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8.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XI






Quanto à doação, hoje mesmo tratarei de tudo e logo que tenha a documentação pronta, aviso-o para as assinaturas.
- Muito bem. Não sei se poderá continuar a tomar conta de todos os assuntos desta firma, já que gostaria de poder continuar consigo para tratar de todos os meus assuntos. Se não o conseguir fazer, gostaria que designasse um dos seus associados, para que possa tratar dos assuntos do Marco. Ele já se vai desenvencilhando muito bem, mas o doutor sabe como o mundo dos negócios é traiçoeiro.
- Bom, para já eu trato de tudo relativamente à doação e ao término da sociedade. Depois se realmente quiser iniciar o processo da Fundação, como me disse há dias, entregarei os negócios do seu irmão ao Hugo Figueiredo. É um advogado muito competente e um homem em quem confio plenamente.
- Então faça isso. Eu quero avançar com o projeto o mais tardar no início do ano, e vou precisar de toda a sua ajuda. Já tenho em vista um imóvel para o funcionamento da Fundação, gostaria que fosse até lá e visse se há possibilidade de compra. É um imóvel quase novo, ainda não fez cinco anos, vazio porque a multinacional que o ocupava transferiu-se para a Estónia, e está situado muito perto do bairro onde eu nasci. Tem espaço suficiente para um refeitório, que alimentaria os mais carentes, uma sala de exposições, uma sala de espetáculos, onde poderíamos ensinar música e dança aos alunos que tendo aptidões para essas artes, não conseguem nas outras disciplinas, média para entrarem no conservatório. E além dos escritórios, ainda gostaria de ter um posto médico para pequenos tratamentos, e onde se ensinassem hábitos de higiene; e uma creche, para que as mães possam ir trabalhar sem problemas. Já lá estive, sei que pode ser tudo aquilo que sonhei, mas não consegui entrar em contato com o proprietário do imóvel.
- Dê-me a morada e ainda hoje tentarei descobrir o proprietário. Cumpre-me avisá-lo que um imóvel com essa capacidade pode ser um bom rombo na sua fortuna. Já pensou na hipótese de aluguer?
- Não se preocupe. Estou a par de quanto me poderá custar.  Também tenho aqui a proposta de um contrato que gostaria que analisasse. Um prestigiado produtor americano, quer comprar os direitos do meu primeiro livro para o levar ao cinema.  A proposta parece-me muito boa, e a minha agente aconselhou-me a aceitar. Porém antes de o fazer, gostaria que a analisasse.
- Os meus parabéns. O livro é realmente muito bom. Pode ser igualmente um bom filme. Irei analisar a proposta com todo o cuidado – disse pegando no envelope que Gil lhe estendia.
-Então doutor, por hoje é tudo, espero que dê um andamento rápido a estes assuntos, pois estou desejoso de avançar.
O advogado pôs-se de pé e estendeu-lhe a mão para a despedida dizendo:
- Fique descansado. Tudo sairá com a brevidade possível. Espero e desejo que tudo corra bem com o nascimento do bebé, e que a polícia consiga capturar os assassinos de sua esposa.
Gil levantou-se, apertou-lhe a mão e acompanhou-o à porta. Quando ficou só, olhou para o relógio. Já passava do meio-dia. Tinha o tempo exato para almoçar e se dirigir ao hospital, onde iria passar a tarde. Voltou à secretária, meteu o telemóvel e as chaves do carro, no bolso do casaco, e saiu para a loja.
-Queres ir almoçar comigo? – perguntou ao irmão que acabava de atender um cliente.
- Claro que sim. Deixa-me só avisar a Isabel - disse dirigindo-se ao pequeno gabinete da secretária.


1.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE III



Miguel aproximou-se. Colocou-lhe um dedo debaixo do queixo, obrigando-a a olhá-lo.
O desespero que viu no seu olhar, foi tão grande que ele sentiu uma vontade imperiosa de cuidar e proteger a jovem. Era um sentimento estranho e avassalador.  
“Deve ser, assim que um pai se sente, perante o sofrimento da sua filha” - pensou enquanto a olhava. 
- Não se preocupe, - disse tentando incutir nela uma tranquilidade que ele mesmo não sentia. Logo ou amanhã lembrará.Venha comigo. A minha casa não é lá grande coisa, mas nela encontrará abrigo até que se lembre de quem é e onde mora. Aqui sozinha não está bem. Este local é muito belo, mas às vezes é traiçoeiro, - disse enquanto dava voltas à cabeça, indeciso, sem saber se devia ou não contar à jovem, que meia hora antes, ele a salvara de se esborrachar no fundo da falésia.
Por fim decidiu que era melhor, seria nada dizer. Colocou a maleta sob o braço esquerdo, pegou o cavalete com a mão esquerda e estendeu a mão direita à jovem.
- Venha.
Como um autómato a jovem deu-lhe a mãe e começaram a caminhar em direção à estrada, onde Miguel tinha o seu veículo.
Aí chegado, abriu a porta do velho “carocha” e fez entrar a jovem. Depois guardou o material de pintura e sem uma palavra, sentou-se ao volante e arrancou em direcção à sua casa nos arredores da cidade.
Era uma habitação antiga, à qual se tinha acesso por dois altos degraus em pedra, ladeados por um pequeno corrimão de ferro, que já fora verde, mas que agora apresentava largos pedaços ferrugentos.
- A casa é muito antiga. Era de minha avó, foi aqui que nasceu meu pai. Este corrimão, foi posto aqui,quase no fim da vida da avó Ermelinda, para a ajudar na subida, - disse Miguel enquanto galgava os dois degraus com facilidade. Venha, não tenha medo- disse abrindo a pesada porta de madeira
A jovem seguiu-o e encontrou-se num pequeno patamar donde partiam três degraus de pedra que davam acesso à sala. Embora a casa fosse um rés-do-chão, no exterior, no interior estava quase ao nível do primeiro andar.
Subidos os três degraus, encontraram-se numa sala, com uma grade de ferro, à volta do fosso da escada.