmos a hora amanhã.
Com passos trémulos, encaminhou-se para a entrada do prédio. Oxalá não encontrasse nenhum vizinho. Não se achava com forças para conversas. Abriu a porta de entrada, a caixa de correio, da qual retirou três cartas e muita publicidade, e subiu ao primeiro andar, onde morava.

Abriu a porta, acendeu a luz, e fechou de novo a porta com duas voltas de chave.
Viu-se numa pequena saleta de formato quadrado, com uma pequena mesa de apoio, encimada por um grande espelho. Cinco portas eram visíveis da entrada, mas apenas três se encontravam abertas.

Beatriz entrou na primeira e dirigiu-se à janela, para abrir a persiana.
Estava numa grande e espaçosa cozinha, com armários e eletrodomésticos embutidos, em forma de L. Impecavelmente brancos, com tampo de mármore granitado preto. Na parede oposta, uma mesa branca, retangular com tampo de mármore igual ao balcão. Sobre ela, uma fruteira em vidro com três maças, três peras e três laranjas duas das quais já apodrecidas. Completava a cozinha, seis robustas cadeiras brancas com acento de palhinha.

Ela apanhou as laranjas, e abrindo a porta do armário jogou-as no caixote do lixo. Deu graças por tê-lo despejado antes de saírem. Se não o tivesse feito, depois daquelas três semanas de ausência, o cheiro na cozinha seria insuportável.

Poisou o correio na mesa e saindo entrou na porta ao lado. Abriu a persiana e a luz iluminou uma sala grande, com um móvel de cerejeira ocupando toda a parede. No centro um televisor, que pelo tamanho mais parecia um pequeno ecrã cinematográfico. 

Por cima e nas laterais, vários livros, alguns bibelôs, e duas molduras.
Na parede contrária, um grande sofá preto, sobre o qual várias almofadas em forma de coração, vermelhas. Por cima do sofá uma grande tela com  um moinho cujas velas brancas pareciam querer competir com as nuvens. Ao lado do sofá uma lareira.

No chão de mármore, uma grande carpete preta, e sobre ela uma mesa baixa de ferro forjado preta, com tampo de vidro. Sobre esta, uma cabeça de cavalo pintada de negro.



12.7.22

POESIA ÀS TERÇAS - PAULO LEMINSKI



 Amar você é

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

Paulo Leminski

Biografia AQUI

11.7.22

OS CAMINHOS DO DESTINO

 


                                           



A mulher que percorria o enorme átrio do hospital, caminhava com passos inseguros. Era alta, e a pele morena, apresentava uma palidez típica de pessoa que está doente, ou acaba de sair de algum grave problema de saúde.

O sol forte do meio da tarde, saudou-a à saída. Percorreu com o olhar o espaço, talvez procurando alguém que não estava. Parecia indecisa.
Talvez não se sentisse com coragem para encetar uma caminhada.
Ensaiou uns passos para descer a rampa junto à porta do hospital e eis que um carro se aproxima e trava junto dela.

Aproximou-se, abriu a porta e entrou. A mulher ao volante desculpou-se ao mesmo tempo que a saudava carinhosamente.
- Desculpa, ter-me atrasado. O trânsito está infernal. Como te sentes hoje?
- Destroçada. Como se me tivessem arrancado as entranhas.

O carro arrancou e por momentos fez-se silêncio. Notava-se que a jovem fazia um grande esforço para não chorar.
Clara, a mulher ao volante do carro, perguntou:

- Deram-te alta, apenas? O médico não te aconselhou acompanhamento psicológico?
-Sim. Deu-me até uma carta para levar. Mas não sei se vou. Preciso repensar toda a minha vida.
-Porque não vais uns tempos para o Algarve, para casa dos teus pais? Mudar de ambiente, poderia ser benéfico nesta altura.

