8.4.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XXIV





A segunda metade do século XX  começa com a morte de Militão Ribeiro na Penitenciária de Lisboa, depois de ter feito uma greve de fome. Ainda em Janeiro o partido comunista perde mais dois militantes. José Martins e José Moreira.
 Nesse mesmo mês a Inglaterra reconhece a República popular da China.
 No mês seguinte chega a recusa do governo português à proposta da União Indiana para as negociações de integração do estado português da Índia, como parte integrante do seu território.
 Em França os ministros socialistas abandonam o governo e nas eleições da Grã-Bretanha, os trabalhistas são os vencedores.
 Poucos dias depois o Congresso Mundial dos Partidários da Paz, defende em Estocolmo a interdição do uso da bomba atómica.
 Em Maio inicia-se o julgamento de Álvaro Cunhal, que acaba sendo condenado à prisão perpétua.

Na Seca, a mulher do Manuel está como no ano anterior prestes a dar à luz. Ele anda sorumbático. Teme a vinda de outra rapariga. Interroga-se sobre o que fará se isso acontecer. E chegou o mês de Junho. No dia 4 é morto em Alcobaça, Alfredo Dias Lima, um destacado membro do partido comunista que organizara uma greve. De 10 a 29 decorrem em Lisboa, as Festas Populares, que retomam o desfile das marchas.
 No dia 20 de Junho, dia em que a segunda filha faz 1 ano, precisamente três horas antes, nasce o tão almejado filho. O rapaz esperado desde o primeiro momento enchendo de alegria e orgulho o seu coração.
 Nesse dia quase não dormiu. Dividido entre a contemplação do filho, a mulher que parecia mais cansada que das outras vezes e as duas raparigas, uma extremamente franzina, – não pôde ser amamentada como devia, por causa da nova gravidez – e a mais velha com quase 3 anos e sempre a querer ver e brincar com o bebé, como se ele fora um boneco. Manuel estava alerta com ela. Lembrava-se do susto que apanhara uns meses atrás, quando fora dar com ela a meter pão na boca da menina, e esta quase sufocada já a ficar negra. Tivera que lhe pegar pelos pés, virá-la de cabeça para baixo, e dar-lhe umas palmadas, até que por fim saltaram os pedaços de pão. E o pior foi a cara de anjinho da garota, quando disse na sua linguagem ainda taramelada que “a mana estava a chorar, devia ter fome”. Ficou desarmado sem coragem de a castigar. Mas apressou-se a fazer uma cancela suficientemente alta para ela não saltar, que pôs na porta do quarto e a partir daí o berço da menina ficou assim protegido.
 No mês seguinte foi a vez do Varandas ver nascer o seu primeiro rapaz.
 Em Agosto dá-se uma remodelação do governo, com recuo da ala marcelista e avanço do grupo Santos Costa.
 Na Bélgica, Balduíno presta juramento como regente, e o Conselho da Europa aprova um projecto do Churchill, sobre a criação de um exército europeu.
 Em Novembro, estreia em Lisboa, “O Grande Elias” e antes do fim do ano, novos protestos contra o governo, no Congresso dos Homens Católicos, e nos protestos estudantis.
 O Natal desse ano não foi um Natal feliz para o nosso Manuel, apesar do rapazinho que tanto desejara. É que a mulher nunca mais fora a mesma desde o parto. Emagrecera imenso, tinha grandes olheiras, parecia estar sempre com dores e de vez em quando tinha hemorragias. Ele estava muito preocupado. 

20 comentários:

manuela barroso disse...

A saga do nosso Manuel agora num aspeto mais intimista mas continuando com os ditúrbios sociais sempre a condicionar tempos difíceis.
E ás vezes parece que a história se repete...
Excelente trabalho Elvira,
Boa semana
Muitos beijinhos

ana costa disse...

Muito bom trabalho amiga.
Não são raros os autores que através das suas histórias retratam a vida de um povo. Sua vida, seus costumes, suas dores, suas alegrias....
Beijo amiga

Mónica disse...

hola felices pascuas que tan cercanas aún, perduran en nuestros corazones.

muchos beijos, amiga.

Sofá Amarelo disse...

A história contada através da vida real, sobre uma época tão pouco conhecida de todos nós e que tanta importância teve para o que se passou alguns anos depois e que ainda tem influência na sociedade portuguesa e no país que somos!

