16.2.14

ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES PARTE VI

NOTA
AMIGOS, NÃO SEI O QUE ACONTECEU QUE PERDI TODOS OS VOSSOS LINKS.
TENHO ANDADO A RECUPERÁ-LOS MAS É DEMORADO. POR ISSO NÃO TENHO FEITO AS VISITAS HABITUAIS. AS MINHAS DESCULPAS.

-E é tudo o que sei.
Tanto que a pobrezinha sofreu por amor do Chico. Quando percebeu quão falsas tinham sido as suas promessas, desinteressou-se da vida. Era costureira. Deixou a costura. E olhe que tinha muita freguesia. E foi para o Terreiro do Paço vender cartas. Mas passava horas e horas a olhar o mar, e de tanto o olhar, os seus olhos castanhos foram ficando da cor do próprio mar. Como se os olhos quisessem manter viva a esperança que o seu coração já sepultara.
A voz de Rita era apenas um murmúrio, enquanto velávamos o cadáver da infeliz. Desde aquele dia em que a vira doente, aproveitando as minhas férias, tinha ido todos os dias visitá-la e fizera amizade com a Rita, talvez a sua única amiga e vizinha.
Mas só hoje, depois da sua morte, e ali na presença do seu corpo, Rita me contara a história da pobre Esperança.
Não pude evitar as lágrimas. E pensei que se há amores que são a nossa razão de viver, outros pelo contrário tiram-nos a vida….
 Depois de muito procurar o Chico conseguira finalmente saber onde vivia agora a Esperança e, ansioso, seguiu num táxi a caminho de sua casa. Estava nervoso e emocionado. Ia finalmente rever a “sua” Esperança, depois de quase 30 anos. Dava-se conta que apesar do seu casamento, do abandono a que a votara, ele sempre sentira a doce e meiga rapariga como uma “coisa” sua. Durante todos os anos em que remoeu o seu remorso, sempre o fez convicto de que ela estava à sua espera. Jamais passara pela sua cabeça, que a jovem podia ter casado, ter filhos, uma família, enfim… E se por momentos essa ideia o assaltava, ele logo a afastava como quem tira um obstáculo do seu caminho.
O carro acabara de parar junto a uma modesta habitação. Pagou a corrida e bateu à porta. Depois, reparou que estava só encostada e, como ninguém vinha abrir, empurrou a porta e entrou. Quedou-se na ombreira, paralisado pela surpresa, o rosto lívido.
A primeira coisa que os seus olhos viram, foi a urna, iluminada por duas lamparinas. No chão, uma coroa de flores. A um canto, duas mulheres conversavam baixinho enquanto velavam a aquela que ele reconhecera imediatamente como sendo a “sua” Esperança. As duas mulheres olharam-no e depois trocaram um olhar entre si como quem pergunta:
-“Quem será?”.
Não lhes ligou. Com passos vacilantes, aproximou-se da urna. Olhando a imensidão de rugas no rosto feminino, bem como a pobreza à volta, deu-se conta que a vida não tinha sido nada fácil para a mulher. Sentiu uma punhalada no peito e um nó na garganta.
Quem sabe não fora ele o causador daquele infortúnio? 
E pensava nos sonhos que arquitectara no caminho até ali. Tinha chegado tarde para pedir perdão, tarde para tentar compensá-la dos anos de espera, tarde para viver, enfim, o sonho da juventude. Havia chegado atrasado! Era como que um castigo do céu. Já era tarde quando se arrependeu do casamento e era tarde para chegar ali.
Como num filme, passou-lhe pela memória a recordação de todos aqueles anos desde que a conhecera. Uma lágrima rolou pelas suas faces. Nem sequer podia ter o consolo do seu perdão.
Os olhos da morta, intensamente verdes, pareciam dois lagos de água. Verdes? Mas não eram castanhos os olhos da Esperança? Ele tinha a certeza de que eram castanhos, um quente e belo castanho dourado. E, no entanto, agora eram verdes. Como podia ser? Seria que até a cor dos olhos da mulher que tanto amou, ele não recordava direito? Até ele chegou o murmúrio da mulher mais velha.
- Faz-me aflição ver assim a pobrezinha. Mas não consegui fechar-lhe os olhos.
 - Eu também tentei e não o consegui. É como se ela esperasse por alguma coisa ou alguém – respondeu a outra mulher, bem mais jovem.
Chico estremeceu. Afinal ele não se enganara. Ela esperara-o toda a vida e continuava à sua espera mesmo na eternidade.
A dor foi tão grande que cambaleou.


