17.4.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XXVI




 O ano de 1952 começou com a descoberta da conspiração contra o regime, organizada por Henrique Galvão. Por essa altura o nosso Manuel apostou com o amigo Bernardino, que era capaz de fazer a correr os 3km que distavam da Seca à estação dos barcos no Barreiro em menos de 15 minutos. Se ganhasse o Bernardino dar-lhe-ia a sua senha para o açúcar, se perdesse ele ia sachar uma das leiras da quinta. O Manuel percorreu essa distância em 12 minutos, controlados pelo Aires que acompanhou a corrida numa bicicleta. Manuel ficou cansado, mas ganhou uma senha extra para o açúcar que lhe fazia falta para as crianças.
 No mês seguinte, os estudantes manifestam-se em Lisboa contra a NATO, invocando a Paz e o não às armas atómicas e ao fascismo.
 Esta acção acabaria com a expulsão da Universidade de 15 alunos das Belas Artes. Nesse mesmo mês Amílcar Cabral licenciava-se em agronomia e morre na Inglaterra o rei Jorge VI, e inicia-se o reinado de Isabel II.
 A Grécia e a Turquia aderem à NATO.
 Em Março acabou o racionamento do açúcar em Portugal, ao mesmo tempo que o seu preço baixava. Uma boa nova para o Manuel, já que se gastava bastante açúcar com as sopas de café, e até para misturar à banha de porco, com que se barrava o pão para as crianças.
 Simultaneamente acaba nesse mês a safra do Bacalhau. O Manuel tem assegurado o seu trabalho de lenhador, mas a mulher fica sem ganhar, até que voltem os navios, e este ano há mais uma pessoa a sustentar, Piedade a mãe que viera para cuidar dos pequenos.
 O chiqueiro continua vazio à espera do leitão que ainda não conseguiu comprar, e o terreno à volta sem cultivar por falta de água.
 Mas ele aprendeu a apanhar no rio Lambujinhas, e lingueirões, e nos seus tempos livres, sempre que a maré estava vazia, o Manuel arregaçava as calças quase até à virilha, pegava uma Lata de zinco, e lá se fazia ao lodo. Voltava todo sujo, mas quase sempre com comida para uma ou duas vezes.
 Em Maio os corticeiros de Matosinhos entram em greve. Em Pias, começam as greves rurais, que mobilizam milhares de trabalhadores agrícolas reivindicando aumentos salariais.
 A Assembleia Consultiva do Conselho da Europa adopta uma resolução apoiando a criação de uma comunidade europeia supranacional aberta, à qual poderiam aderir ou associar-se todos os membros do Conselho da Europa.
 Em Julho começam em Helsínquia os jogos olímpicos, e morre aquela que foi porventura a dirigente mais amada pelo seu povo. Eva Perón a quem o povo chamava com carinho Evita.
 Nas noites quentes de Verão o Manuel senta nas escadas de madeira, que dão acesso ao barracão, pega o filho ao colo, olha as estrelas e sonha. Sonha com um poço, que lhe permita cultivar o terreno à volta da casa, sonha com o porco no chiqueiro, sonha com uma bicicleta, e pouco mais. Manuel anda cansado e também muito preocupado. A mulher nunca mais foi a mesma desde o parto do filho mais novo. Enquanto acaricia o miúdo, ele engole as lágrimas de remorsos sentindo-se culpado. Se ele não quisesse tanto um filho… Se ela não tivesse ficado grávida logo de seguida ao parto da miúda…
 Se ele tivesse dinheiro para a levar a um bom médico…Se...Se... Se... A vida do Manuel era uma sequência de ses…
 No final de Setembro chegou o Gazela, e poucos dias depois, o Argus, o Crioula, e por fim o Hortense. A Seca encheu-se de trabalhadores e a vida ganhou outro colorido para quem esperava esta época, com um misto de desespero e esperança, como o condenado que espera o perdão.
 Em Novembro é decretado o ensino primário obrigatório, e Jaime Cortesão regressa do exílio.
 Em Dezembro, Henrique Galvão e os demais envolvidos na conspiração de Janeiro são condenados a penas de dois a três anos de cadeia. No Barracão, Piedade tem um ameaço de trombose, e Gravelina está tão magra e mal encarada que o pessoal da Seca já murmura que ela está tuberculosa. A vida do Manuel está cada dia mais difícil.



