27.1.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE IV

foto da net


O ano de 1926 foi um ano muito complicado para os portugueses. O General Gomes da Costa, iniciava em Braga, o golpe militar de 28 de Maio, de cariz nacionalista e anti-parlamentar. Porto, Lisboa, Évora, Coimbra, e Santarém, cansadas da instabilidade que se instalara no país, com 23 governos em menos de seis anos, com constantes ataques bombistas, e crescendo do anarco-sindicalismo, aderiram de imediato. Vitoriosa, a revolução termina com o parlamento, a 1ª república, e institui um novo governo, mais tarde apelidado de Ditadura Nacional, da qual faz parte como ministro das finanças António de Oliveira Salazar. Em Junho desse mesmo ano, quando Manuel contava oito anos, nasce em Penude, uma pequena aldeia nos arredores de Lamego, aquela que iria ser anos mais tarde, o seu grande amor e a companheira de toda a sua vida. Em Sá na pequena aldeia, Piedade chorava quase todos os dias de aflição. A comida faltava, o trabalho era pouco e mal pago, e mesmo quando havia algum dinheiro, era difícil encontrar o que precisava. Faltava tudo. Para quem tinha um bocadinho de terra, sempre havia o que colocar na panela, para quem como ela, não tinha nada, era difícil enganar a fome. Por essa altura Laurinda era já uma mulherzinha, com os seus quinze anos, desejosa de sair da aldeia, de conhecer outras terras e outra vida. João continuava enfezadinho e já quase parecia mais pequeno que o irmão Manuel. À aldeia vizinha do Pisão, chegou como todos os anos, Alfredo Santos, um dos capatazes da Seca do Bacalhau, da Azinheira, situada nos arredores do Barreiro, e que todos os anos dava trabalho a mais de duzentas mulheres, e cinquenta homens. Por essa razão todos os anos em Agosto, ele percorria algumas aldeias, no concelho de S. Pedro, para engajar pessoal para trabalhar na Seca. Era um trabalho sazonal, que durava de finais de Setembro, até finais de Março. Trabalho duro, mas ordenado certo quando o Inverno não era demasiado rigoroso, porque se chovesse muitos dias seguidos levava-se por vezes uma semana inteira sem trabalho. Porque naquela época o bacalhau secava em extensas mesas de cimento e arame ao ar livre. Mas como não pagavam alojamento, que era proporcionado pelo patrão, sempre juntavam alguma coisa para o resto do ano, quando os campos não davam trabalho. Por causa da doença de João, Piedade nunca arriscara inscrever-se para ir trabalhar lá na Seca, mas a filha insistia a todas as horas, que queria ir. Naquele dia Laurinda veio com a madrinha, a Graça do Pisão para pedir à mãe que a fosse inscrever para a próxima safra. A madrinha tomaria conta dela, e assim a mãe poderia ficar descansada. Depois de conversar com a comadre, lá foram as três até ao Pisão, dar o nome da jovem, e pôr o dedo na autorização, já que a filha era menor, e a mãe não sabia escrever. Na volta, o Sr. Américo, chamou a Piedade, e perguntou-lhe se deixaria ir o garoto mais novo para a sua casa. Seria companhia para o filho, faria alguns trabalhos não muito pesados e teria cama e comida. A mulher respirou fundo, e ergueu uma prece a Deus. Era menos uma preocupação, menos uma boca com fome. Entretanto, o mundo civilizado chorava a morte de Rodolfo Valentino, que aos 31 anos, falecia num hospital em Nova Iorque, em pleno apogeu da sua carreira cinematográfica. Ferreira de Castro publicava “A peregrina do Mundo Novo” Em Cuba, nascia Fidel Alejandro, o menino que mais tarde todos iriam conhecer por Fidel Castro, o presidente. A Polónia e a Grécia assinam um tratado de amizade. Salvador Dali é expulso da Escola de Belas Artes de San Fernando. Depois de Valentino, é Harry Houdini, quem desaparece. Morria o mágico do século deixando um mito que perdura até hoje. E a França fica culturalmente mais pobre ao perder o pintor Claude Monet.




Próxima postagem dia 30

12 comentários:

Graça Pereira disse...

Gosto destas postagens que me situam num tempo em que não vivi mas que ouvi falar da maioria das personagens. E não só: do movimento de 28 de Maio! Saber também que este país já passou por crises (outras) bem graves e penosas.
Beijo amigo
Graça

BlueShell disse...

Havia muitas "Piedades" por aqui!Eram tempos de grande miséria e fome para alguns. Bom enquadramento histórico, Elvira...As referências a a contecimentos que se davam em simultâneo estão espetaculares...
xcelente , como sempre, minha querida amiga!
Um Bj e bom FDS (Fim de semana)

Mariazita disse...

Bom dia, Elvira
Por um lado, porque gosto muito de História e tudo que se lhe associa, por outro porque as suas descrições são muito bem feitas... gosto de (re)ler estes episódios.

Obrigada pela sua "solidariedade":)
Ando mesmo muito aborrecida com o Blogger (agora Google), mas com os outros também há problemas...
Vou continuar a aguardar.

Bom fim de semana. Abraço.

Je Vois La Vie en Vert disse...

Estas lições de história e de vida são sempre enriquecedores. Obrigada, Elvira !

Agradeço o teu forte abraço e asseguro-te que o Pai Celeste ouviu a tua súplica e suavizou a minha dor. Estou de volta à blogosfera !

Beijinhos
Verdinha

MENSAGENS AO VENTO disse...

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Essa saga devia se transformar em um Livro! Já pensou nisso, amiga?

Beijos de luz e o meu carinho, sempre!

Zélia

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Zé Povinho disse...

O ano de 1926 não terá sido dos melhores, mas o conto continua.
Abraço do Zé

AFRICA EM POESIA disse...

Amiga
obrigada pela visita

fui mesmo eu que fiz anos
beijinhos e um belo texto

lis disse...

Elvira
Um texto de grande importância ,mesmo que nao tenhamos acompanhado desde o início.
Estou devagar nas leituras devido a conexão ainda irregular,
um abraço grande

Georgia disse...

Elvira queirda, tudo bem contigo?

Vim te desejar uma semana abencoada.

Um grande beijo

esteban lob disse...

Hola Elvira:

Es particularmente valioso empaparse de la historia de nuestras naciones en forma tan amena y simple.
Sobretodo porque es imposible saberlo todo y porque la memoria de los humanos es muy fragil.

Cariños.

Dulce disse...

E assim, vamos acompanhando a par e passo, não só a história de Manuel e de sua família, mas também a própria história do mundo...
Excelente, Elvira.

Um grande abraço

Mariangela disse...

Bom dia Elvira!
Uma excelente descrição histórica,
que estou adorando acompanhar!
Um ótimo dia e obrigada!
Mariangela