10.4.15

MARIA PAULA - PARTE XIV

Imagem daqui


Não foi fácil para Maria Paula habituar-se a Coimbra. A jovem tinha uma mentalidade, e uma noção de liberdade muito diferente das jovens que o irmão lhe apresentou. Depois, ela era uma jovem demasiado bonita, e isso despertou sentimentos diferentes nos jovens que conheceu. Enquanto os rapazes se sentiam atraídos pela sua beleza e simpatia, adejando à sua volta como abelhas à roda de uma flor, as raparigas sentiam inveja e zanga por se sentirem preteridas, sempre que a jovem se fazia presente. 
Em Luanda as coisas iam de mal a pior, os pais não conseguem mais mandar dinheiro, proibidas que foram as transferências, e em Coimbra os dois irmãos têm que prover ao seu próprio sustento. Por esse motivo, Pedro, abandonou a Universidade e arranjou emprego no escritório de um advogado. Maria Paula não tardou a empregar-se no balcão de uma padaria. A preocupação dos jovens, eram os pais que não desistiam da cidade, talvez por causa da avó.
Zaila, dizia que era demasiado velha para viajar para outro país. Aquela era a sua terra, ali nascera, se fizera mulher, casara, fora mãe e enviuvara. Ali havia de morrer um dia. Mas quando os três movimentos que tinham lutado contra o colonialismo, começam a lutar entre si pelo controlo de Angola, e em particular por Luanda a situação torna-se insustentável. A independência só seria decretada a 11 de Novembro de 1975, mas a partir do final de Março, o clima na cidade já era de guerra civil. Por essa altura quando uma pessoa saía de casa, nunca sabia se voltava. Dias havia que era quase um milagre sobreviver mesmo em casa, com os constantes ataques de granadas, roquetes e g3.
Por esses dias o coração cansado da velha Zaila, parou enquanto dormia. De manhã, quando a filha deu por isso, nada havia a fazer.
Então Paulo decidiu que era altura de sair de Angola. Mas antes de conseguir partir para Lisboa, ainda sofreu o desgosto de ver o Hospital de S. Paulo, seu local de trabalho e sua segunda casa, ser atacado, e ver morrer alguns dos seus colaboradores. Na verdade o hospital era cobiçado pelos três movimentos, que desejavam fazer dele o seu quartel-general. Apesar de se manter uma força militar portuguesa, em defesa do hospital, ela nada podia fazer contra a avalanche de roquetes lançados contra o hospital num curto e mortífero ataque que durou menos de um minuto.

Bom fim de semana


22 comentários:

✿ chica disse...

Hoje tive um tempinho aqui com o filhão e vim colocar em dia as leituras. Como sempre, gostei muito@! bjs, lindo fds! chica

Edumanes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
AC disse...

Elvira,
Parece-me que, para lá do enredo que muito bem cria, é bom exorcizar certas memórias.

Um beijinho :)

Edumanes disse...

Maria Paula e o irmão em Coimbra, os pais em Luanda, cuja a situação de dia para dia aumentava a insegurança das pessoas que se encontravam barradas no meio de tanta confusão, gerada por uma exemplar descolonização de acordo com as ideologias do «Marocas». Para os retornados no meu caso, não foi difícil, ter regressado de onde tinha partido um dia para aquela terra que diziam "Enquanto houver portugueses, Angola será sempre Portugal"? O pior foi para aqueles que nasceram lá e forçosamente, tiveram que abandonar a sua terra. A esses eu chamo de refugiados e não retornados.
Tenha uma boa noite e um bom fim de semana, numa primavera friorenta, um abraço amiga Elvira.
Eduardo.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Lendo esse capítulo, onde você registra o ano de 1975, lembro-me que foi exatamente quando meu marido "fugiu" de Angola, apenas com uma mala ( a segunda foi retida no aeroporto) indo para Lisboa. No contexto da história de Maria Paulo, eu o vejo, nessa situação que você relata. Ele só viria para o Brasil em 1977.
Sigo acompanhando esse seu excelente trabalho de memória romanceada, Elvira. Parabéns!
Bom final de semana. Abraço!

