10.1.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE I




Foto da net


Quando Piedade soube que estava de novo grávida, pensou que o mundo lhe caía em cima. Corria o mês de Setembro de 1917, e o mundo agonizava entre uma guerra que durava já há três anos, e uma revolução russa. Nessa altura os Alemães tinham-se apossado de Riga, e a Itália fazia frente ao império austro-húngaro perto de Piave, onde se refugiaram no mês seguinte, e de onde conseguiram por fim rechaçar as tropas inimigas. O reino Unido lutava comandado por esse extraordinário coronel que foi T. E. Lawrence, na Palestina, e com o auxílio dos Árabes, aproximava-se de Jerusalém. Os Americanos tinham entrado na guerra e o Brasil preparava-se para declarar guerra à Alemanha e entrar no conflito ao lado dos Aliados. O C.E.P, Corpo Expedicionário Português, combatia na Flandres ao lado dos Aliados e os jovens portugueses embarcavam para as colónias portuguesas tentando defendê-las de algum ataque do inimigo. A Rússia saía do conflito devido à grande revolução, em que se via envolvida, internamente, e em Portugal, acontecia a 5ª aparição em Fátima, envolta pela controvérsia, entre os que acreditavam nos videntes e se deslocavam religiosamente à Cova de Iria, e aqueles que juravam que as aparições, mais não era do que uma manobra do governo, para desviar a atenção dos Portugueses, que mal preparados para a guerra sofriam pesadas baixas, e dos constantes embarques de jovens para as colónias portuguesas, duas situações que sangravam a Pátria da sua juventude masculina. Piedade, uma ignorante mulher duma aldeia do interior, nem sabia o que se passava por esse mundo de Cristo. O companheiro partira para o Brasil em busca de uma vida melhor e nunca mais dera notícias. Ela nem sabia se era vivo ou morto. Com ela ficaram os dois filhos, uma menina de dois anos e um rapazito, recém-nascido e muito enfezadinho, a quem ninguém profetizava uma vida longa. Sem emprego, Piedade, percorria as poucas casas da aldeia e de outras aldeias vizinhas, oferecendo-se para trabalhar, na lida da casa, ou no campo, cujos trabalhos não tinham para ela segredos. Meses antes, ela conhecera um homem de uma aldeia vizinha, solteiro, com alguns campos, e que lhe prometera, ajuda para criar os dois filhos em troca de “certos favores”. “Quem vê caras, não vê corações” diz o povo e com razão. Alberto parecia ser sincero e bom homem. Ela nada sabia de métodos anticoncepcionais. E ficou grávida de novo. Quando o homem soube que ela estava grávida, simplesmente a pôs na rua com os dois filhos e com a indicação de que nunca mais lhe aparecesse na frente. Ela chorou tudo o que tinha a chorar e depois recomeçou a jornada de porta em porta, procurando trabalho. O seu ar franzino não mostrava a força de que aquela mulher era dotada. Em Abril de 1918, poucos dias depois do desaire português, na Batalha de La Lys, nasceu o terceiro filho de Piedade. Era um rapazinho pequeno e franzino, a lembrar João, o irmão, porém ao contrário deste era um menino saudável.






ESTA HISTÓRIA, É UMA REPOSIÇÃO. FOI PUBLICADA NOS FINAIS DE 2008 ATÉ INICIO DE 2009. PORQUE A HISTÓRIA ESTAVA INACABADA E RECENTEMENTE RECOMECEI A ESCREVÊ-LA, PORQUE A MAIORIA DOS QUE HOJE ME VISITAM NÃO O FAZIAM NESSA ALTURA, E TAMBÉM PORQUE EU RETIREI DO BLOGUE TODOS OS CAPÍTULOS, QUANDO DA MORTE DO MANUEL EM MARÇO DE 2009, RECOMEÇO HOJE A SUA PUBLICAÇÃO ESPERANDO QUE VOS AGRADE. 

21 comentários:

Mariazita disse...

Por acaso lembro-me desta história.
Mas gostei de recordar.
Acho que fez muito em em repô-la, até porque agora vai ter fim, não é verdade?

Continuação de bom 2012, com muita saúde (acima de tudo) para si e todos os seus.

Abraço

AC disse...

Faz bem, Elvira, até porque gosto muito da honradez com que trata estes temas. Cá fico à espera.

Beijo :)

São disse...

Desculpe, mas não consigo ler com este tipo de caligrafia.

Sabe que faleceu o pai da Verdinha?

Um abraço.

tulipa disse...

AMIGA
decidi terminar a minha actividade no blog "Deabrilemdiante" de uma forma diferente, ou seja, fazer uma homenagem póstuma à criadora do blog, a minha sobrinha.

Porque hoje é o dia que marca a passagem de 3 anos (11-Janeiro-2008) do "princípio do FIM" da derradeira etapa dela nesta Vida.

