12.4.15

MARIA PAULA - PARTE XV


                Aeroporto de Lisboa  em 75. Foto da net


Era o último dia de trabalho de Paulo, já com viagem marcada para o dia seguinte quando se deu o ataque ao Hospital de S. Paulo. Quando este terminou, ao som das armas sucederam-se o som dos gritos das pessoas, em pânico, desejando sair do hospital o mais rápido possível, tropeçando nos cadáveres, espalhados pelas alas mais atacadas.
Foi necessário acalmar estas pessoas e ao mesmo tempo socorrer os feridos. Mais tarde pela calada da noite, levar-se-iam pelas traseiras para o Hospital Maria Pia, todos os feridos graves.
Já passava da meia-noite, quando Paulo chegou a casa, completamente exausto, e embora tivesse a viagem no avião marcada para as oito da manhã, não conseguiu dormir, a mente desperta pelo horror vivido nesse dia.
Pela manhã conseguiram embarcar, com a roupa do corpo, e uma pequena mala, com algumas peças de roupa, o seu estojo de médico e um livro de medicina, cada um. Foi tudo o que eles conseguiram trazer, de tudo o que tinham juntado em toda a vida.
Aqueles que resolveram vir para Lisboa, logo após o 25 de Abril, ainda tinham conseguido mandar parte dos seus haveres por barco.
Paulo nunca tinha pensado abandonar Angola. Era a sua terra, aquela onde pela primeira vez vira a luz do dia, onde crescera e aprendera a amar, onde seus filhos nasceram, e onde repousavam os restos mortais de seus pais. A terra que ele julgava amar acima de tudo. E digo, julgava, porque quando a luta pela sobrevivência se torna presente, ela impõe-se a tudo o resto, até mesmo ao amor pela terra que nos viu nascer.
Ao desembarcarem na Portela, foram surpreendidos por um cenário dantesco. Quase todo o edifício estava lotado de pessoas que como eles tinham fugido de Angola e não tinham para onde ir, nem a quem se dirigir. Na altura chegavam a Lisboa em ponte aérea mais de 500 pessoas por dia. Viviam e dormiam no aeroporto, amontoados no chão, cobertos pelo desespero.
Felizmente para Paulo e Luena, o filho, viera busca-los ao aeroporto, eles tinham lugar para os pais, na pequena casa alugada em Coimbra, pelo que não tiveram de passar por mais uma provação, embora muitas estivessem ainda para vir. 




Uma boa semana para todos.

20 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Não há determinismo histórico... mas o colonialismo estava (está) condenado... Se foi doloroso? É sempre dolorosa uma ruptura...

Majo disse...

~
~ ~ ~ Querida Elvira, fiquei comovida. ~ ~ ~

~ ~ Uma semana primaveril muito agradável. ~ ~

~~~~Abraço amigo.~~~~~~~~~~~~~~~~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Edumanes disse...

O que você amiga Elvira, escreveu não é uma história inventa. Passou-se na realidade. A imagem é testemunha disso mesmo,era assim que muitas pessoas passaram dias e noites nos aeroportos de Luanda e Nova Lisboa, em Angola, esperando, desesperadamente, pela sua vez de embarque com destino a Lisboa-Portugal. Na noite do dia 13/14 de Setembro do ano de 1975, deitadas no chão como se vê na imagem ficaram no aeroporto de Nova Lisboa-Angola, quando eu e a minha família, embarcamos no voo 32 do Quadro Geral de Adidos, com destino a Lisboa, por volta da meia noite!

Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
SEM NADA, MAS VIVOS E PERTO DOS FILHOS, POR MAIS QUE VENHAM SOFRIMENTOS E DEVEM VIR, ESTÃO JUNTOS.
BOM DEMAIS AMIGA.
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Pedro Coimbra disse...

Tão recente e, ao mesmo tempo, a parecer tão longínquo.
Boa semana

António Querido disse...

Foram tempos conturbados duma geração que fugia duma guerra que nunca deveria ter início, não fora a teimosia duma ditadura e a independência amigável teria dado resultados menos catastróficos!

Hoje em dia internacional do beijo, permita-me que substitua o meu habitual abraço por um beijo de amizade.

✿ chica disse...

Tristes tempos tão bem escritos e contados aqui! Linda semana,bjs, chica

Laura Santos disse...

Tempos muito difíceis para toda a gente, e como deve ser difícil ter de abandonar o país onde se nasceu, em circunstâncias destas, tendo de deixar tudo para trás.
Veremos o que mais acontecerá em Coimbra...
Muito bem contado, Elvira.
xx

vendedor de ilusão disse...

Ratifico o que disse: que história incrível. Posso imaginar o sofrimento das pessoas convivendo com uma situação dessas.
Abraço.

vendedor de ilusão disse...

Ratifico o que disse: que história incrível. Posso imaginar o sofrimento das pessoas convivendo com uma situação dessas.
Abraço.

Bell disse...

Tudo é marcado com muitas dificuldades, o segredo da vida é transpor a isso.

bjokas =)

Fátima Pereira Stocker disse...

Cara Elvira

Foi grande o drama de cada uma dessas famílias. Contudo, poucos anos depois, já toda a gente estava integrada, o que, em termos históricos, foi uma realização notável. É um dos grandes motivos de orgulho da nossa revolução de Abril.

É sempre um prazer lê-la.
Uma boa semana.

paideleo disse...

Grazas a estes relatos coñezo algo da historia recente de Portugal e as súas colonias.

Mariangela do Lago Vieira disse...

Sofreram muito...mas graças à Deus estão juntos dos filhos, isto que vale!
Que bela história Elvira!
Beijos e boa semana,
Mariangela

Fernando Santos (Chana) disse...

Belo post...Espectacular....
Cumprimentos

Lilly Silva disse...

Mais uma bela postagem!
Meus cumprimentos por todos!
Beijos e beijos

http://simplesmentelilly.blogspot.com.br/

Evanir disse...

O tempo passa só não passa o carinho que
sinto por você.
Fico triste por minha ausência nesse mundo
onde fiz as mais belas amizades.
Estou passando para deixar um carinho
coisa , q sempre fiz a mais de dez anos.
De repente terei ainda oportunidades
de um retorno triunfal de feliz.
Hoje estou aqui para desejar
uma abençoada semana.
Muita paz saúde e alegria em seu viver.
Beijos no seu doce coração.
Evanir .

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!
Uma nova fase na vida dessa família se inicia apesar de todo o amor dedicado à pátria, quando essa não nos tem amor, melhor abandoná-la e procurar por outro amor!
Boa semana!
Beijus,

lua singular disse...

Oi Evira,

Sofrimentos abala o mundo inteiro, é a ganância de alguns homens que pensam que são eternos.
Beijo

Rosemildo Sales Furtado disse...

Sofrimento mais sofrimento, fruto da ambição do homem que ainda não se conscientizou que somos todos irmãos.

Abraços,

Furtado.