12.4.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XXV



Aquele Inverno foi muito difícil para o Manuel. A mulher continuava débil e sem forças, as três crianças pequenas a necessitar de cuidados, a casa sem comida e o bolso sem dinheiro.
O Bernardino, amigo de há muito e caseiro de uma das quintas da Seca, levava alguns legumes . As galinhas que ele fora criando, foram aos poucos desaparecendo para completar as refeições. A mulher não tinha forças para ir lavar as roupas ao tanque na quinta. E a toda a hora era preciso lavar fraldas.  De uma barrica que já não era usada na Seca, Manuel fizera uma celha para ela lavar a roupa em casa. Fora só serrá-la ao meio e betumar as frinchas para não perder a água. Mas então… e a água? Como encher a celha, indo buscar a água longe e com uma bilha de cada vez? Aí o ti’Abel deu uma ajuda, levando-lhe todos os dias na carroça, um barril cheio de água.
Manuel nem soube que Eisenhower visitou Lisboa em Janeiro, nem que Portugal beneficiou do Plano Marshall na compra de cereais, e em obras de irrigação.
Nem que em Fevereiro o Avante, catalogava Mário Soares, Piteira Santos, Borges de Macedo, e Ramos da Costa como oportunistas. Muito menos que em Paris, tinham começado as negociações para a instituição da Comunidade Europeia de defesa entre a Bélgica, França, Itália, Luxemburgo, e RFA.  
O seu mundo e a sua vida estava confinada ao barracão, à mulher e aos três filhos.
                   Ao mesmo tempo continuava com a sua ideia de trabalhar o terreno à volta do barracão, que já tinha limpo dos silvados e chorões que o cobriam. Mas a falta de água doce para a rega, mantinha-os ainda, sem nada semeado.
Em Março com o final do trabalho na Seca do Bacalhau, deixa de fazer os serões e se por um lado tem mais tempo livre, por outro o dinheiro minga ainda mais no seu bolso.
Felizmente o ti’Luís Estaca, dono da mercearia na Telha onde Manuel vai buscar o”avio” para a casa, sempre lhe facilita os bens essenciais tenha ou não dinheiro para pagar. Ele tem pena da vida daquele homem, e ao mesmo tempo confia em que ele lhe pagará logo que tenha dinheiro. E tem razão, porque o Manuel a cada final de semana, mal recebe vai pagar o que deve, mesmo que fique sem nada para a próxima semana.
Em Abril, dois dias antes do seu aniversário, morre Carmona. Santos Costa defende a candidatura de Salazar, enquanto Mário de Figueiredo propõe a restauração da monarquia, com a oposição de Marcelo Caetano.
No início de Maio, é assassinado o dirigente comunista Manuel Domingues. O mês de Junho começa com a União Nacional, a lançar a candidatura de Craveiro Lopes para presidente da república.
Na Europa ocorrem as primeiras execuções de oficiais nazistas, condenados pelo tribunal de Nuremberg.
No barracão a mulher do Manuel parece ter perdido a saúde e a alegria. O filho faz o seu primeiro ano no dia em que a menina faz dois anos. Manuel fez um chiqueiro, e sonha comprar um leitãozinho para criar, e ter carne durante o Inverno.
Julho decorre com grande efervescência política, terminando com Craveiro Lopes  a ganhar as eleições depois da desistência de Quintão Meireles. Com o bom tempo de Verão, a mulher do Manuel parece ter melhorado bastante, e assim quando os navios chegam com o bacalhau, a mulher do Manuel está pronta para trabalhar e ajudar nas despesas. Ele também pode agora ganhar um pouco mais aproveitando os serões. Porém enfrentam outro problema. Que fazer com  três crianças em que a mais velha ainda ia fazer quatro anos? São muito pequenas para ficarem sozinhas. Ainda mais num barracão junto ao rio. Sabe-se lá o que podia acontecer. O Manuel resolveu então pedir à mãe para vir viver com eles. O barracão era grande, tinha quartos vagos, e assim ela podia tomar conta dos netos. Por outro lado ela já não tinha idade nem forças para trabalhar no campo.
E foi assim que quando a safra começou já Piedade, estava lá para tomar conta dos três miúdos.

Esta saga, só volta dia 17, já que dia 15 estarei participando da 2ª parte da BLOGAGEM COLECTIVA. 