Provavelmente esta história já não regressará esta semana. Começou ontem ae estende-se até ao dia 23 a semana do 
BOOKCROSSING BLOGUEIRO a que aderi. Ainda não decidi o livro e o sítio onde o vou largar, mas no dia em que o fizer tenho que fazer uma postagem sobre o assunto.


TENHAM UM BOM DIA




31 comentários:

Mariazita disse...

Bom dia, Elvira
Que tempos tão difíceis se viveram!
Nessas circunstâncias se revelava a enorme força interior de algumas pessoas, como foi o caso de Manuel (seu Pai).
A cena da corrida em 12 minutos fez-me lembrar que o meu sogro contava que ia ao café, bebia o café (propriamente dito) mas sem o açúcar, o qual trazia para casa para ajudar a adoçar o leite dos filhos (meu marido e meus cunhados) na altura ainda crianças.
Fizeram-se muitos sacrifícios, mas hoje também há muitas pessoas, infelizmente, que têm que os fazer...

Semana feliz. Um abraço

Teté disse...

Também gostei deste conto (?), embora tenha a sensação de ter entrado a meio da história! Que já percebi que tem seguimento... :)

Beijocas!

edumanes disse...

Acontecimentos do passado, ainda hoje, bem presentes em algumas pessoas que sofreram as amargas repressões do Estado Novo, impostas pelo governo de Salazar.
Desse tempo, também, tenho as algumas recordações que prefiro delas não falar.
Só de pensar que os políticos, actualmente, no governo para lá querem caminhar...Penso será que o vão conseguir e o povo nada fazer para o evitar?

Desejo um bom dia para você,
um abraço
Eduardo.

Mariangela disse...

Cada época com suas dificuldades e sacrifícios!
Como o sacrifício de Manuel para defender o alimento de seus filhos.
Muito bela a sua história que foi um tanto sofrida, mas que dela tirou muitos aprendizados e exemplos!
Um abraço de bom dia cheio de bençãos!
Mariangela

Celina disse...

BOM DIA ELVIRA, QUE TEPOS DIFICEIS QUERIDA, VIM AGRADECER O SEU COMENTÁRIO O QUAL ME DEIXOU MUITO FELIZ DEUS TE ABENÇÕE E TE DE MUITA PAZ. ABRAÇOS CELINA

Mery disse...

Tempos difíceis demais!
Meu pai veio na época para o Brasil, pois um tio o chamou e nunca esqueceu da Terrinha, era do Porto. Ai que saudades!
Gostei , algo me chamou até aqui, para ler-te.
Lembranças...sim!
Beijinhos

São disse...

Amiga, se em vez das televisões nos massacrarem com programas de futebol horas horas, divulgassem textos como o seu e informassem o que foi a ditadura neste país, que é o nosso, talvez oa população não andasse tão passiva!

Um abraço apertado

Dulce disse...

Pois é, Elvira, são as terriveis dificuldades da vida que forjam os grandes homens... Assim foi se forjando Manuel, assim foram se forjando suas crianças, no exemplo do trabalho e da esperança apesar de tudo, sem perder os sonhos.

Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Há ainda quem pense que o Estado Novo foi um tempo de paz social - o seu conto vem lembrar-lhes que não.

Continua a comover-me com o triste fado do Manuel.

Beijos

Maria disse...