- Não sei. Sabes que casei contra a vontade deles, que não gostavam do Jorge. Meu pai rejeitou-me. Nunca mais lá voltei. Gostava de lá ir, apenas uns dias para lhes dar um abraço. Quando se vê a morte tão perto, é que damos importância, aos verdadeiros afetos. Mas não sei sequer se me receberiam.
O carro tinha chegado a uma rua, na periferia da cidade. Parou num dos estacionamentos vagos junto a um edifício de três andares.

- Vou subir contigo Beatriz.
-Não. Agradeço-te imenso, tudo o que fizeste por mim durante este tempo. O carinho e a amizade que me dispensaste. Uma irmã não teria feito melhor. Cem anos que viva, nunca me vou esquecer. Mas quero enfrentar isto, sozinha. Amanhã, se puderes, vens tomar um café comigo. Preciso saber tanta coisa. E fazermos contas, já que foste tu quem pagou os funerais.

Desatou a chorar. A amiga abraçou-a.
- Vês, porque é melhor, eu subir contigo, Beatriz? Não estás em condições de ires sozinha. E não te preocupes com as contas, isso tem tempo, não me está a fazer falta.
- Não. Já estou melhor. Diz-me só, e o outro carro? Que aconteceu aos ocupantes?
- Era uma mulher. Teve morte imediata.


10.7.22

DOMINGO COM HUMOR


 


Dois alunos chegam tarde à escola e a professora pede-lhes uma explicação. O primeiro diz:- Acordei tarde, porque sonhei que tinha ido ao Brasil e a viagem demorou muito.
Então e tu, - pergunta ao segundo.
- Eu sonhei que o tinha ido esperar ao aeroporto.



Na Faculdade de Medicina, o professor pergunta ao aluno:
- Que dose deste medicamento o senhor daria a um homem que tivesse sofrido um ataque cardíaco?
- Três comprimidos, - responde o aluno.
Mas um minuto depois muda de opinião e pergunta ao professor.
-Posso modificar a dose?
- Poder, pode, mas infelizmente o seu paciente acaba de de morrer.



Um homem vai ao psiquiatra:
-Qual é o seu problema? - perguntou o doutor.
- Bem... é que tive uma discussão com a minha sogra e ela disse-me que não falaria comigo durante um mês.
E o psiquiatra
- Para muitos, isso não é problema. Muito pelo contrário...
-Só que para mim é um grande problema?
- Mas porquê? - quis saber o psiquiatra.
-É que o prazo termina hoje!


Num hospital psiquiátrico, um doente grita
- Amigos, eu sou um enviado de Deus à  terra...
-É mentira, -grita uma voz ao fundo da sala. Eu não enviei ninguém.


Depois de terminar o exame o médico volta-se para o doente e diz:
- O senhor Rogério já percebeu que não tem as duas pernas direitas?
- Já sim senhor doutor, desde criança que tenho uma perna direita e outra esquerda!


Após o 25 de Abril, o sr. António, presença habitual nas missas deixou de ir à igreja. Preocupado o Pároco chamou a esposa à sacristia e perguntou-lhe:
-Diga-me com franqueza, senhora Maria. O seu marido deixou de vir à Missa por marxismo, leninismo, agnosticismo, ou ateísmo?
Responde a senhora Maria:
-Foi por uma coisa bem mais grave Sr. Padre. Foi por reumatismo.


Um Padre muito triste encontra outro  e confessa:
- Não entendo como é que a mesma coisa em contextos diferentes, dá resultados opostos.
- Estás a referir-te a quê? - pergunta o outro
- Refiro-me ao meu sermão de ontem. Para o preparar não dormi três noites; comecei a dizê-lo e adormeceram todos!


