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6.12.22

POESIA ÀS TERÇAS - JORGE DE SENA - NATAL DE QUÊ ? DE QUEM?


 

 Natal de quê? De quem?



Natal de quê? De quem?

Daqueles que o não têm?

Dos que não são cristãos?

Ou de quem traz às costas

as cinzas de milhões?

Natal de paz agora

nesta terra de sangue?

Natal de liberdade

num mundo de oprimidos?

Natal de uma Justiça

roubada sempre a todos?

Natal de ser-se igual

em ser-se concebido,

em de um ventre nascer-se,

em por de amor sofrer-se,

em de morte morrer-se,

e de ser-se esquecido?

Natal de caridade,

quando a fome ainda mata?

Natal de qual esperança

num mundo todo bombas?

Natal de honesta fé,

com gente que é traição,

vil ódio, mesquinhez,

e até Natal de amor?

Natal de quê? De quem?

Daqueles que o não têm,

ou dos que olhando ao longe

sonham de humana vida

um mundo que não há?

Ou dos que se torturam

e torturados são

na crença de que os homens

devem estender-se a mão?



Jorge de Sena
(Poema “Natal de 1971”, in "De palavra em punho")
 
 

7.2.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXXVI




Completamente alheia à aflição que ia em casa de Gil, Luísa conseguia que o desconhecido comesse um puré de legumes e tomasse o anti alérgico e o antitússico. E ficou menos preocupada ao ver que a febre tinha descido um pouco e o desconhecido já não se queixava tanto das dores de cabeça. De hora a hora levava-lhe uma chávena de chá. Depois do jantar, arrumou a cozinha e sentou-se na sala em frente da lareira disposta a passar parte do serão a ler.  Pelo menos até à meia noite, hora a que tentaria que o homem comesse alguma coisa e lhe desse o segundo anti-inflamatório. Depois se ele estivesse bem, iria deitar-se. Se ela fosse uma mulher de fé, provavelmente rezaria a Deus para que o desconhecido não tivesse nenhuma complicação que a fizesse mandá-lo para o hospital.
Apesar de estar habituada à solidão, estava a gostar de ter agora aquele homem lá em casa. Os romances que lia, falavam de histórias de amor que ela nunca viveu, nem nunca viveria, mas sonhar não era crime, nem pagava impostos e ela podia sonhar que aquele belo homem, ali vivia, e de certa forma lhe pertencia.
“Não sejas tonta, mulher. Não passa de um desconhecido que partirá logo que se lembre quem é” dizia-lhe uma vózinha insidiosa dentro da sua cabeça. A voz  sensata da sua racionalidade.
Mas naquele momento, Luísa não lhe apetecia ser sensata. Sem conseguir concentrar-se na leitura, pôs de parte o livro e ligou a TV, coisa que já não fazia há muito tempo, pois a programação estava cada vez mais saturada de novelas, e debates futebolísticos, coisas que não lhe interessavam minimamente. 
Na RTP 2 estavam a transmitir um programa de poesia, homenageando Jorge de Sena, pelo recente centenário do seu nascimento. Era um dos poetas que  só conhecia de nome, pois não se lembrava de alguma vez ter lido um só poema que fosse dele; e por isso ficou a assistir, até ao fim do programa. Quando acabou, foi ao quarto ver o doente que se encontrava encharcado em suor. Procurou entre as roupas do irmão uma T-shirt e umas calças de fato de treino, que ele costumava usar para correr e que eram largas o suficiente para servirem como pijama ao desconhecido e entregou-lhas com uma toalha, para que se limpasse e mudasse de roupa. Depois foi buscar o chá, uns biscoitos e o anti-inflamatório.
- Consegue levantar-se e comer sentado enquanto mudo os lençóis? - perguntou quando voltou com a bandeja
O homem levantou-se e dirigiu-se à cadeira que ela pusera junto à cómoda sobre a qual poisara o tabuleiro.
-Como está a sua cabeça? – perguntou enquanto retirava os lençóis transpirados para os substituir por outros limpos e secos. 
- Bastante melhor. Meu Deus, nunca vou conseguir agradecer o trabalho que lhe estou a dar.
- Não se preocupe com isso, o principal é que fique bom. Já conseguiu recordar alguma coisa? Um acidente, uma queda, um nome? - perguntou alisando o lençol.
- Infelizmente não. A minha cabeça é como um quarto escuro. Por mais que me esforce não consigo ver nada. E é tão frustrante.
Acabou de comer. Tomou o comprimido, levantou-se e dirigiu-se para a porta.
- Coloquei na casa de banho um copo com escova e pasta de dentes para si -disse ela ao ver para onde se dirigia.
- Obrigado – respondeu abandonando o quarto.