23.4.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XXVII


 foto da net


O ano seguinte começou com a União Indiana a propor na Assembleia-geral da ONU a integração no seu território do Estado Português da Índia.
A 13 de Janeiro, dia em que em Moscovo eram presos 9 médicos acusados de terrorismo e de serem os mentores da chamada Revolução das Batas, Piedade se foi. De manhã enquanto tomava o pequeno-almoço, simplesmente deixou de respirar. Vítima de uma embolia cerebral dissera o médico. O Manuel mandou as crianças para casa do cunhado, José Varandas, para que não vissem o funeral da avó. O João o irmão que felizmente vivia bem melhor, tratou das despesas, e o féretro partiu numa fria e seca manhã, na carroça do ti’Abel, a urna coberta com uma colcha de algodão rosa, e todo o pessoal da Seca em cortejo a pé. À noite, as crianças voltaram para o barracão sem entenderem a tristeza dos pais, nem a ausência da avó. Agora Gravelina não podia ir trabalhar, as crianças eram demasiado pequenas para ficarem sozinhas, num barracão que ainda por cima estava situado à beira do rio. Depois de muito matutar, Manuel decidiu mandar vir do norte um dos cunhados mais novos, um rapazito de 12 anos, para ficar a tomar conta dos miúdos, para que a mulher pudesse continuar a trabalhar, muito embora ele não soubesse se ela aguentaria até ao fim da safra, dado o seu estado cada vez mais debilitado.
Três dias depois, Manuel foi a Santa Apolónia buscar o Luís. Era um miúdo alto e muito magro, mas esperto e agradecido por ter saído do monte onde guardava as cabras de um lavrador da Trapa.
Manuel nunca se arrependeu da sua decisão, já que Luís era carinhoso com os sobrinhos e muito responsável.
Por essa altura Eisenhower tomava posse dos destinos da América.
Em Fevereiro incidentes em Batepá, na ilha de S. Tomé eram esmagados pelas forças policiais. Cerca de mil mortos foi o rescaldo.
Pouco depois morre Estaline. O calendário marcava o dia 5 de Março  e antes de o mês acabar, é anunciado o nome do novo secretário do Comité Central, Nikita Sergueievitch Khruchtchev.
Nos primeiros dias de Abril, termina o trabalho na Seca. A URSS começa a viragem pós Estaline. O Pravda anuncia que a conjura das batas brancas tinha sido fabricada pela polícia política e os médicos foram reabilitados.
Em Portugal, Salazar comemora 25 anos da subida ao poder.
Quando Maio chegou, Gravelina já não andava. Arrastava-se como podia, a roupa a dançar sobre o corpo esquelético, o rosto encovado e macilento.
Foi nessa altura que a mulher do capitão que geria a Seca a viu e se compadeceu. Mandou chamar o Manuel, e dando-lhe dinheiro mandou que chamasse um carro de aluguer, e levasse a mulher ao médico no Barreiro. Porém quando o médico viu a mulher, escreveu uma carta e chamando uma ambulância a mandou para o Hospital de Almada, que era na altura o hospital mais perto. Manuel foi acompanhar a mulher mas voltou sozinho. Gravelina ficou logo internada dada a gravidade do seu estado. Ele voltou para casa com o coração apertado. O médico disse que a mulher tinha que ser operada com urgência, estava com a barriga toda “podre”. Verdade é que o médico primeiro dissera um nome esquisito, mas quando o Manuel quis saber o que aquilo queria dizer, o médico respondera-lhe assim. Porém dado o seu estado de debilidade física, não poderia ser operada já. Teria que ficar internada um bom tempo. Almada fica longe do Barreiro para as vistas. Além disso em casa estão três crianças, e mais o cunhado que no fundo ainda é também uma criança.
À noite sentado nas escadas do casarão, enquanto as crianças dormem, Manuel eleva uma prece a Deus e afundando o rosto entre as mãos chora. Chora a angústia de não saber se a companheira, irá resistir, chora a dor de não saber o que fazer com os filhos, se a mãe não voltar, chora enfim a miséria da vida que leva, feito besta de carga, que não trabalha nunca o suficiente para ter uma vida digna.