Num café algarvio estavam numa mesa, um inglês, um alemão, e um português. A certa altura entra um freguês e diz o inglês:
-Aquele tipo é igualzinho a Jesus Cristo. A barba, o cabelo, a túnica...vou falar com ele.
-Dirigiu-se ao homem e tanto insistiu que ele acabou confessando ser efetivamente Jesus Cristo, mas pediu para ele guardar segredo, não queria que ninguém soubesse.
O inglês fez chantagem, e exigiu que Ele o curasse de ser coxo ou contaria a toda a gente.
Jesus Cristo fez o milagre.
O alemão que era cego de um olho ao ouvir o inglês, levantou-se e foi ter com Jesus, exigindo a cura do olho em troca do seu silêncio. O milagre foi feito e o alemão feliz contou aos outros. O português ouviu mas não se mexeu.
Intrigado Jesus Cristo, foi ter com ele e poisou-lhe a mão no ombro. O português levantou-se de um salto gritando-lhe:
- Tira a mão de cima de mim que estou de baixa!


BOM DOMINGO

8.7.22

CELESTE

 Este conto é uma reedição. Os mais antigos já o conhecem, mas como tenho vários leitores que não tinha na altura em que foi publicado, e como parece que a violência doméstica está cada vez pior...





Mal o despertador tocou, Celeste saltou da cama. Lavou-se a correr e foi para a cozinha. Com gestos completamente automatizados, pegou no isqueiro e acendeu o fogão. Era noite ainda, mas Celeste trabalhava longe. Começou a fazer o almoço, para ela e para o marido. Uma lágrima soltou-se e veio cair no alguidar onde tinha as batatas para descascar. Estava cansada. Cansada daquela vida de miséria física e moral em que se encontrava. Onde tinham ficado os sonhos de menina? -Interrogou-se enquanto acabava de descascar as batatas. Onde a ilusão de um homem bonito, que se apaixonasse por ela e lhe desse uma vida de amor e felicidade?
Juntou duas postas de bacalhau às batatas e o sal, quase sem dar por isso absorta nas suas recordações.
Celeste era uma mulher bonita, sem ser nenhuma beleza estonteante. Era pequena, de pele trigueira, com aquela cor das pessoas que vivem à beira-mar. Tinha o cabelo preto e uns olhos castanhos, que muitas vezes se enchiam de lágrimas. Era uma menina ainda, com toda a inocência dos seus quinze anos quando conheceu aquele que era o seu marido.
Afonso era um homem bonito. Mais velho e mais vivido, não foi difícil apoderar-se do coraçãozinho de menina que batia no peito da Celeste.
Casaram um ano depois. Celeste já carregava no ventre um filho. Ainda menina, teve que aprender a ser mãe, e a cuidar daquele pequeno ser, que Deus lhe quisera enviar.
Depressa se apercebeu que o marido não era o príncipe com quem sonhara. Um dia, tinha o filho três meses, Afonso saiu depois do jantar, deixando-a em casa com o filho, e só regressou depois da meia-noite completamente bêbado.
Como se fora um autómato, Celeste apagou o fogão, escorreu a água às batatas e dividiu a comida pelos dois termos. Pegou as duas lancheiras, que estavam em cima do aparador, colocou um termo em cada uma, juntou uma carcaça do dia anterior, uma pêra e um garfo. Encheu uma garrafa de meio litro de tinto e colocou numa das lancheiras. Foi ao quarto e acordou o marido. Na volta pôs um pano de cozinha em cada lancheira e fechou-as.
Tirou as chaves que estavam na porta, pegou na carteira, e na lancheira, e atirou um seco até logo, saindo de seguida. Não foi ao quarto despedir-se do marido. Há muito que não trocavam um beijo carinhoso.
Enquanto se dirigia à paragem do autocarro, na cabeça fervilhavam as recordações, dos olhos soltavam-se as lágrimas.
O filho crescera e saíra de casa. Nunca se sentira lá muito bem, nem tivera uma relação de amor com o pai. E assim que se empregou, arranjou uma casita e foi morar sozinho. A sua vida ficara então mais triste, sem a presença do filho.
Já lhe ocorrera pedir o divórcio. Porém o medo e a vergonha sempre a faziam desistir da ideia.
Recordou a primeira vez que o marido lhe batera. E a desculpa com que teve que encobrir, perante a família, a vergonha e a dor que sentia tanto ou mais do que os hematomas. E os dias sem lhe falar. Dias em que ela lhe gritava o nome de manhã antes de sair de casa, e não se falavam mais.
Como agora que não se falavam desde que há oito dias ele lhe tinha voltado a bater. E tudo por causa do álcool. Mordeu os lábios para abafar um soluço ao lembrar - se daquela noite. Ela já dormia, quando Afonso chegou. E estava tão cansada que nem deu por ele se deitar. Acordou com o peso do marido em cima dela. E aquele bafo nauseabundo de bêbado. Quis empurra-lo, fugir da cama. Mas não conseguiu. Ele era muito mais forte e puxara-lhe os cabelos com violência. Virou o rosto e isso enfureceu mais " a besta". Porque Celeste não reconhecia mais o marido naquele selvagem. Quando consumados os seus intentos se virou para o lado e adormeceu, ela levantou-se e meteu-se debaixo do chuveiro. Esfregou o corpo com raiva, enquanto as lágrimas se misturavam à água. Voltou para a cama, e acomodou-se tentando não tocar no marido. Não dormiu mais. E agora enquanto esperava pelo autocarro, pensava que rumo dar à sua vida. O amor que sentira um dia por aquele homem, já sofrera muitas alterações. Foi raiva, medo, ódio, desprezo e agora era também nojo.
De repente saído do nada, veio-lhe à memória, o poema de António Gedeão.