Laura Santos disse...

Uma família dividida entre Coimbra e Angola. E o caos ainda instalado.
xx

MARILENE disse...

Ainda não conseguiram paz. Época difícil, onde tudo parece conspirar contra. As perdas são sofridas. Bjs.

lua singular disse...

Oi elvira
Uma sequências de fatos tristes.
Agora me diga Paula não era você?
Beijos

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Bom dia
São tão reais estas descrições.
Não quero voltar no tempo e sentir a fome e a dor.
Não quero voltar a sentir a incapacidade de fazer parar as granadas e as bombas...

Olinda Melo disse...


Um texto que faz muitos voltar no tempo e recordar as situações difíceis por que passaram.

Sigo atentamente este seu relato, cara Elvira.

Bom fim de semana.

Bj

Olinda

Ana S. disse...

A adaptação a um novo lugar nunca é fácil. São novas pessoas, novas atitudes e mentalidades. Ah e a inveja anda por todo o lado.
Bom fim-de-semana.

Majo disse...

~
~ ~ Dias nublados de angustiantes...


~ Agradável e carinhoso fim de semana.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Rogerio G. V. Pereira disse...

Pedaços da memória...
Olhar para trás, ajuda a perceber...

António Querido disse...

Estes contos não estão no livro (MEMÓRIAS DOS DIAS SEM FIM)? Estou a lê-lo, vou a meio, mas esta história ainda não encontrei, conheço os locais focados nesta história porque lá estive pessoalmente em 63/64,na Base Naval (Ilha do Cabo)! Fazia serviço no Comando Naval e divertia-me nos bailes da Terra Nova, numa associação dos portugueses! Agora vou esperar para saber se Maria Paula continuou os estudos e se vinha ao meu talho quando vinha à praia da Figueira! Bom fim de semana.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Olá Elvira! É uma pena que somente a partir do XIV capítulo tomei conhecimento deste belo conto. Com certeza, com mais um pouco de tempo, irei ler toda a história/estória.

Beijos e um ótimo final de semana para ti e para os teus.

Furtado.

aluap Al disse...

Boa noite Elvira.
Estive ausente, mas para melhor entender fui ler a postagem em que a Maria Paula e Diogo terminaram o namoro e chegou ao aeroporto para ir com o irmão até Coimbra.
Agora a família está dividida. Conheço casos, dentro da minha família, que tiveram de regressar à terra natal, mas felizmente a família veio toda.
Bjo e resto de bom sábado.

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!
Você escreve com tal riqueza de detalhes que não tem como não se comover com a situação instalada em Angola. Penso que a África nunca se libertou realmente...
Bom Domingo!
Beijus,

António Querido disse...

Os meus parabéns pela sua capacidade de imaginação D.Elvira, eu estava mesmo convencido que se tratava duma história escrita em qualquer livro, história, conto, novela, seja o que for que lhe queiram chamar, desperta a atenção do leitor, o que a Senhora escreve já é duma profissional, agora é que não vou deixar mesmo de seguir a sua "Sexta feira", todos esses locais eu conheço muito bem, mas não encontrei nenhuma Elvira Carvalho porque saí de lá em finais de 64, encontrei sim em São Paulo uma Dulce que ainda hoje anda a bailar na minha cabeça. Com o meu abraço

José Lopes disse...

Muitos foram os dramas dessa época, que a História ainda não conseguiu caracterizar, tantos foram os erros e omissões que se tenta esconder...
Cumps

lua singular disse...

Oi Elvira,
Passando agora, meio tarde para lhe desejar uma boa tarde.
Beijos

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
UM CAOS QUE ATINGE A TODOS, NÃO TEM LADO, TODOS SOFREM.
BOM DEMAIS TEU CONTO.
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Rosemildo Sales Furtado disse...

Já li desde o começo até aqui, e vou seguir em frente. Rsrs.

Abraços.

Furtado.