Completamente alheia à aflição que ia em casa de Gil, Luísa conseguia que o desconhecido comesse um puré de legumes e tomasse
o anti alérgico e o antitússico. E ficou menos preocupada ao ver que a febre
tinha descido um pouco e o desconhecido já não se queixava tanto das dores de cabeça. De hora a hora
levava-lhe uma chávena de chá. Depois do jantar, arrumou a cozinha e sentou-se
na sala em frente da lareira disposta a passar parte do serão a ler. Pelo menos até à meia noite, hora a que
tentaria que o homem comesse alguma coisa e lhe desse o segundo
anti-inflamatório. Depois se ele estivesse bem, iria deitar-se. Se ela fosse
uma mulher de fé, provavelmente rezaria a Deus para que o desconhecido não
tivesse nenhuma complicação que a fizesse mandá-lo para o hospital.
Apesar
de estar habituada à solidão, estava a gostar de ter agora aquele homem lá em
casa. Os romances que lia, falavam de histórias de amor que ela nunca viveu,
nem nunca viveria, mas sonhar não era crime, nem pagava impostos e ela podia
sonhar que aquele belo homem, ali vivia, e de certa forma lhe pertencia.
“Não
sejas tonta, mulher. Não passa de um desconhecido que partirá logo que se
lembre quem é” dizia-lhe uma vózinha insidiosa dentro da sua cabeça. A voz sensata da
sua racionalidade.
Mas naquele momento, Luísa não lhe apetecia ser sensata. Sem conseguir concentrar-se na leitura, pôs de parte o livro e ligou a TV, coisa que já não fazia há muito tempo,
pois a programação estava cada vez mais saturada de novelas, e debates
futebolísticos, coisas que não lhe interessavam minimamente.
Na RTP 2 estavam a
transmitir um programa de poesia, homenageando Jorge de Sena, pelo recente
centenário do seu nascimento. Era um dos poetas que só conhecia de nome, pois não se lembrava de alguma vez ter lido um só poema que fosse dele; e por isso ficou
a assistir, até ao fim do programa. Quando acabou, foi ao quarto ver o doente
que se encontrava encharcado em suor. Procurou entre as roupas do irmão uma
T-shirt e umas calças de fato de treino, que ele costumava usar para correr e que
eram largas o suficiente para servirem como pijama ao desconhecido e
entregou-lhas com uma toalha, para que se limpasse e mudasse de roupa. Depois foi buscar o chá, uns biscoitos e o anti-inflamatório.
-
Consegue levantar-se e comer sentado enquanto mudo os lençóis? - perguntou quando voltou com a bandeja
O
homem levantou-se e dirigiu-se à cadeira que ela pusera junto à cómoda sobre a
qual poisara o tabuleiro.
-Como
está a sua cabeça? – perguntou enquanto retirava os lençóis transpirados para os substituir por outros limpos e secos.
-
Bastante melhor. Meu Deus, nunca vou conseguir agradecer o trabalho que lhe
estou a dar.
-
Não se preocupe com isso, o principal é que fique bom. Já conseguiu recordar
alguma coisa? Um acidente, uma queda, um nome? - perguntou alisando o lençol.
-
Infelizmente não. A minha cabeça é como um quarto escuro. Por mais que me esforce não consigo ver nada. E é tão
frustrante.
Acabou
de comer. Tomou o comprimido, levantou-se e dirigiu-se para a porta.
-
Coloquei na casa de banho um copo com escova e pasta de dentes para si -disse ela ao ver para onde se dirigia.
-
Obrigado – respondeu abandonando o quarto.