Anda Luísa,
Luísa sobe...
Sobe que sobe,
Sobe a calçada...

Sacudiu a cabeça, ao mesmo tempo que pensava, se o poeta saberia da sua existência.
É que aquela Luísa era ela...


FIM


Nota , este conto foi publicado no jornal rostos na passada segunda-feira 

7.7.22

CONVERSANDO COM O LEITOR







Bom dia amigos.
Chegou ontem ao fim mais uma história.  Como se devem ter apercebido, MEDO DE AMAR é como que a  continuação do COMEÇAR DE NOVO. Na primeira dei-vos a conhecer a história de Gonçalo, nesta segunda parte a história de Laura, a sua irmã viúva.  Espero que tenham gostado, sinceramente foi o conto que mais me custou escrever em toda a vida e várias vezes estive para o abandonar. O que mais me agrada quando escrevo um conto ou novela, é passar para quem me lê os sentimentos da personagem, e sinto que nunca consegui fazê-lo inteiramente com a Laura.

Também porque se torna difícil escrever quando a nossa cabeça está preocupada com outras coisas. Em Janeiro o meu marido feriu-se num pé. Não quis ir ao posto médico, e apesar de todos os meus cuidados a ferida não cicatrizava e cada dia estava maior. Ele é diabético.  Em Março, notei que ela apresentava sintomas de infeção e depois de me ter zangado lá consegui levá-lo ao posto médico.  A enfermeira passou-lhe um  sermão de todo o tamanho, e tratou-o com um penso que ela chamou prata e mandou voltar dois dias depois. 

Ele fez alergia ao penso , a ferida infetou e quando voltámos a enfermeira assustou-se com o aspeto e chamou o médico, que receitou duas caixas de antibiótico e mandou mudar o penso para o Inadin.  Além disso o médico mandou fazer um doppler arterial, porque disse que não sentia o bater do coração no pé.  Pensámos que ele teria que ser amputado se a infeção não cedesse. Íamos dia sim dia não, fazer o penso e uma vez por semana a enfermeira chamava a médica de família para ver a evolução da ferida. Entretanto no final de Abril, apesar de todos os nossos cuidados tivemos Covid e nos sete dias de isolamento a ferida que já estava melhor, voltou a piorar. 

