16.4.15

MARIA PAULA - PARTE XVI



                       Coimbra anos 70 -  foto da net 


Poucos dias depois da chegada a Coimbra, e de rever alguns amigos, antigos colegas da Universidade, Paulo já estava ciente de algumas coisas. Primeiro, a história de que todos os cidadãos nascidos em solo português, são portugueses, não passava de uma frase bonita sem correspondência na prática.
Segundo o governo português, não estava minimamente preparado, nem acautelado com o que efectivamente podia acontecer com uma descolonização feita às pressas, nem para fazer face às necessidades das centenas de pessoas que todos os dias chegavam a Lisboa, fugidos da guerra que se instalara em Angola.
Terceiro, talvez porque a imprensa na Metrópole, não noticiava um décimo do que realmente se passava em Angola, em Portugal, a população desenvolvera uma estranha aversão a quem chegava. Chamavam-lhes “os retornados”, e eram vistos como intrusos, que tinham estado em África a explorar os negros, e vinham para cá para lhes roubarem os empregos. Nada mais errado. A maioria dos que chegavam, eram simples trabalhadores, que nunca tinham tido um negro a seu serviço. Muitos eram já, segunda ou terceira geração, nascida em Angola, e nunca tinham posto os pés na Metrópole.
A vida apresentava-se para estes expatriados, muito difícil. Os que tinham familiares em Portugal, procuravam o apoio deles. Os outros tinham que esperar uma solução do IARN, organismo recém-criado pelo estado, para acolher e dar assistência a todos os refugiados. E as soluções quase nunca ocorriam com a celeridade que se desejava, e necessitava.
Um mês depois de ter chegado a Coimbra, Paulo integra a equipa do Hospital da Universidade de Coimbra, e a família pode respirar um pouco mais tranquila. Luena, continua sem trabalho, e o ordenado dos filhos, era até aí, escasso para todas as despesas.
 Maria Paula, continua distribuindo sorrisos e simpatia no seu trabalho. De tal modo que muitos jovens que nunca tinham entrado numa padaria, fazem agora questão de ir, todos os dias, buscar o pão, na esperança de dois dedos de conversa. Pese a sua simpatia, no fundo dos seus olhos há uma certa tristeza. E no seu coração, uma enorme saudade de Diogo, de quem não sabe nada. Nem sequer, se é morto ou vivo.



15 comentários:

António Querido disse...

Foi realmente difícil para alguns, para outros facilidades, eu testemunhei algumas coisas, por exemplo os que trouxeram a roupa no corpo e outros que trouxeram até bons carros sem serem os que lá possuíam! Uns que chegaram aqui e não conseguiam trabalho, outros houve que conseguiram melhores empregos do que lá tinham, os empregos com vagas eram em 1º lugar para os retornados, lembro-me muito bem que assim foi, passou-se aqui na Figueira e noutras cidades porque o governo conseguiu calá-los assim, ou havia distúrbios porque não eram culpados de se ter dado uma descolonização daquelas à Mário Soares, com os seus arranjinhos em África, todos sabemos disso, não há como negá-lo! Com o meu abraço.

Edumanes disse...

Com a vinda de muitos milhares de pessoas foi criado o chamado IARN, o qual para alguns empresários de hotelaria foi uma mina de ouro. Havia muito dinheiro e alguns aproveitaram-se do seu menos por vezes correcto funcionamaento. Cada pessoa apoiada pelo IARN, tinha direito a um X por dia, respeitante a alojamento e alimentação, pago directamente ao empresário onde se encontra hospedada. Nalguns casos recebiam mais do que deviam receber, por exemplo tinham vinte pessoa inscritas mas rebiam por vinte cinco ou trinta, não havia fiscalização suficiente. Quanto a Maria Paula menina bonita, com uns olhos e rosto bonito, um sorriso simpático, com o pensamento em Diago, atraía a atenção dos jovens ao seu local de tralhado, numa padaria onde muitos deles nunca teriam entrado, a beleza e simpatia têm muito valor na vida de quem as sabe apreciar. Já se passou há muito tempo mas quem passou por essa situação jamais dela se esquecerá. Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Edumanes disse...

Corrijo: Diogo e não Diago!

Laura Santos disse...

A beleza e a simpatia, atraem às vezes o desejável e o indesejável...Vamos ver o que acontecerá a Maria Paula, que sem saber nada de Diogo continua com a tristeza no olhar.
xx

lis disse...

Oi Elvira
Me perdi um pouco porque estive ausente mas retornei aos capítulos anteriores e entendi toda a problemática que envolveu a vida de Maria Paula.
Que ela continue conduzindo a vida de modo a poder rever e matar a saudede de Diogo.Vamos aguardar.
abraços

Lu Nogfer disse...

Ainda bem que o sorriso se mantem apesar da tristeza no fundo dos olhos... coisas que a saudade faz.

Preciso ler alguns capitulos mas cada um deixa reticencias com sabor de um belo final.
No aguardo.
Beijos



Pedro Coimbra disse...

As aventura passam pela minha terra.
Quem sabe não terei conhecido as pessoas em causa....

Mariazita disse...

Como "outros poderes mais altos se levantam" :) (a feitura do meu segundo livro) não me posso dar ao luxo de visitar os blogs amigos, como tanto gosto de fazer... (espero poder fazê-lo dentro de relativamente pouco tempo...).
Hoje resolvi dar um pulinho a alguns blogs, e aqui estou, para desejar a continuação de uma boa semana.
Beijinhos
MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

Ana S. disse...

Nova vida, novo recomeço. Novas caras e novas amizades para fazer sem nunca esquecer quem ficou no outro lado.
Beijos

© Piedade Araújo Sol disse...

continuando a saga, vamos aguardar os próximos capítulos.
muito boa a narrativa.
beijo
:)

Majo disse...

~ ~
O conto está admirável, Elvira.

~ ~ ~ Grande abraço. ~ ~ ~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
.

Mariangela do Lago Vieira disse...

A vida é assim...
Recomeçando sempre!
Muito bom Elvira.
Vamos aguardar!
Beijos,
Mariangela

esteban lob disse...

Debe ser una angustia inigualable no saber si alguien querido, está vivo...o muerto.

Afectuosos saludos Elvira.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Esta talvez seja "a página" que dá da realidade uma imagem mais desequilibrada e, até contraditória. De facto Paulo, um mês depois de ter chegado, foi enquadrado ao serviço dos Hospitais de Coimbra, como testemunha o seu texto. De facto o esforço feito de reintegração amorteceu muito o efeito dramático da chegada de tanta gente. Mas, não houve funcionário público que não fosse integrado (ministérios, escolas, hospitais, câmaras municipais e organismos do Estado) Não houve empregado bancário ou profissional de seguros que não viesse a ser colocado, para isso muito terá contribuído a nacionalização da banca e dos seguros... Quanto ao IARN segue um relatório que julgo insuspeito. Não estou a dizer que não doeu e que, até, não hajam feridas em aberto, estou apenas a tentar colaborar para que a História seja vista de uma maneira mais equilibrada... resta dizer-lhe que é um belo texto

https://refugiadosemlisboa.wordpress.com/2012/10/16/iarn/

Rosemildo Sales Furtado disse...

Conforme disse num comentário anterior, ainda acredito num final feliz de Maria Paula com Diogo, afinal, não é a toa essa saudade que ela sente.

Abraços,

Furtado.