11.6.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XXXVIII


 Foto do arquivo digital de  Alcochete



Por tudo o que acabo de dizer o Sal era na altura um bem precioso e bem pago. Aos exploradores da Salinas que não aos pobres salineiros. Estes recebiam de jorna diária 30 Escudos, ordenado que se mantinha inalterado há 6 anos. Mas durante esses mesmos 6 anos o moio de sal, que inicialmente custava 50 escudos, era agora de 800 escudos.  Sabendo-se que um moio tinha 840 litros, o preço do sal estava em pouco menos de 1 escudo o litro. Os salineiros trabalhavam de empreitada pois para ganharem o dia tinham que carregar sete moios de sal dos talhos para os muros.  Carregavam-no em canastras, e para cada moio precisavam carregar 15 canastras de 56litros. O que quer dizer que para ganharem o dia, tinham que carregar mais de 100 canastras. Mas isso não é tudo. Inicialmente os patrões começaram a exigir mais uma canastra de sal em cada moio por causa das quebras, depois duas, mais tarde três. E das 105 canastras diárias, o pobre do salineiro já ia em 126. Não é pois de admirar que andassem revoltados. E foi assim que no final de Julho de 1957, os salineiros entraram em greve após terem visto escrito no alcatrão da estrada uma mensagem que a isso os incitava. A caminho do trabalho deram a volta e meteram-se em casa.
Apanhados desprevenidos os patrões usaram de toda a sua influência e recorreram às autoridades.
Daí até que agentes à paisana aparecessem durante a noite, e levassem os salineiros para as “ritas” os famosos carros prisão e os transportassem para o Aljube foi um passo bem pequeno.

Em poucos dias tinham sido presos 35 trabalhadores. Outros conseguiram fugir, mas como não se podiam aproximar de casa, vagueavam pelos campos cheios de fome.
O padre Francisco Ferreira, prior de Alcochete na altura, fez-se a si próprio prisioneiro na sua igreja, levando dias e noites a fio sem por o pé na rua, para não cair nas mãos da PIDE, que achavam que ele teria incentivado os trabalhadores porque ele tentou ajudar as mulheres e filhos dos mesmos que se ficaram sem o seu ganha-pão e sem comida.
Mais tarde depois de passado o perigo de ele próprio ser preso, ia visitar os presos e levar-lhes algum conforto.
Os salineiros foram apodados de comunistas, mas na sua grande maioria, senão na totalidade não tinham qualquer cor politica.
A greve prolongou-se porque a maioria dos patrões não cediam e preferiam ir buscar trabalhadores a outros concelhos a pagar mais, do que negociar com os salineiros da zona.
Na Seca da Azinheira como em todas as outras a situação era altamente preocupante pois sem sal não se podia fazer a cura do bacalhau e se não se podia fazer a cura, toda aquela gente que tinha vindo do norte do País para a safra ficavam sem trabalho e sem meios de se sustentarem ou de regressarem à terra.


fonte principal na pesquisa para este capitulo
 http://www.aipd.pt/centro-de-documentacaoxmalcochete-na-historiaxm/historia/145-a-greve-do-sal-de-1957

Esta história volta dia 17 já que no dia 15 será dia de mais uma blogagem coletiva 


A todos uma excelente semana

22 comentários:

Georgia disse...

Elvira, uma época onde sal e acucar tinham preco de ouro.

Boa semana

Bjos

São disse...

Da importância do sal vem o termo "salário".

Um abraço grande

rosa-branca disse...

Olá amiga, um texto que mostra bem a dureza da vida. Beijos com carinho

Andre Mansim disse...

Mais um belo e interessante capítulo!
Achei esse mais sério, mas ficou bom também!

vendedor de ilusão disse...

Que tenhas uma semana inolvidável, cara amiga!

FireHead disse...

Quanta diferença entre os grevistas daqueles tempos e os grevistas de hoje. No domingo, quando voltava do Norte, nem me tinha apercebido que havia greve da CP (mais uma). Depois de ter tirado o bilhete é que reparei que os comboios tinham sido todos suprimidos. E fiquei com o dinheiro a arder. Foram 2,05 euros mas era dinheiro na mesma.
Não há dúvida nenhuma que se passou do 8 ao 80 com o 25 de Abril.