 Acreditem, ainda tem uma pequenina ferida, já uma coisa minúscula, mas mesmo assim para aproveitarmos os dias que o filho e a nora estão de férias e nós mudarmos também de ares, uma vez que não temos de tomar conta da   Margarida, a enfermeira deu-nos uma guia de tratamento para irmos fazer o penso no posto de saúde de Lagos.
A juntar a isto, há quinze dias o marido começou com vertigens, e foi diagnosticado com o síndrome de Meniére, e os meus olhos estão cada vez pior.  Por tudo isto, foi muito difícil escrever esta história e nunca consegui dar à personagem o sentimento que desejava e que certamente agarraria o leitor.  Por isso vos peço desculpa.

E vos agradeço de todo o coração a presença constante no blogue apesar da  minha ausência de comentários nos vossos, muito embora quase todos os dias leia as vossas postagens. Mas como não consigo muito tempo sem dores nos olhos, se comentar, não visito mais do que meia dúzia.


NOTA.: As postagens estão programadas, estou em Lagos até ao dia 17 e lá não tenho internet.

6.7.22

MEDO DE AMAR - PARTE XXVI



 Epílogo

Dois anos depois…

O Verão, dera lugar ao Outono, e este cobrira o planeta de belas e quentes cores alaranjadas. As folhas das árvores formavam belos e fofos tapetes coloridos ao  redor  das mesmas, nos parques e passeios. O tempo arrefecera, o sol embora se mostrasse luminoso, já não aquecia como meses atrás. O inverno estava cada vez mais próximo. Naquele dia, o primeiro de Dezembro, Laura encontrava-se em casa de Gonçalo, com os filhos e sobrinha, esperando o irmão que tinha ido à Maternidade, buscar a mulher e os gémeos que ela dera à luz três dias antes.

Na sala, Matilde e Sara conversavam baixinho, provavelmente segredos de adolescentes, enquanto Miguel fazia desenhos completamente alheio ao que elas pudessem dizer. O menino, agora com cinco anos, não mostrava grande interesse por outras atividades ou brincadeiras, desde que tivesse à sua frente um lápis e um qualquer papel branco. Fernando costumava dizer a brincar que ele devia ter encarnado o espírito de um qualquer pintor famoso.

Laura encontrava-se sentada na cozinha. Na mão esquerda, segurava uma chávena de chá de cidreira, que de vez em quando levava à boca, enquanto a direita acariciava o ventre.  Nos seus belos olhos azuis, um olhar sonhador e misterioso, como se guardasse um segredo, que mais ninguém conhecia.

Pensava nos dois anos passados, desde que saltara por cima do medo que a atormentava e aceitara casar com Fernando. Dois anos em que a sua vida dera uma volta de cento e oitenta graus.

Depois do casamento, ela e os filhos haviam-se mudado para a casa nova que Fernando comprara. Ele não queria viver na casa dela, dizia que a casa estava cheia de tristes recordações e isso não ajudava a mulher e os filhos a largarem a bagagem emocional que carregavam. E como o seu apartamento de solteiro não era o ideal para uma família, comprara uma bonita casa a poucos quilómetros da cidade. Era uma vivenda grande, cercada por uma boa extensão de terreno com um jardim na frente e algumas árvores de fruto nas traseiras. Depois aconselhara-a a vender a sua antiga casa, na cidade e a depositar o dinheiro no banco em nome dos filhos criando assim um fundo para os seus estudos universitários

Diana, a assistente do marido, terminada que fora a sua baixa depois do nascimento do filho, regressara ao seu lugar na clinica e durante uns meses, Laura dedicara-se apenas à vida doméstica. Pouco tempo, pois, no ano letivo seguinte ela retomara a sua carreira de professora, na mesma escola que Sara frequentava a poucos minutos de casa.

Olhando para trás, Laura sabia que tinham sido dois anos muito felizes. Claro que ela não esquecera Quim, afinal fora o seu primeiro amor, o pai dos seus filhos. Mas a sua lembrança já não lhe acarretava sofrimento, nem medo, era apenas a doce recordação de um tempo da sua vida que ficara no passado.