Continua



15 comentários:

Graça Sampaio disse...

Deus do céu! Como é que esta novela vai terminar?!

Fico à espera...

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Triste história, amiga! Com certeza que a Esperança está ainda à espera do seu amado e vai ser ele que lhe fechará os olhos. Quer mostrar-lhe que a esperança de o ter de volta nunca morreu. Aqui estarei para o final. Beijinhos,Elvira e uma boa semana
Emília nunca morreu

Lilá(s) disse...

É uma história linda mas, muito triste!
Bjs

Andre Mansim disse...

Oi Elvira!
Menina, eu estou em débito com os amigos da blogosfera! Te confesso que só li dois capitulos desse novo conto. Aos poucos estou tentando voltar, mas tô muito enrolado. Me perdoe!

Luma Rosa disse...

Como os homens são egoístas, não é mesmo Elvira? (rs*)
Coitadinha esperando e ele somente pensando no "seu" perdão. Valha-me!

Parabéns pelo aniversário da netinha! E sinto pela perda da sua tia! Há dia de alegria e dia de tristeza!

Beijus,

São disse...

Por mim, bem poderia cair fulminado pelo remorso...

Boa semana

Silenciosamente ouvindo... disse...

É uma história muito triste,
mas muito bem descrita.
Desejo que esteja bem.
Bj.
Irene Alves

Zé Povinho disse...

Na vida todos dão cabeçadas, e essas têm consequências que muitas vezes não esperamos nem desejámos...
Abraço do Zé

lis disse...

Emocionante vai ficando a cada capítulo
e o gancho dos olhos que de castanhos ficaram verdes aguçou a curiosidade
... estou adorando
abraços Elvira

LUZ disse...

Olá, estimada Elvira!

Como estão todos vocês?

Enfim, quem espera, desespera, e até a cor dos olhos muda, já para não falar no coração amargurado.

Mas, Esperança estaria mesmo morta?

Vejamos, então, o que vai acontecer ao Chico.

Beijos, com estima.

eduardo maria nunes disse...

Coitada da pobrezinha,
De tantas horas a olhar
Cor verde que nos seus olhos tinha
Ficaram da cor do mar!

Há alguns anos atrás, dois compadres alentejanos, do Alentejo para Lisboa, passaram pelo Barreiro, junto a um prédio muito alto. Um diz para o outro, olha compadre quando eu era moço trabalhei nesse prédio e cai lá do último andar para chão. Pergunta o outro compadre e não morrestes! Não sei há tanto tempo, já não me lembro!

Um abraço para você amiga Elvira.
Eduardo.

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Mas que clímax tão inesperado! Parabéns por me ter surpreendido.

Beijos

Mariazita disse...

Confesso que não esperava esta reviravolta!
Estive a ler também o capítulo anterior, e nada me fez prever que o conto evoluísse neste sentido.
Está muito bem arquitetado! Surpreendente, mesmo.
Aguardemos, para ver como termina, ou, pelo menos, como continua.

Um bom fim de semana.
Um abraço

Dorli disse...

Olá,
Muito triste a história. Perdi alguns capítulos, agora virei todos os dias até ver o final.
Beijos
Lua Singular

Duarte disse...

Chico, um nome muito de romance. Vamos a ver que fim vais preparar para este personagem.
Como argumentas! Como crias novas perspectivas, quando parece que tudo vai acabar surgem novos planos, que bom, isto promete.
Um grande abraço