Aproveitei para agradecer aos seguidores e a todos que durante estes anos me têm visitado...
não o encerro, ficará aberto, pois aquilo é o meu diário;
apenas cesso a actividade.

Gostaria que lá fosses ler, não dá para deixar comentário nesse post, só no anterior, mas como foste das pessoas que acompanhou todo o processo da minha perda, estou a deixar o recado da minha intenção.

Para a Tânia:
As sombras existem
sempre existiram na minha vida.

Mas, as saudades que tenho de ti
espalham-se pelo chão
deixam-me vazia...

Luto
sim, podes acreditar
que luto, para
não precisar tanto
mas...tanto,
da tua presença.
Deus,
quando me irei curar
desta ausência na minha alma?

Descansa em Paz.

AFRICA EM POESIA disse...

Elvira
obrigada amiga

o inicio do Ano está a correr bem com o sucesso do meu livro Cantar África.

Ainda não tinha lido o conto gostei e espero o fim... um beijo

AFRICA EM POESIA disse...

Elvira
obrigada amiga

o inicio do Ano está a correr bem com o sucesso do meu livro Cantar África.

Ainda não tinha lido o conto gostei e espero o fim... um beijo

Dulce disse...

E vou estar aqui a ler cada capítulo de mais um trabalho seu, com muito interesse, Elvira.

Beijos

Agulheta disse...

Amiga Elvira.Já tinha lido anteriormente estes capítulos seus,não sei se todos,este vai ter interesse a quem gostar de continuar.Vou me dedicar a mais tempo pelos blogs,é uma delícia ler e acompanhar os amigos,o resto é diversão.
Abraço

Zé Povinho disse...

E fez bem, porque é uma história interessante e bem enquadrada com acontecimentos da época (eu sou dos "velhos leitores").
Abraço do Zé

Mery disse...

Eu gostei de ler; mas essa história é real?
Pergunto porque fiquei triste demais com a sorte da Piedade, e nem prestei atenção ao início do relato, desculpe.
Venho te ler mais vezes, acontece que, às vezes ficamos longe e não vemos as atualizações dos amigos.
É bonito ler essas histórias que nos servem de lição...entende, não é?
Acreditar muito nos homens pode ser uma desgraça. Beijinhos pra ti, Mery*)

Lilá(s) disse...

Cá ficarei á espera da continuação, penso que nessa altura já ía passando por cá mas para já não me lembro da história....
Bjs

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Elvira, sou seu fã. Você escreve muito, mas muito bem mesmo. Não sei se já tem algum livro publicado, tem?

Vou acompanhar essa sua publicação, já que eu não a conheci antes. abs

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Começa com uma localização no tempo, de fazer inveja a muita gente! Depois vem a narrativa, escrita num estilo conciso, claro e que não apela ao sentimentalismo. Agradou-me profundamente.

Beijos

Kim disse...

Elvira
Vou estar atento ao resto. Gosto destas estórias.
Beijinho para ti!

Zé do Cão disse...

Elvira

Gostei e estou a seguir.

Cumprimentos e abraço do

aflores disse...

Não se deve esquecer a história de um povo.

Bem haja pela partilha.

Tudo de bom.

Paulo Cesar PC disse...

Elvira, lendo seu comentário no post "A importância dos blogs e a qualidade dos blogueiros lá no blog onde escrevo e lendo seus textos aqui, sinto-me a vontade para afirmar, que você tem talento no que escreve e talento para escrever. Isso transcende as nossas limitações, inclusive no trato com as palavras. Seu talento é forte, presente e se impõe por si só. Um beijo no seu coração.

BlueShell disse...

Gostei. O início faz uma belíssima contextualização histórica. Fico ansiosa esperando o resto.
Bj

Fernanda disse...

Ainda bem que o fez, pois não tinha lido e estou a gostar muito.

Começa por situar a época, de forma perfeita, dando até uma pequena aula de História, para depois entrar num conto que foi " o pão nosso de cada dia" de muitas mulheres da época.
Filhos enfezados, tantos o eram, por causa da fome que a mãe passava em tempo de gestação.
Miséria.
Já poucos se lembram dela.

Abraço
Volto, como prometido.

Pascoalita disse...

Tomei agora contacto com a história pela 1ª vez e decici que o lógico seria começar pelo início.

Fiquei deliciada com este fantástico texto, muito bem escrito, e fiquei muito curiosa e algo ansiosa para conhecer o seu desenvolvimento.

Ora sigamos para o 2º capitulo!

Olinda Melo disse...

1ª guerra mundial
Revolução Russa

(1917, o ano do nascimento da minha mãe.)

Interessante história enquadrada por acontecimentos que mudaram o mundo.

Beijo

Olinda