Ao longo daqueles dois anos, Fernando sempre fora um marido apaixonado e um verdadeiro pai para os seus filhos, que o adoravam.  Agora ela estava grávida, embora fosse um segredo só dela por enquanto.

Laura esperava contar-lhe no Natal que se aproximava.  Eles nunca tinham falado em filhos, o marido sabia que ela tomava a pílula, talvez pensasse que não queria voltar a ser mãe e contentara-se em ser pai dos filhos dela, mas em Agosto ela deixara a pilula, não porque sentisse uma grande necessidade de voltar a ser mãe, mas era uma mulher muito feliz e queria retribuir essa felicidade, dando ao marido como presente, a alegria de um filho dele.

Naquele momento ouviu-se um carro estacionar à porta e ela apressou-se a sair de casa seguida pelas crianças.

Gonçalo saiu do carro, deu-lhe a volta e ajudou a esposa a sair, enquanto Laura abria a porta traseira e tirava os dois ovos, onde dormiam os gémeos Rafael e Mariana, nascidos por cesariana  três dias antes.

Matilde, agora uma bela adolescente de quinze anos apressou-se a pegar no ovo onde dormia Mariana, encantada com a bebé loira tão parecida consigo.

 Já em casa, Gonçalo ajudou a esposa a deitar-se na grande cama de casal, enquanto a irmã retirava os bebés dos ovos e os deitava num enorme berço, onde ficariam os dois no primeiro mês. Depois passariam para o quarto ao lado, onde seriam separados e cada um teria o seu próprio berço.

- Todos lá para fora agora, - ordenou Laura. Os bebés devem dormir descansados e a mãe precisa repousar.

Matilde aproximou-se da cama e disse:

-A madrinha telefonou a dizer que vinham cá esta noite, para ver os bebés e falar contigo.

Depois baixou-se, deu um beijo na mãe, de seguida beijou o pai e disse:

-Estou muito feliz com os meus irmãozinhos. Obrigado aos dois por esta felicidade.

Depois de perguntar à cunhada se precisava de alguma coisa, Laura saiu do quarto com as crianças, no momento em que um novo carro parava junto da porta. Era Fernando que ficara em casa, numa videoconferência com outros psiquiatras estrangeiros.

Ela apressou-se a abrir-lhe a porta e abraçou-o com todo o amor que o seu coração era capaz de sentir.

FIM

5.7.22

POESIA ÀS TERÇAS - VERÓNICA ALMEIDA - (MENINA DO RIO)


Nota: A foto foi-me enviada em 2009 juntamente com o poema pela autora


Meninos da Praça

Os meninos dormem
nas calçadas nuas, nas ruas
no centro do Rio, no frio
Meninos de todas as idades
acordam a cidade
E no afã;
o café da manhã
garrafinhas de cola
que de mão em mão rola
cheirando
aspirando
enganando a fome
que os consome
Rostos sujos, sem banho
São de todos os tamanhos
meninos
anjos caídos
entorpecidos
cheirando solventes
que lhes travam as mentes
anestesia,
na crueza dos dias
vagando sem mais
pedindo em sinais
- Moço, me dá um trocado
pra comprar um pão
- Que trocado, meu irmão?
Vai trabalhar, vagabundo!
E lá vai o filho do mundo
A fome gritando alto
Passa a grana, é um assalto
Ai maluco, perdeu
É tu ou eu
Passa a carteira
Que eu não tou pra brincadeira
E, nessa luta injusta
Quanto a vida custa?
Talvez escola, comida...
Educação, porque não?
Um amigo,
Um irmão
E um motivo pra sonhar...
que um dia vai melhorar

Menina do Rio

4.7.22

MEDO DE AMAR - PARTE XXV

 






De todas as coisas que eu imaginei que me dissesses, ou pedisses, essa é a única que não posso dar-te. Ninguém tem a vida nas mãos e embora eu pense que vamos viver e envelhecer juntos, não tenho como qualquer outra pessoa qualquer garantia de que isso vá acontecer.