Tenham um bom fim de semana

28 comentários:

Mariangela disse...

Boa noite Elvira!
Gosto muito de ler suas histórias e continuarei aguardando a próxima!

Um beijo!
Mariangela

Sonhadora disse...

Minha querida

passando para ler a continuação desta história muito bem escrita.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Leninha disse...

Amiga Elvira,

A cada dia mais aprecio as tuas histórias e mais ansiosa aguardo a continuação.
Eu estava no Rio em 1957,quando Craveiro Lopes veio visitar o Brasil...fui me hospedar no Hotel Guanabara,na Av.Pres.Vargas,para ver o desfile,do qual o mesmo participou.
Como vê,despertas recordações...mais tarde as acrescentarei às memórias.
Bjssssss,
Leninha

MARILENE disse...

A trajetória de Manuel e as ocorrências políticas são muito bem descritas por você.
As avós sempre representaram importante papel na vida dos casais com filhos pequenos, em determinadas situações vividas.

Bjs.

Olinda Melo disse...

Um trabalho de grande fôlego,querida Elvira. Um trabalho de História comparada enquadrada pelo dia-a-dia de Manuel e sua família, na luta pela vida, enquanto o mundo vai sofrendo as transformações que darão lugar a outros tempos.

Parabéns.

Bjs

Olinda

Celina disse...

AMIGA ELVIRA ,TE CONHECÍ NO BLOG DA AMAPOLA, GOSTEI MUITO DA TUA HISTÓRIA, E O QUE É BOM É PARA SER LIDO E ADMIRADO, POR ISSO DE HOJE EM DIANTE VOU ACOMPANHAR O TEU BLOG. FELICIDADES PARA TÍ E UM ABRAÇO FRATERNO. CELINA.

AC disse...

Elvira,
A capacidade de luta do Manuel e família são exemplo a preservar. Sempre.

Beijo :)

edumanes disse...

A casa sem comida
Era assim naquele tempo
Lavava a roupa na barrica
Dinheiro também não tendo!

A miséria instalada
Pouco a pouco melhorando
Que pode voltar daqui a nada
Para lá estamos caminhando!

Mas antes de caminhar
Boa noite estão desejando
Melhor que me esteja a enganar
Para o evitar melhor ir lutando!

Para você amiga Elvira,
um abraço, e uma feliz, bons sonhos!

Graça Pereira disse...

Aqui, eu recordo a história do mundo, ao mesmo tempo que tenho noção das dificuldades de vida no nosso país naquela época... Acho que é um trabalho de grande envergadura!.
Parabéns e bom fds.
Beijo
Graça

Paulo Cesar PC disse...

Minha doce e querida Elvira, certamente a leitura dessa narrativa é um ingrediente a mais nas gotas de emoções que nos preenche a alma. Um beijo no seu coração.

Andre Mansim disse...

Olá Elvira!
Que estória essa hein!
São fatos acontecidos ou são imaginação?
Puxa... Essa época da guerra deve ter sido muito difícil aí em Portugal!
Eu conheço muitos europeus que vieram pra cá nessa época e ninguém tem saudade desse tempo!

Parabens pela postagem!

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

E com a solidariedade que naquele tempo se notava mais que hoje lá vai Manuel conseguindo dar de comer aos filhos. Vivi de perto dificuldades desse tipo, pois vivi numa aldeia onde havia sempre muitos filhos para se criar, mas onde havia sempre a hortinha e a criação para que não faltasse o mínimo. Agora, poucos se preocupam com as hortas e em vez delas as casas têm jardim. Com esta crise já muitos estão a voltar a essa ideia. Voltarei para continuar a ler a vida do Manuel. Belo trabalho, Elvira! Obrigada! Um beijinho e até breve
Emília

São disse...

Que vidas duras...e temo que estejam de regresso!

Bom final de semana

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Essas sagas, são tristes mas ao mesmo tempo nos alegra conhecer pessoas de forte caráter, pessoas solidárias, lutadoras. Ainda bem que a mulher de Manuel melhorou a saúde.
É muito interessante recordar os personagens políticos, dentro da História da época.

Continuo a acompanhar essa extraordinária saga...

Bom final de semana,elvira.
Beijos

Kim disse...

