17.5.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XXXI


 Foto DAQUI

A década de 50 estava exactamente a meio. Mas se na Europa que tentava a todo o custo curar as feridas da Segunda Grande Guerra as coisas não estavam fáceis, em Portugal aliavam-se a essas dificuldades a repressão do governo Salazarista.
Norton de Matos morre a 2 de Janeiro e três dias depois a PIDE inicia uma vaga de prisões que se estende até Fevereiro. Nesses dias chegou ao Barracão outro cunhado do Manuel. António era um rapaz espigado e brincalhão. Tinha saído da terra na esperança de arranjar uma vida melhor. Dias depois trabalhava na Seca. Também por esses dias a filha mais velha trouxe da escola uns visitantes indesejados. Uma praga de piolhos que antes que eles dessem conta já tinham infestado as três crianças e o tio. Manuel foi à drogaria e comprou uns pacotes de DDT que a mulher nessa noite espalhou nas cabeças de todos, adultos e crianças, e cobriu depois com uma espécie de turbantes feitos com bocados de lençol velho, e todos foram dormir assim. No dia seguinte as cabeças foram lavadas e os piolhos desapareceram. Eles não sabiam mas nessa noite todos correram risco de envenenamento por DDT. Felizmente nada lhes aconteceu. Também por esses dias o poço que o Manuel abrira no Verão anterior abateu. As tábuas velhas não aguentaram as pesadas chuvas desse Inverno. Manuel jurou a si próprio que abriria outro, mas desta vez de modo que não se desmoronasse. Em Fevereiro dezenas de estudantes, especialmente no Norte do País entre os quais se encontrava Agostinho Neto foram presos.
Em Março com o acabar da safra do bacalhau e a partida dos barcos Manuel ficava com mais tempo livre. É certo que o seu trabalho no armazém da lenha continuava 8 horas por dia, 6 dias por semana. Mas os dias estavam a crescer, e das cinco até anoitecer ainda dava para roçar os silvados à volta da casa, cavar e semear. O problema da água seria resolvido com a construção do novo poço. E então Manuel deitou mãos à obra. Como o primeiro poço estava muito perto da porta de casa e a água era um pouco salobra, ele resolveu procurar outro sítio. Começou por roçar um silvado, sob o qual acreditava passar um veio de água doce.  Na Seca diziam-lhe que não era possível encontrar água a tão poucos metros do rio, a não ser salgada. Com um pouco de sorte encontraria água igual à anterior.  Mas Manuel era um homem de fé. E acreditava que algures por ali perto passaria agua não só boa para a horta, mas também para cozinhar e evitar que a mulher tivesse que andar a carregar bilhas de água de tão longe para a comida.Ele sabia usar a vara bifurcada, ensinara-lhe um velhote na terra,  ainda ele não usava calças. E a vara dizia-lhe que ali havia água. 

25 comentários:

FireHead disse...

Essa "repressão" salazarista não estará a fazer falta nos dias de hoje? É o que meu futuro está bastante incerto. :)

Luís Coelho disse...

Um relato sempre agradável de ler pela história política e pela coragem de sobreviver lutando sempre por situações melhores.
Cá em casa também usámos o DDT.
As pulgas dos animais e a falta de higiene deu grandes dores de cabeça aos pais. Nesse tempo só havia isso.

Andre Mansim disse...

Muito bom Elvira... Essa história do Manuel é uma verdadeira saga, muito bem contada e situada!

BlueShell disse...

lembro-me bem da PIDE!

Impressionante!

Um beijo
BShell

Mariangela disse...

Bom dia Elvira!
É muito bom ler esses fatos acontecidos na história,
e a luta do Manuel pela sobrevivência.
Quanto ao DDT, na roça era a opção imediata que tinham para matar os piolhos!
Beijo
Mariangela

AC disse...

Acreditar e pôr mãos à obra: é assim que se fabricam os verdadeiros milagres, como muito bem o prova o Manuel.

Beijo :)

Amapola disse...

Bom dia, querida amiga Elvira.

Além do problema político, ter que garimpar água, é muito difícil!!

Sobre piolhos, na década de 50, a minha mãe colocava na nossa cabeça, BHC, que acredito ser igual esse que você citou.
Ela só não abafava com pano. Tinha um cheiro horroroso...

Para as pulgas que eram muitas, meu pai borrifava o tal BHC em todo o colchão. Aquele pó passava pelo lençol e ficava em contato direto com a pele da gente.

Mas as pulgas foram valentes e permaneceram ali até que nos mudamos de casa.

Desejo-lhe um lindo fim de semana.

Beijos.

Teté disse...

As pragas de piolhos são uma constante nas crianças de ontem e de hoje. Antigamente acreditava-se que apareciam por falta de condições de higiene, mas atualmente já se sabe que não é exatamente assim e que existem crianças com mais propensão para os apanhar que outras...

Vamos lá ver se é desta que o Manel tem sorte com o poço! :)

Beijocas!