Todavia tal como eu tu também não podes prometer-me isso. O que pensas que me pode acontecer, pode acontecer-te a ti. Então pensa o seguinte. Tu sabes que amo os teus filhos como se fossem meus, não sabes? Então na pior das hipóteses, se de repente acontecesse alguma coisa contigo, o que seria dos teus filhos? Bem sei que o Gonçalo assumiria o cuidar deles. Mas o Gonçalo tem os seus próprios filhos e por muito que ame os sobrinhos nunca será o mesmo do que ficarem com um pai.  E tu sabes, porque me conheces desde que abriste os olhos para a vida que é isso que eu serei para eles. E sabes também que eles me adoram.

Então não tenhas medo do que pode ou não acontecer. Ambos estamos na mesma posição como aliás toda a gente. Ninguém sabe quando se deita e põe o relógio a despertar para o dia seguinte, se vai acordar e toda a gente o faz.  

Então pensa nisso e não proteles mais a data do nosso casamento. 

Calou-se, e durante alguns minutos o silêncio caiu sobre eles envolvendo-os como se fora um véu.

Fernando sentia o coração galopando no peito. Esperava ter sido suficientemente convincente para apagar o medo que Laura sentia.  Por fim a jovem rompeu o silêncio:

- De forma racional, eu sei que tens razão, todavia nem sempre sou uma mulher racional. Por mim, por ti, e pelas crianças, vamos adiante que precisam de um pai, vamos adiante. Casamos quando quiseres.

- Meu Deus Laura, - disse ele abraçando-a e beijando-lhe o rosto, os olhos, o pescoço, antes de se perder na sua boca num beijo intenso que a deixou trémula e sem fôlego. Depois disse:

-Por mim casávamos amanhã mesmo, mas sei que isso não é possível. Pensas que num mês, será possível tratar de tudo.

-Provavelmente sim, - respondeu ela. Desde que consigamos convencer um padre.

-Deixa comigo, - disse perdendo-se de novo em carícias cada vez mais escaldantes. A Sara não está, o Miguel costuma acordar de noite? – perguntou.

-Não. Vem - respondeu ela levantando-se e estendendo-lhe a mão arrastou-o para o quarto de hóspedes.

Um mês depois casavam-se na igreja de Arroios, com a presença da família e amigos. Enquanto esperava a noiva no altar, Fernando dava livre curso ao seu nervosismo. Ainda lhe parecia um sonho que finalmente conseguisse o realizar o sonho de toda a vida.

Finalmente após uma curta espera, que lhe parecera uma eternidade, Helena, a cunhada entrou na igreja, com a amiga Rita. Ambas tomaram lugar junto dos respetivos maridos no altar, pois iriam apadrinhar os noivos. Atrás a mãe da noiva, trazia nos braços o pequeno Martim, que Rita dera à luz vinte dias antes. Seguiam-na os netos e logo atrás a noiva pelo braço do pai. Só quando ela chegou junto dele, Fernando respirou fundo e sentiu que o coração acalmava.

A cerimónia foi rápida, mas muito emotiva. Depois dos cumprimentos e fotos habituais todos seguiram para o restaurante onde iria decorrer a festa.

Laura irradiava felicidade e ninguém diria que um mês antes vivia atormentada pelo medo de sofrer a perda de Fernando como tinha perdido Quim.

Mais tarde, os noivos despediram-se de Gonçalo e Lena que iam ficar com os sobrinhos durante a lua de mel e escapuliram-se sem se despedirem de mais ninguém por medo da birra que Miguel poderia fazer se os visse sair.

Laura não quisera ir de viagem. Ela estava muito apegada aos filhos e não queria afastar-se muito. Uma coisa era uma semana passada em Santarém, onde ela estava a poucos quilómetros da casa, e podia estar descansada sabendo que se algum problema acontecesse em pouco tempo estaria junto deles, outra diferente era ir para o México, ou Cuba como Fernando tinha sugerido.