Luís Coelho disse...

Prepotência e arrogãncia.
Sei que foram tempos muito dificeis e que os patrões e os políticos estavam do mesmo lado.
A fome e a explorados estavam do outro lado.

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Magnífico!

Beijos

Fernanda disse...

Amiga Elvira!

Desculpe não comentar, mas não tenho acompanhado, o que lamento.
Talvez um dia venha a ler todos os seis contos num outro formato, o que seria certamente muito merecido.

Abraço

Teté disse...

É, na época quem se tentava rebelar contra os salários miseráveis, era apodado de comunista. E por isso preso.

Admira-me sempre como a memória do povo pode ser tão deturpada com o passar dos anos e de haver pessoas que ainda falem "nos bons velhos tempos"...

Gostei deste capítulo, que de uma forma tão simples, põe a nu o que eram os tais "bons" patrões de outrora!

Beijocas!

Nilson Barcelli disse...

Tempos bem difíceis.
Beijo, querida amiga.

Kim disse...

Nessa altura eu não tinha consciência política, apenas me lembro que o medo era uma constante.
Crise, hoje? Quem não viveu aqueles tempos não saberá nunca o que é a crise.
Do medo já nem falo!
Beijinho amiguita Elvira

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Mais uma boa leitura! Gostei ver as salinas. Aqui no nordeste brasileiro lembro de muitas, que já existem. Restaram poucas. Interessante o termo "ritas" para os carros prisão.
Prossigo acompanhando essa saga do Manuel...

Beijinhos, elvira

Sonhadora disse...

Minha querida Elvira

Eram tempos muito difícies que hoje já ninguém se lembra deles, mas a miséria reinava.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Isamar disse...

Trabalho duro, mal pago e cada vez mais exigente. Trabalhar ao sol dias e horas a fio era muito penoso e havia que estar de " bico" calado. Todos aqueles que tivessem a ousadia de manifestar qualquer descontentamento eram feitos prisioneiros e pagavam muito caro o seu comportamento. Tempos que não podemos esquecer para que não acordem de novo à nossa beira. Gostei, Elvira! Força, amiga! Beijinhos

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Hoje há greves constantes e consideramos esses grevistas corajosos; não deixam de o ser, pois é muito mais cómodo ficar em casa à espera que os outros vão para as ruas, mas bravos e corajosos eram os que se atreviam a fazê-lo nos tempos em que um simples não a qualquer intenção do governo significava cadeia e muitas vezes tortura. Corajosos esses homens, Elvira! Um beijinho e espero que tenhas tido um bom dia de Sto António. Aqui onde vivo é feriado, poiss ele é o nosso padroeiro. Fica bem, amiga!
Emília

FireHead disse...

Uma vez mais a meter axas na fogueira, de facto permitam-me dizer que agora, depois do 25 de Abril, é que estamos mesmo bem. Vê-se...

Zé Povinho disse...

O sal já foi uma das maiores riquezas transaccionáveis. A exploração laboral já teves dias piores, mas por este andar bem pode acontecer que a coisa se repita.
Abraço do Zé

Graça Pereira disse...

Gosto de te ler porque fico a saber a história de um povo mal tratado, espezinhado e roubado e concluo que, tanto faz o ontem como o hoje. apesar da liberdade conquistada.
Estive a ler para trás para me situar e não perder pitada.
Beijo e bom fim de semana.
Graça

Severa Cabral(escritora) disse...

Belo alvorecer minha querida !
Deixo bjs para aquecer teu final de semana,e aproveitei para ler um pouco dessa história da vida real ...
bjssssssssssssssssss

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Com atraso, cá chego eu às salinas.
Bela descrição do trabalho duro e pesado que girava em torno da actividade da extracção do sal- e da importância que ele então tinha.
Quanto ao resto do texto, está lindamente escrito como sempre, e é um prazer de leitura.

Um abraço

Vitor

Luis Eme disse...

um tempo triste e injusto...

abraço Elvira