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Manuel é homem rijo, e é um prazer seguir-lhe os passos:A usar essa tal vara que indica a existência de água, de que eu me lembro muito bem, e também com cepticismo, devo dizer.
E por aqui ainda há quem ganhe dinheiro utilizando essa varinha adivinha... por estranho que isso possa parecer.
Mais o DDT, mezinha exterminadora de piolhos e doutros bicharocos, talvez por ser venenoso... mas que na altura operava milagres...
Ler a história do Manel é remexer na memória, coisa que faço com imenso prazer.

Um abraço
Vitor

Olinda Melo disse...

Manuel ou a persistência. Um homem que não esmorece. E lá em casa mais gente, felizmente o coração é grande.

Agostinho Neto, um jovem que iria dar que falar. É só esperar mais uns anitos. Nesta altura ainda está a beber das ideias que lhe irão mostrar i caminho...

Bjs

Olinda

São disse...

Piolhos, rrsss Quando estava ainda como educadora no Centro Social de Bem Estar Social em que fui depois directora , apanhei uma boa camada deles, rrss

Um abraço.

MARILENE disse...

Você faz uma narrativa clara e com riqueza de detalhes. Os percalços de uma vida frente aos terríveis momentos vividos, à época, pelo mundo.

Bjs.

Leninha disse...

Minha querida,

Acompanhar tua narrativa é ter uma aula de história.E da perseverança de um homem que lutava e não temia a adversidade.
Quanto aos piolhos,já usamos muito em nossos filhos quando morávamos na fazenda e cobriamos-lhes também as cabeças...graças a Deus nunca ocorreu nenhum envenenamento.

Bjssssss,
Leninha

Rui Pires - Olhar d'Ouro disse...

Boa... sexta :)))

Zé do Cão disse...

A Pide eram pior do que os piolhos.

Tem piada, recordo agora, também nessa altura havia os piolhos verdes.
Alusão feita à legião portuguesa.

Nesta altura o que há são "verdes piolhos". E se nos tratam assim, o que será quando forem "piolhos verdes".
Elvira, o seu trabalho é uma preciosidade... os meus parabéns com o meu abraço

lagartinha disse...

Cheguei atrasada 30 capítulos...
Já fui buscar um café e o sofá com almofadas. agora vou recostar-me a ler tudo de início.
Beijinho grande

Maria disse...

Querida, minha querida Elvirinha:
Como a admiro! Adoro esta história, misturada com História, de uma verdade e franqueza, que só uma alma tão pura, como a sua, ousaria, usar.
Amiga, eu também não morri com o DDT. Ia morrendo, com a comichão. Nesses tempos, não havia Quitoso. Que eu saiba, ninguém morreu com o DDT. Apanhavam-se os bichos na escola.
Aposto, que poucos desse tempo, se livraram deles.
Já sinto comichão, só de pensar nisso.
Ri-me, sabe? Conseguiu fazer-me rir.
Obrigada, minha querida.
Beijinhos
Maria

vendedor de ilusão disse...

Elvira, parabéns pela postagem, achei magnífica! Aproveito para desejar-lhe um felicíssimo final de semana; pleno de paz e amor...

Kim disse...

Oi Elvira. Isto é mais que a sombra dum povo. Neste tempo era uma escuridão completa.
O DDT bem podia ter levado alguns daqueles que nos ensombravam a vida.
Um beijinho para ti

edumanes disse...

Governo azarento
Era Salazarista
Vivia lá para São Bento
Ninguém lhe ponha em cima a vista!

Agora temos coelhos
Cristas e Motas
Piores são os fedelhos
Para fechar temos as portas!

Obrigado amiga Elvira,
pelas suas simpáticas visitas, é sempre com muitos gosto que as recebo em meu blog.
Bom fim de semana
um beijo
Eduardo.

Severa Cabral(escritora) disse...

Cheguei para complementar a leitura que sempre sabes epressar de forma original...
Lá no meu blog está voando todas as folhas secas !!!!!!!!!!!!!!
passa lá para pegar uma de lembrança ,kkkkkkkkk
bjsssssssssssssssssss

Nilson Barcelli disse...

Ainda hoje se usa o processo da vara para ver onde há água...
Os anos 50 foram mesmo de ditadura feroz. Mas as pessoas (a sua maioria) já estavam habituadas...
Continuo a ler-te com agrado.
Elvira, querida amiga, tem um bom fim de semana.
Beijo.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

E continuamos a seguir com grande empolgação essa saga cheia de surpresas, com algumas coisas em comum: a "praga" dos piolhos, com o mesmo abate de DDT e a vira bifurcada, que os sertanejos usam para detectar a presença de água.

Voltarei, para o XXXII.
Beijos,
da Lúcia

MARILENE disse...

Foi bom voltar para agradecer sua presença, tão agradável, pois reli o seu texto, prazerosamente. Até me lembrei que meu pai falava de poços e dessa forma de se descobrir onde havia água. Ele já o fizera.

Bjs.

Socorro Melo disse...

Oi,

O Manuel era perseverante e engenhoso, e com certeza essas habilidades tornavam a vida mais prática, apesar das dificuldades da época.

Beijos
Socorro Melo