18.6.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XXXIX


 foto do Sputnik

 A greve dos salineiros começara á poucos dias quando no início de Agosto é publicado o despacho decretando que a Siderurgia Nacional se instalaria no Seixal. Isto dá início à maior crise política da margem sul, pois como já foi dito anteriormente, a população de Alcochete, tinha grandes esperanças de que fosse para lá. Sonhava-se com isso para tirar o concelho da miséria em que vivia confinado apenas ao trabalho de quase escravidão das salinas. Além do mais as Salinas ficavam paradas todo o Inverno e os homens não tinham onde ganhar o pão de cada dia. Vários políticos demitiram-se em bloco entre eles o presidente da câmara.
Na Seca, dizia-se que a instalação da Siderurgia do outro lado do rio ia empurrar este para o lado de cá. Manuel ficou apreensivo. O barracão ficava a menos de dez metros da água quando as marés eram grandes. Bom o barracão estava assente em pilares de cimento com 1 metro de altura. As águas não iriam nunca chegar ao barracão Mas e o quintal em frente que tanto lhe custara a romper por entre chorões e silvas? E as capoeiras com os animais, encostadinhas ao barracão mas assentes no chão? Além da falta que as coisas lhe iam fazer para uma melhor alimentação da família, não era nada agradável se quando descesse os degraus da escada de madeira ficasse com os pés de molho.
Por esses dias, os pescadores de Matosinhos formam uma comissão para lutar pelo descanso ao domingo e recusam-se a embarcar antes das 10 da noite nesses dias.
Por esses dias surge o reino de Marrocos com Mohamed V e no mesmo dia o franco francês desvaloriza 20por cento.
Antes do término de Agosto a Malásia torna-se independente.
E o mês termina sem que a greve dos salineiros chegue ao fim.
 A injustiça da repressão sobre os salineiros, foi tão grande que acabou por achar apoio em figuras importantes do Partido da União Nacional, que exerceram influência decisiva sobre o governo em Lisboa, obrigando Veiga de Macedo, o Ministro das Corporações na altura, equivalente ao atual ministro do trabalho, a impor aos grémios da Lavoura, representantes dos proprietários das salinas, um novo contrato coletivo para todos os salineiros do Tejo e Sado, com importantes melhorias salariais.
 Na Seca, o Manuel e todos os outros trabalhadores respiram de alívio. Afinal, a Safra poderia seguir o seu curso e o trabalho não iria faltar.
 Em Outubro as comemorações da implantação da República são aproveitadas para manifestações contra o regime. Ainda em Outubro Humberto Delgado visita Henrique Galvão, que continua detido em Peniche, este sugere que Delgado se candidate e contacta António Sérgio, que será o principal agente organizador de um apoio civil a Humberto Delgado. É também nesse mês que é lançado o Sputnik. Competição espacial. A competição vai também chegar ao espaço quando a URSS lança o primeiro satélite artificial, o Sputnik I, para, logo depois, ensaiar o disparo do primeiro míssil balístico intercontinental. E em Dezembro numa reunião de nacionalistas das colónias portuguesas, estudantes na Europa, forma-se em Paris o Movimento Anticolonial (MAC). Através de greves e concentrações, milhares de trabalhadores rurais de diversos locais Pias, Sousel, Casa Branca, Vidigueira, Glória, Évora, Serpa, Viana do Castelo, Ermidas, etc. conseguem aumentos salariais por ocasião das colheitas.

Para todos os que por aqui passam uma boa semana.

27 comentários:

Mariangela disse...

É tão bom relembrar fatos que ficaram esquecidos em nossas memórias e seguir a história de Manuel em sua luta diária. Quando penso que ele terá um pouquinho de paz...
Lá vem outro sofrimento!
Mas ainda bem que depois dá tudo certo!
Abraços Elvira, e uma boa semana!
Mariangela

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Em todos os capítulos,dessa extraordinária narrativa, há pontos que mais me chamam a atenção.
Neste foi o lançamento do Sputnik.
Em quase todos os capítulos, percebi sempre a questão das greves. Elas continuam...Aqui,no Brasil, a mais importante, no momento, é a greve dos Professores das Universidades Públicas.É a minha categoria, já estou aposentada mas continuo atuante.Os salários estão defasados e são péssimas as instalações de muitas Universidades Públicas.

Boa e produtiva semana, Elvira.
Um abraço,
da Lúcia

São disse...

Continua a sua estupenda lição de História...

Uma serena noite

manuela barroso disse...

Olá Querida amiga,

Admiro este estudo aturado de uma saga que tem sempre resistências no fuir do trabalho e da vida.
Momentos mais "leves" alternando com uma luta contínua.
E o ontem continua ainda hoje...
Parabéns por esta partilha de tempos que para muitos serão novidade.
Grande abraço, Elvira.
..............
Elvira,
No site www.ediumeditores.org
em "Pontos de Venda" tem as várias livrarias onde pode adquirir.
Mas se pedir para a Edium Editores também ho enviam.
Fico honrada!
Beijinhos

Teté disse...

Esta história tem piada, entre outras coisas, porque nos recordar uma época passada e por muitos já esquecida (para quem era vivo na época, evidentemente!), cruzando várias dos momentos mais relevantes da época, portugueses e estrangeiros, com a história de Manuel e família... :)

E dá-nos a nítida noção do que é escravizar um povo! Se bem que mesmo aí houvesse quem abrandasse, à conta de tanta injustiça...

Beijocas!

edumanes disse...