Querida Elvirinha:
Até que enfim, mais um pouco da história de Manuel e da família, história cheia de lutas e sacrifícios, mas também cheia de amor. Ainda por cima, conta, de forma sucinta, as partes mais marcantes de Portugal e do Mundo. Vou lendo, lembrando datas e factos, coisas que fizeram parte da minha vida.
A minha infância não foi tão atribulada, mas não havia luxos, nem grandes mordomias. Ainda me lembro de a minha mãe contar, que quando nasci, meses antes do fim da guerra, tinha mais uma senha de açúcar, por eu ser bebé.
Ai Elvirinha, as recordações, são uma grande mistura de saudade e tristeza. Continue a contar a sua história, a história do Manuel, grande homem. Estou a adorar.
Volte depressa sim?
Beijinho minha querida e corajosa amiga.
Maria

Andre Mansim disse...

Elvira minha amiga, como é legal essa sua estória, ela pode ser compilada num livro fácil, fácil!

Olha vou te indicar um livro que se parece muito com sua narrativa.
Se chama "O tempo e o Vento" do escritor Érico Verissimo, um dos mestres das letras no Brasil!

lis disse...

Oi Elvira
Estou acompanhando com atenção a saga desse tempo distante e que muitas ainda vivenciamos as agruras refletidas no nosso povo marginalizado.
Também quero participar da libertação do livro e ainda nao tenho noção de qual livro escolher, nem tenho porque estou longe da minha casa original,tenho ultimamente duas casas rs coisas lá coisas cá ... rs
um abraço grande Elvira, depois volto pra ver seu pos"t sobre o "book crossing blogueiro" .Sucesso!

Zé do Cão disse...

Recordo tudo e sigo-as a par e passo. Parece um sonho, mas foi a realidade.
Confessa, ainda hoje gostas das lambujinhas? Eu também.
Pois há muita gente que não conhece tal bicho de casaca cinzenta. Certa vez em Braga elas apareceram no Carrefour, e os clientes intrigados compravam 6 para experimentar. Não sei qual a sua origem, mas eram enormes. Depois foram-se, como o Carrefour...
O Crioula, ás vezes também ia despejar na minha Baía e renascia o movimento da seca.
Adorei...

Abraço

Luís Coelho disse...

A vida continuava difícil nesse tempo como agora também.Dificil comentar estas vidas que enfentam tudo como um destino que Deus lhes deu...

ana costa disse...

Amargura, dor e sofrimento, é assim que eu, apesar da minha pouca idade, me lembro de ver no rosto das pessoas...
É um tempo que eu pensei que só iriamos recordar quando estudá-se-mos a história do nosso povo...
Infelizmente parece que não está longe esse terror novamente
Beijo amiga

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Lindamente escrita, apelativa para quem gosta de recordar, informar-se sobre tempo idos,esta saga tem ainda outra virtude: a de sobre eles estabelecer comparações entre modos de vida; e que enorme diferença...!

A mim, trouxe-me à memória quando ia com o meu pai apanhar as tais lambujinhas, enterradas na lama do rio Mondego, à mão ou com uma sachola, e a que na altura chamávamos ameijoas - que feitas de ensopado, serviam de refeição ...

Até à próxima, com um abraço amigo.

Vitor

BlueShell disse...

"A vida do Manuel era uma sequência de ses…"...sim, mas ele sempre deitava a mão a qualquer trabalho...sempre, nunca baixou os braços apesar do cansaço e da dor...

Tão comovente, Elvira.
Obrigada.
Um beijo
BShell

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Eram tempos muito difíceis aqueles e que sonhos simples tinha o Manuel, Elvira! Hoje sonha-se mais alto e por isso o tombo é sempre muito maior. Não sei...mas parece-me que crises e problemas financeiros sempre os houve, mas a maneira como se enfrentam é que é muito diferente. O Povo naqueles tempos, e eu, incluida, não estava habituado a ter tanto e por isso suportava melhor as dificuldades. Cá fico à espera de mais um capítulo, amiga! Um beijinho e obrigada pelas lições de história que aqui nos deixas. A minha já está um pouco esquecida e é bom recordar.
Emília

Olinda Melo disse...