Elvira!
OK amiguita. Vou ficar na expectativa do seguimento desta grande aventura.
Só quem por ela passou, lhe sabe dar valor.
Um grande beijinho para ti!

edumanes disse...

Neste dia primaveril
Hoje é o dia mundial do beijo
Sexta-feira dia 13 de Abril
Que seja real o seu desejo
Como as flores no campo ou no jardim a florir!

Eduardo.

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Neste capítulo o mundo parece ter entrado em passo acelerado: aquele grande de que o Manel pouco dá conta, e o seu bem pequenino à sua volta, atulhado em problemas - que é no final o mundo que para ele conta.
Percurso empolgante o desta família, lindamente contado - e um prazer de leitura. Parabéns!

Bom fim de semana, e um abraço amigo

Vitor

poetaeusou . . . disse...

*
Elvira,
lembras-me, uma bisavó,
sem manuéis . . . com “tonhos”,
não vás ao mar “tonho”
o mar está ruim,
se vais ao mar “tonho”
fico sem ti,
imaginário, Nazareno !
Querida amiga,
talvez por lapso, ignorância, não,
Portugal foi único País Europeu,
que não aceitou o Plano Marshall.
o botas, assim decidiu, falhas que a nós acontecem, nós povo, nós Sebastião, o desejado e eu sou povo, não monárquico, companheira destas estradas, não duvides, do estatuto destes senhores,que tu
referes, quem tuta, estatuta,
avant et après ? C'est la même chose ? óh meu amigo bonacheirão,
só-áres, porém, sempre fixe,
aqui, agora e sempre, digo eu,
a “cena delgadista” é que nunca percebi, nessa altura e agora.
Como ? as brasileiras já tinham influência ? os brasileiros sim ! olha, sarava, meu irmão, aqui tão perto, aqui tão cela, aqui um porto, aqui . . . sem peixe !!!
ai tonho, tonho,
tão mal estimado és,
ai tonho, tonho,nem umas meias,
tens para os pés . . .
soares é fixe, (escrevo eu) e será sempre !
conchinhas de compreensão,
para nós todos , ficam !
*

lis disse...

oi Elvira
Voltando pra tentar pôr em ordem as leituras dos blogs queridos.
Suas histórias são muito boas , eu amo vir ler e entender mais um pouquinho da vida portuguesa.
Depois pego o ritmo ok?
beijinhos da semana

Zé do Cão disse...

A vida era dura e de que maneira.
Só quem passou por isto, sabe contar e cada linha escrita é uma ferida que abriu e sente no seu espírito a dor que ela causa.
Diz a São, que teme que ela volte. Infelizmente já voltou, só que nesta época já nem o fiel é nosso Amigo e a seca desapareceu.

Minha Amiga, o meu abraço

AnaMar (pseudónimo) disse...

A ler e a aguardar continuação, comento nesta ultima.
Histórias de vida, de homens e mulheres que nos fazem lembrar tempos que não devem voltar.

LopesCa disse...

Bom fim de semana

Enigmático Byjotan disse...

Um pouco de história,história cativante que nos encanta.Obrigado por compartilhar.Beijo grande de leitor.:-BYJOTAN.

Nilson Barcelli disse...

Que vida, a do Manuel e da sua família.
Continuo a acompanhar a tua história, tão bem contada.
Elvira, querida amiga, tem um bom fim de semana.
Beijos.

Fragmentos de Ser... disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Reflexo d'Alma disse...

OLa,
Aproveitando que é leitora do silvioafonso http://palhacopoeta.blogspot.com.br/
como eu,
vim provoca-la a saber
se não gostaria de
adquirir um livro dele,
sugiro o Livro do Blog Prosa Inversa(textos do blog)
ou o Brisa e Furacão( romance quente).
Pergunte a ele ou a mim como pode adquirir,
eu li e adorei os 3 livros dele.
Bjins entre sonhos e delírios

Luis Eme disse...

mais uma série de acontecimentos importantes.

abraço Elvira

Maria disse...

Minha querida:
Sinto-me embalada com as suas histórias. Como o Kim diz, lá atrás, só quem viveu este tempo, pode entender.
Gosto dos pormenores. A história da barrica transformada em celha, é comovente.
Admiro a sua frontalidade.
Beijinhos, amiga.
Maria