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26.2.16

MANUEL DA LENHA PARTE XVI


                                                                            foto minha

 Ele e a mulher não se importavam de ir viver para lá se o gerente autorizasse. E ele autorizou.
No fim de Março, eles mudaram-se para essa ”casa”. Era uma barraca de madeira, com uma cozinha, e dois quartos. Não tinha electricidade, não tinha água, mas tinha o telhado forrado, o que a tornava mais confortável no Inverno. E no Verão, a sombra do pinheiro, refrescava a casa.
Manuel era um homem muito habilidoso. Com uma fita métrica, um martelo, escopro e plaina, farinha e água, (para fazer cola), pregos e madeira, ele era capaz de fazer maravilhas. Mas onde ir arranjar a madeira?
Todos os anos, quando os navios chegavam, os botes eram trazidos para terra, para que fossem reparados. Eram trocadas as tábuas que estavam em mau estado, substituídas por novas, e calafetados, para que não apresentassem perigo quando voltassem ao mar. Á porta da oficina, amontoavam-se as tábuas velhas, e pequenos pedaços de novas. Manuel conseguiu autorização para utilizar essas tábuas, e com elas fez um armário para a cozinha, uma arca para guardar as roupas, o berço para o filho e uma mesa. No ferro velho comprou uma cama e duas cadeiras de ferro, que lixou e pintou de novo, comprou um fogão a petróleo, e o resultado foi a casita “mobilada" e pronta a habitar, para onde se 
mudaram.
O tempo segue a sua marcha inexorável, Umas vezes mais rápido outras vezes mais lento, do que o nosso próprio desejo. O Manuel estava desejando, que o filho nascesse, embora ele só fosse esperado para o final de Setembro. 
Porém no início de Setembro, uma daquelas tempestades de Verão, que fazem duvidar se estamos realmente nessa estação. Na noite do dia dois para três, a trovoada rugia estrondosa como se estivesse por cima das suas cabeças. Ele abraçava a mulher que tremia de medo, e tentava esconder dela o seu próprio pavor, quando um enorme relâmpago fez da noite, dia, e o trovão os ensurdeceu, ao mesmo tempo que lhes parecera que o chão tremia. A mulher apavorada sentia a criança “aos saltos” e ambos sentiram o cheiro a queimado. Pouco depois a trovoada afastou-se mas eles não mais dormiram. A mulher começou com contracções antes de tempo. Talvez por causa do medo, do susto que a mãe sofrera, o certo é que a criança se aprestava para vir ao mundo. Quando pelas sete da manhã, Manuel tentou abrir a porta de casa, não o conseguiu, pois metade do pinheiro, fora cortado de alto a baixo pelo raio que o ferira, e encontrava-se caído frente à porta. Tremendo, a pensar no perigo que correram, ele chamou a mulher. Ela no entanto não se levantou e apenas lhe pediu que fosse chamar a parteira.
Sem poder abrir a porta, aprestava-se a partir os vidros da janela para sair, quando o vigia, os outros moradores da seca chegaram para remover o pinheiro, e saber se eles estavam bem.
Nessa mesma manhã às onze horas e vinte da manhã, Manuel sofreu a sua primeira decepção depois do casamento.O menino com que ele sonhara, desde o início do ano, não existia. O filho era afinal uma rapariga.

                                                             A  1 º filha do Manel da lenha