Minha amiga

Esta saga está vez mais interessante, especialmente por se tratar de um relato real, com a luta de um homem que não foge às dificuldades, antes as encara procurando ultrapassá-las.
A par e passo uma panorâmica preciosa sobre a História mundial que hoje nos trouxe com todos factos relevantes, desde Henrique Galvão, passando Amílcar Cabral, Evita Péron...
E Manuel a multiplicar-se e a procurar alternativas.

Abraço

Olinda

Mar Arável disse...

Boa partilha

Na verdade não existem amanhãs sem memórias

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Elvira, visitar seu blog é sempre prazeroso pra gente, sobretudo pela pura cultura que se lhe vê. Parabéns!

O Guardião disse...

Com muitos ses e muitas dificuldades na vida do Manuel, como na vida de todos os que não foram bafejados pela sorte.
Já não me lembrava do substituto da manteiga do passado, que afinal conheci na casa de parentes quando era criança.
Cumps

Lilá(s) disse...

Que difíceis eram esses tempos! tão simples os sonhos que o Manel tinha! Cá fico à espera de mais um capítulo...
Bjs

Luis Eme disse...

grande Manuel!

abraço Elvira

Duarte disse...

Narrações empolgantes as que aqui nos trazes.
A historia é cíclica e este magnifico documento do Manuel é prova disso: sim, voltamos aos se... se... se...
São homens assim os que fizeram que chegássemos onde estivemos e outros, bem diferentes, os que nos trouxeram onde estamos.
As minhas felicitações por um relato tão vivo como o que hoje nos trazes. Homens de antes quebrar que torcer...
Um grande abraço

Kim disse...

Amiguita Elvira!
Parabéns por estas crónicas. Além de estarem bem desenvolvidas, tocam no essencial sem serem cansativas. Leio-as com muito gosto.
Um beijinho para ti

Isamar disse...

Uma vida difícil, muito difícil, mas o Manuel não cruza os braços, não desanima. E alimenta sonhos, naturais como chefe de família: o porco, o poço, a agricultura, a bicicleta...e vai conseguir. Homem de rija têmpera, pai e marido abnegado conseguirá criar os filhos. Gostei muito Elvira! Continua a relatar a vida deste Manuel, de valores e convicções, que muito prazer nos dás.
Força, amiga!

Bem-hajas!

Beijinhos

AFRICA EM POESIA disse...

hoje vim deixar um beijinho e poesia

Adoro passar aqui e ler o que deixas...




Tocando ao piano em parceria
Sinto o piano, cansado da vida
Piano velho, num canto da sala
Piano que chora, quando lhe tocamos...

Porque o som das suas teclas
Brancas e pretas bem definidas
Sentem os anos e sentem a dor
Quando tocamos e nos delíciamos...

E este piano que pode ser
Piano de cauda ou piano vertical
E mesmo cansado nos deixa tocar
E deixa fechar os olhos e escutar...

E com muito carinho afagamos
As suas oitenta e oito teclas
Teclas de dó, ré, mi, fá, sol, lá, si...
Teclas de uma vida, cheia de luz...

E os nossos dedos percorram as teclas
Brancas e pretas, pretas e brancas
E assim em parceria tocamos
E deixamos o nosso sonho voltar!...


LILI LARANJO

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Eu lá, com a saga dos meus e você aqui, com essa saga extraordinária. Que gente admirável, ao superar tantos obstáculos, para a sobrevivência.

Chamou-me a atenção, a bela Evita a ilustrar o inicio do post. Claro que esperei que ela seria citada.
Imagino que a "sopa de café" seja pão atolado no café, como eu fazia, em criança e adorava. Seria?.

Volto, para seguir essa formidável narração.
Beijos,
da Lúcia

lagartinha disse...

Vieram-me as lágrimas aos olhos.
A vida era mesmo muito difícil para certas pessoas...mas, o que melhorou? É isso que me assusta!
Um beijo muito grande

Nilson Barcelli disse...

Que vida...
E era idêntica por todo o país.
Mas parece que há quem nos queira fazer regredir para esses tempos...
Beijo, querida amiga.