Embora a passo de caracol, iam havendo algumas pequenas melhorias nas condições de vida dos trabalhadores, que não passavam de pequenas migalhas, continuando a miséria,sendo talvez a maior força com a qual o governo pouco ou quase nada se preocuparia em resolver!
Agora que tudo parecia estar no bom caminho, apareceu por aí uma tal de TRÓIKA, que nos pretende conduzir ao passado muito rapidamente?

Desejo uma boa noite, e óptima semana para você, amiga Elvira,
um abraço
Eduardo.

Luma Rosa disse...

Manuel, a cada dia enfrenta um obstáculo em sua vida, sempre em prol do bem-estar de sua família e sua saga mostra-nos como as atitudes dos poderosos, sempre prejudicaram os mais fracos. A vida segue!!
Deixei um comentário na postagem da blogagem coletiva!
Beijus,

FireHead disse...

O passado que eu não vivi, com alguma pena da minha parte, pois quem viveu nesses tempos está a ter o seu futuro agora, o presente, ao passo que eu e os da minha geração não sabemos se vamos ou não ter algum futuro. Como já ouvi lamentarem por aí, isto já nem com um Salazar lá vai...

Luís Coelho disse...

Aqui a miséria humana junta-se também à política. As grandes figuras estão cada dia mas agarrados ao poder e usam a repressão para dominar todo o aparelho partidário.

Aqui ficam lições de história que os nossos jovens nunca ouviram falar.

Socorro Melo disse...

Oi, Elvira!

Por falta de tempo, infelizmente, não tenho acompanhado a história a contento, mas, fico maravilhada com o que vejo. É interessante relembrar tantos fatos históricos, marcantes, e perceber as semelhanças com a nossa realidade.

Grande abraço, amiga
Socorro Melo

Mar Arável disse...

A propósito de salinas

talvez um dia escreva àcerca dos marnotos
também em Aveiro
homens que nunca foram meninos

Abraço amigo

Rafeiro Perfumado disse...

O Manuel não tinha visão, era logo aproveitar para fazer uma piscina!

aflores disse...

Por aqui a história não se esquece, nem fica abandonada.

Tudo de bom.

Bem-haja.

Sonhadora disse...

Minha querida

Mais pedaço de tantas vidas nessa altura, cada um com a sua labuta, mas todo o País nessa eterna miséria, que pensavamos nunca mais a ela regressar.
Lindo como sempre ler-te.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Graça Pereira disse...

Tu és a Memória do Tempo e colocas de um modo extraordinário aqui, factos que muitos desconheciam.
Um trabalho exaustivo que merece todo o nosso aplauso!
Beijo e resto de boa semana.
Graça

Leninha disse...

Querida Elvira,

Os fortes e poderosos sempre oprimiram e continuam até os nossos dias...pobre Manuel,na eterna luta em busca de uma vida melhor para os seus.

Momentos históricos ricamente descritos fazem desta odisséia,uma perfeita aula.

Bjssss,
Leninha

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Continuo a dar-te os parabéns por este trabalho que muito nos enriquece. Homens muito corajosos que foram, com muita repressão e sofrimento, abrindo caminhos para a liberdade que hoje temos. É a eles que tudo o que temos hoje devemos. Agora é fácil rivindicar; não há essa miséria e muitas vezes reclama-se " de barriga cheia" como se costuma dizer. E aos poucos lá vai o nosso Manuel vivendo com mais tranquilidade. O seu esforço de certeza que vai ser recompensado. Cá fico à espera de novos capítulos. Um beijinho, Elvira e que fiques bem!
Emília

Zé do Cão disse...

Elvria

Achei graça ao Rafeiro.
Claro e de água salgada... áháháh...
Mas, naqueles tempos, a preocupação era dar de comer aos filhos e fazer deles homens.

o meu abraço, Elvira

Luis Eme disse...

vem aí 1958, ano de tanta esperança...

abraço Elvira e bom fim de semana

Duarte disse...

Recordando, neste caso coisas da nossa terra, é que voltei ao Porto, desta vez com os meus alunos e alguns amigos.
Forma momento intensos, emocionantes, para repetir.

Claro que sim, como não, se acabei por dedicar-me a esse mundo, aproximei-me dos astros!

Pra ti, querida amiga, um abraço bem grande

LopesCa disse...

A colocar a leitura em dia, o positivo é que tenho mais para ler ;)

vendedor de ilusão disse...

Olá Elvira, vim para, como sempre, ter o privilégio de ler as maravilhas que escreves! Um ótimo final de semana!

Nilson Barcelli disse...

Ler-te, também é viajar no tempo e ver pormenosres da nossa História.
Elvira, minha querida amiga, tem um bom fim de semana.
Beijo.

Luma Rosa disse...

Passando para te desejar um excelente final de semana e deixar beijuzinhos :)

. intemporal . disse...

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. em cada relato se acresce o ato . que se eternizou na história . tão perto e tão distante .

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. um beijo meu .

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Olinda Melo disse...

Querida Elvira

O seu relato vai nos aproximando do momento presente.
Um olhar sobre o Humberto Delgado que ficou na História bem como Henrique Galvão. Paralelamente os homens das salineiras a lutar por melhores condições de vida. E ao mesmo o nosso querido Manuel, sempre atento, trabalhador,com os olhos sempre postos no que era essencial para ele:a sua casa,o seu lar, a sua família.

Beijinhos

Olinda

Isamar disse...

Li três vezes este episódio e já ia sair sem deixar comentário. Muitos factos importantes são aqui mencionados mas destaco principalmente as lutas dos trabalhadores. Greves no campo, greves nas salinas para se ganhar um bocadinho mais. Quanto arriscavam estes valorosos e destemidos homens num tempo marcado pela ditadura! A par disto, a exploração espacial começava com todos os gastos que lhe eram inerentes.

Bem-hajas, amiga!

Beijinhos