30.1.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE V


foto da net


Os anos seguintes foram para Manuel os mais felizes da sua curta existência. Na casa do patrão não faltava comida. O trabalho fazia-o bem. Era um miúdo franzino, porém tinha força e gostava de estar ali. Para isso contribuía, além da boa comida, os filhos do patrão, especialmente o mais novo, um rapazito pouco mais ou menos da sua idade, com quem se dava muito bem e de quem herdava a roupa e o calçado que lhe iam deixando de servir. O Arménio era um rapazito esperto, sempre pronto a descobrir uma maneira de não fazer o que o pai queria. Porém era bom estudante e quando iam para os pastos com o gado, gostava de ensinar ao amigo o que sabia. Este que nunca tinha ido à escola, ouvia com avidez e registava tudo o ouvia. Foi assim que aprendeu a ler, e mais tarde a escrever. Gostava tanto do Arménio que prometeu a si mesmo que se um dia tivesse um filho ele se chamaria assim. Entretanto o mundo continuava a sua marcha. Em Julho de 1929, a América começa a caminhada para a grande depressão, que conhecerá o seu desfecho, na Terça-feira negra de 29 de Outubro, mas cujos efeitos se estenderão por toda a década de 30, terminando apenas com a Segunda Guerra Mundial. Foi o pior e o mais longo período de recessão económica do século XX. Um período em que o desemprego disparou, o produto interno bruto não só da América, mas de diversos países na Europa, dependentes da economia da América, caiu drasticamente. Grandes accionistas ficaram na ruína, bancos falidos e a economia paralisou. Na Itália, Mussolini prosseguia a sua política de interdição aos partidos políticos e aumento do seu poder ditatorial. É nesse ano de 1929, que aparece o Estado do Vaticano, fruto da Concordata de S. João Latrão e pela qual se impunha, que o catolicismo passava a ser a religião oficial da Itália, a troco do apoio da igreja, para o seu governo. No Brasil o preço do café cai em flecha, as exportações são quase nulas, o café fica a apodrecer nos armazéns. Muitos fazendeiros não suportam a ruína e põem termo à vida. O governo brasileiro proíbe a entrada de emigrantes italianos. Na verdade depois da abolição da escravatura, os italianos eram a mão-de-obra principal nos cafezais. Na Alemanha, Hitler à frente do Partido Nazista, começa a impor as suas ideias e a grande caminhada que irá arrastar a Europa para uma nova guerra, pode dizer-se que se inicia nos finais de 1929. Em Portugal, Salazar impunha a ditadura das Finanças, e preparava o caminho para a implantação do Estado Novo. A década de 30 adivinha-se negra. Lá na pequena aldeia entre a serra e o rio, o nosso Manuel começa a transição para a adolescência, sonhando já com a  passagem à fase adulta.




PRÓXIMA  POSTAGEM A  3 DE FEVEREIRO

13 comentários:

Nilson Barcelli disse...

A crise que grassa pelo mundo inteiro, pelo menos nos países mais desenvolvidos, é idêntica à grande depressão. Vamos lá ver se não é preciso outra guerra para acabar com ela...
Continua a gostar imenso da sua narrativa.
Um abraço, querida amiga.

Fabrício Santiago disse...

olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Fabrício e cheguei até vc através do Blog Os & Degraus. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir meu blog Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. Estou me aprimorando, e com os comentários sinceros posso me nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs

Narroterapia:

Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.

Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.

Abraços

http://narroterapia.blogspot.com/

Zé do Cão disse...

Minha Amiga

Estamos outra vez em pleno ciclo.

E um amor esta história.
A confirmar a classe destes textos, aqui está este comentário soberbo.
Parabéns



abraço

Zé do Cão disse...

Minha Amiga

Estamos outra vez em pleno ciclo.

E um amor esta história.
A confirmar a classe destes textos, aqui está este comentário soberbo.
Parabéns



abraço

。♥ Smareis ♥。 disse...

Maravilhosa sua postagem.
Uma aula preciosa.
Concordo com o comentário do amigo acima, estamos novamente outra vez em pleno ciclo.
Beijos e ótima semana.

A VIDA É UM ETERNO APRENDIZADO disse...

Olá!
Fiquei muito feliz em conhecer o seu blog.
Gosto muito de ler textos e poemas, isso faz com que eu cresça cada dia mais.
A vida se torna interessante, à medida que encontramos pessoas como você.
Grande abraço
Se cuida

Mery disse...

Como a amiga Smareis achei a postagem "uma aula" ... um modo de nos esclarecer melhor essas transições, que por vezes nos deixam mal, pobres que dependemos do Governo, esse pode nos levar ao inferno, desculpe" ando revoltada com os políticos, no meu post coloquei isso.
Eles são os donos do mundo, ou o mundo anda pela hora de acabar...(?)
Comentário amargo, perdão.
Beijinhos daqui pra ti, obrigada pela partilha. Bela tarde!

Zé Povinho disse...

O Manuel chegou lá primeiro do que eu, que mesmo vivendo há muito tempo não assisti ao início dessa ditadura das finanças, a do Salazar, mas estou a assistir ao início desta nova ditadura das finanças...
Abraço do Zé

Kim disse...

Olá amiguita
Parece que estamos a voltar à Grande Depressão.
Já percebemos que tudo é cíclico, tal como os alcatruzes da nora, umas vezes em cima, outras em baixo.
Gosto desta estória, um misto de história e outro de aventura.
Beijinho para ti São

Kim disse...

Estou louco, queria dizer BEIJINHO ELVIRA

Lilá(s) disse...

Gosto imenso da sua narrativa. Ando revoltada com os políticos parece que querem impor uma ditadura idêntica á da sua estória...
Bjs

Luis Eme disse...

uma história cheia de História.

abraço Elvira

Dulce disse...

Há quem diga que a história sempre se repete...

Um abraço, Elvira.