Há sempre os que conseguem e os outros. Os que ficam pelo caminho. Com os magos aconteceu o mesmo. Só três – os reis Baltasar, Melchior e Gaspar – chegaram a Belém e deixaram os seus presentes, de ouro, incenso e mirra, aos pés do Menino. Mas os magos, sacerdotes que estudavam o céu e os seus astros, eram muitos. E outros se puseram a caminho, seguindo aquela estrela, súbito, nascida no firmamento e mais brilhante do que todas as outras que aqueciam a noite.
Desses, três sacerdotes da Caldeia, adoradores do sol e da natureza, porque dela se sentiam dependentes, decidiram também partir juntos para melhor enfrentarem os perigos de uma viagem, sem estrada conhecida, na esperança de alcançarem a Luz que aquele sinal anunciava. Não eram reis, nem tinham coroa, nem sequer montada de camelo ou burrinho manso. Também não levavam presentes, apenas a ansiedade dos seus corações.
E, confiantes, abandonaram as margens verdes do Eufrates, o trilho conhecido das caravanas e, guiados pela estrela, puseram-se a seguir a liberdade dos caminhos, crentes de que a força da esperança e da fé (não conheciam ainda o Amor) lhes permitiria chegar. Onde? Não sabiam. Mas lá, junto daquela Luz que havia de transformar o mundo, de águas transparentes, fulvos desertos varridos pelo vento e frescos oásis, que reflectiam o azul entre o verde nas palmeiras, no paraíso, aonde os homens ansiavam regressar. E nessa esperança caminhavam. Não por carreiros atapetados pelo musgo dos presépios, que vieram séculos depois, e se nos tornaram familiares, na infância, com seus trilhos fáceis de serrim, lagos-espelhinhos onde nadavam patos, anacrónicas gentes quotidianas: lavadeiras, vendedoras de castanhas e galinhas, pastorzinhos de gado tresmalhado por veredas, cortadas por mudos riachos de papel prateado.
Também não caminhavam por entre as sombras frondosas e frescas,
com possibilidade de pousada em palácios e castelos, como quis a pintura e os
seus mestres. Caminhavam pelo silêncio, com a sua fome e a sua sede, o calor do
dia e o frio das noites, solitárias. Palmilhavam o oceano das dunas do deserto,
à luz da lua, como se o fizessem pelo pó de todas as clepsidras do tempo. E nem
sequer dormiam num leito, irmanados pelo mesmo lençol de pedra, como o românico
fixou os outros três, mais conhecidos, com as suas coroazinhas na cabeça.
Enrolavam-se apenas no sono que os descansava do cansaço dos dias e lhes dava
novas forças, que refaziam com a água e as tâmaras dos oásis, o pão e os figos
secos que tinham trazido.
Às vezes, quando
o olho do sol se tornava ígneo ou paravam para uma refeição ou um descanso,
discutiam a direcção que vinham a seguir.
— Não vos
parece que a estrela aponta a Judeia? — perguntava um.
Os outros,
incrédulos, pensavam secretamente se haveria alguma coisa a esperar de um povo
escravizado pelos romanos e encolhiam os ombros.
— A mim
parece-me antes o Egipto o rumo indicado — atrevia-se o mais novo. — E a vós?
— É ainda
cedo para uma certeza, mas em breve o saberemos…
E retomavam a
caminhada até pela noite dentro – a estrela sempre adiante, lanterna que os não
deixaria perder. Duas noites de névoa, porém, esconderam-na aos seus olhos,
ansiosos. E então, desorientados, disputaram azedamente, perdidos e sem rumo.
Todavia, na terceira noite, a estrela reapareceu, mais cheia de brilhos, como
se no seu bojo houvesse mil reflexos de espelho. Quem, conhecendo a Luz, deseja
continuar nas trevas? Nem sentiam o cansaço, a língua encortiçada pela sede, o
olhar enceguecido pelas tempestades de areia, o ventre cavado pela marcha e
pelo magro alimento. A esperança, serpente de água, a esgueirar-se, fugidia,
entre os juncos, tinha regressado aos seus corações.
7 comentários:
OS MAGOS QUE NÃO CHEGARAM A BELÉM de LUÍSA DACOSTA é um dos melhores textos que li sobre esse tema bíblico.
Uma escolha cinco estrelas ⭐️ Elvira!!
Gostei de ler!
Desconhecia e gostei imenso de ler. Obrigada pela partilha.
Beijos e um bom dia
Belo conto, minha amiga!
Saúde e um abraço grande!
Soberba partilha para com os leitores! 🙏🌹
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A vida recomeça a cada oportunidade
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Beijos. Bom Ano e uma excelente semana.
Não li mas acredito que seja um bom livro de textos de se ler
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Votos de um Feliz Ano de 2022
Cumprimentos
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Pensamentos e Devaneios Poéticos
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Boa noite Elvira,
Não conhecia esta história de Luísa Dacosta, que está a surpreender-me pela positiva.
Obrigada por partilhar.
Beijinhos,
Ailime
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