Esta história voltará  dia 27 de Abril. A todos desejo uma boa semana

17 comentários:

Georgia disse...

Oi querida, tudo bem?

Concordo contigo quanto ao comentário na Saia Justa.

Tem dias e fases que é muito difícil levantar, mas precisamos saber que Deus nao nos deixa sozinhos quando o buscamos com o nosso coracao.

Te desejo uma semana abencoada.

Beijao

São disse...

Corta o coração este seu testemunho.

E ficamos mais tristes ainda quando pensamos que nos estão a fazer regressar deliberadamente e por vingança a este sofrimento.

Um abraço apertado, amiga

Isamar disse...

Uma narrativa que nos faz doer o coração, o corpo, a alma. A vida dura do povo trabalhador que mal ganhava para o sustento diário da família. Ir ao médico, vestir e calçar os filhos era muito difícil. Gostei muito, Elvira!

Beijinhos

Bem-hajas!

Maria disse...

Minha Querida:
Cada capítulo desta história, me comove mais!
Triste vida a vida do Manuel e família.
Deve-lhe custar horrores, lembrar e escrever.
Admiro a sua coragem.
Fico à espera de dia 27.
Beijinhos, amiga
Maria

Mariangela disse...

Bom dia Elvira!
Esta narrativa é muito triste!
A vida dura para criar os filhos,com tanto empenho e dificuldades, só temos a agradecer esse exemplo de amor e dedicação que nos deixaram como herança.
Dou viva aos nossos pais, bravos heróis em favor da vida de seus filhos!
Um grande abraço!
Mariangela

Mariazita disse...

Comovente até dizer chega!, este episódio.
Ainda mais por sabermos que os factos aqui relatados são verdadeiros.
Pobre Manuel, que teve uma via tão sofrida.
Que Deus o compense agora de tanto que padeceu nesta vida.

Boa semana. Um abraço

Luis Eme disse...

mais um "capítulo" de uma vida sofrida e sentida.

abraço Elvira

AC disse...

Elvira,
Um verdadeiro retrato dum tempo em que a vida era muito dura, era só trabalho e sacrifícios.
Muito bem, continue!

Beijo :)

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Desta vez deixou-me com um nó na garganta!

Beijos

Teté disse...

Então cá estarei para ler o seu seguimento, mesmo que já tenha apanhado o comboio a meio... :)

Beijocas!

Zé Povinho disse...

este Manuel sofreu muito e todavia tantos anos mais tarde, quando se julgava que essa miséria e esse sofrimento não eram possíveis, eis que as coisas para lá caminham a passos largos.
Abraço do Zé

Mar Arável disse...

Mais uma viagem

com pausas

nos apeadeiros da vida

Duarte disse...

Também era Abril, mas doutro tempo, quando cheguei a Santa Apolónia, e daí à pensão Castanheirense... ia entrada a noite... que tempos!

Um grande braço

Paulo Cesar PC disse...

Minha querida Elvira, mesmo tendo talvez perdendo alguns capítulos de sua publicação, pois me encontrava ausente do blog, passo para rever seu espaço e continuar admirando as coisas que escreve e da forma como escreve. Um beijo no seu coração.

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Sorte madrasta a do Manuel mais a da mulher; num tempo em que quem não tinha dinheiro só conseguia entrar no hospital com atestado de pobre ... coisa que nos dias de hoje a muitos será difícil acreditar.

E o mundo maior continua aqui a girar em paralelo com o do Manuel - duma forma muito bem contada e apelativa - mas é o dele que nos desperta mais interesse...

Abraço amigo
Vitor

MARILENE disse...

Sempre me sensibilizam os seus relatos. Saber que há verdade no que escreve nos faz pensar e acompanhar essa angústia.

Bjs.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Vim ontem, vim hoje, virei amanhã...
Deixo meu abraço, Elvira, com votos de um bom Domingo!

Lúcia