Um abraço e boa continuaçãoooo

Sofá Amarelo disse...

A história contada através da vida real, sobre uma época tão pouco conhecida de todos nós e que tanta importância teve para o que se passou alguns anos depois e que ainda tem influência na sociedade portuguesa e no país que somos!

Um abraço e boa continuaçãoooo

Mariangela disse...

Querida Elvira!
Como sempre belíssima história!
O Manuel, feliz com o sonho realizado do nascimento do varão e agora mais essa tristeza com a doença da esposa.
Fico a espera do próximo capitulo.
Abraços,
Mariangela

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

A alegria ensombrada pela tristeza,parece ser destino a que o Manel não se irá furtar, enquanto a policia política e as prisões por cá vão aterrorizando quem ousa discorda do regime.

E o mundo aqui vai avançando, e nós com ele, neste resumo histórico muito bem escrito.

Até ao próximo capítulo.
Um abraço.
Vitor

Duarte disse...

Excelente iniciativa. A vida dum país relatada minuciosamente desde a perspectiva duma família. Parabéns, pois gostei.
Abraços de vida

Paulo Cesar PC disse...

Manuel é realmente um personagem que exerce uma força viva a essa narrativa. Parabéns, viu, querida Elvira. Um beijo no seu coração.

vendedor de ilusão disse...

Agradeço-lhe a honrosa visita, assim como as gentis palavras que a mim dedicastes, todavia, não posso negar minha estranheza por, ainda, não estar seguindo meu blog, coisa que já faço no teu há tempos. Coisa de esquecimento talvez?

São disse...

O mais comovente é a ingenuidade da garota , que ia matando a irmã ...mas com boa intenção, rrsss

Ai, como as crianaçs podem ser desarmantes de tanta pureza!

Uma feliz semana

Fátima Pereira Stocker disse...

Quina

É notável a luta que o Manuel trava para vencer a má sina. Está a saber-me muito bem conhecê-lo por seu intermédio.

Beijos

Luis Eme disse...

grande Manuel!

abraço Elvira

esteban lob disse...

Digo en tu idioma una vez más, querida amiga, moito obrigado por tu enorme capacidad para hacer de la historia en forma sintetizada y ágil, escritos apasionantes.

Un beso.

Olinda Melo disse...

E eis que já perdi alguns episódios deste excelente relato, mas voltarei para os ler.

E a história de Manuel entrançada com a História mundial e as alterações socio-políticas, prenúncio do que virá, passados alguns anos: a liberdade.

Beijos

Olinda

abueloscrisytoño disse...

Hola Elvira, gracias por los ánimos. Quiero comunicarte con alegría que Antonio después de una semana de ingreso en el hospital con cierta gravedad, nos sorprende a todos con “una muy buena recuperación” y además estamos de suerte porque puede tomar una medicación nueva y personalizada por vía oral que le está ayudando mucho, es una quimioterapia menos agresiva dosificada diariamente, no se que resultados puede dar pero de momento Antonio responde bien. Yo no entiendo nada de oncológica pero la doctora le dijo a Antonio “vengo a alegrarme contigo y a felicitarte, porque las pruebas del laboratorio son positivas y por tanto podemos empezar el tratamiento”
Si la doctora estaba contenta, algo bueno puede pasar.
Un beso.
(Abuela Cris)

Fernanda disse...

E lá continua a saga do Manuel e da sua família que vai crescendo num país ainda amordaçado.

Parabéns, amiga Elvira por nos deixar este legado tão verídico quanto triste.

Abraço.

Lilá(s) disse...

Tempos difíceis,uma época mal conhecida por mim, mas também recordo ainda algumas pequenas histórias contados por meu pai. Esta assim relatada minuciosamente torna-se cada vez mais interessante!
Bjs

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Dois capítulos, pra mim, hoje, primeiro li este, para comentar, com a feliz notícia do nascimento do menino tão esperado...mas triste, pela saúde da mãe.
Vou lá, ler o XXV, esperando boas e interessantes novidades, no contexto geral.

Um beijo, elvira,
da Lúcia.

Zé do Cão disse...

Mais um capitulo de uma historia de vida, que Elvira sabe contar como boa narradora que é.

Parabéns, amiga. Só digo SUCESSO ...

abraço sincero