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19.1.14

ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE II


 foto da net

Pouco passava das dez da manhã, naquele dia soalheiro, quando desci do autocarro no Terreiro do Paço.
Confesso que fiquei surpreendida com o que vi pois, naquele momento, havia um movimento pouco usual entre os vendedores, que corriam de um lado para o outro, carregando enormes alcofas, as mulheres, com cestos à cabeça, procuravam ocultar-se atrás das grossas colunas da estação ou dentro das cabines telefónicas. Algumas metiam-se mesmo na gare dos cacilheiros ali mesmo ao lado.
- Que será que aconteceu? - Interroguei-me.
Mas logo os vi. Os fiscais, que de vez em quando rondavam aquela zona, pregando multas aos mais descuidados pois o comércio naquela zona era proibido. Nunca entendi por que não montavam ali uma ronda permanente e acabavam de vez com aquilo. Mas não! Apareciam e desapareciam como por milagre. Fui até ao bar e pedi um café enquanto esperava que os fiscais partissem. Quando eles chegavam não havia ninguém, mas assim que desapareciam de todos os cantos, apareciam os vendedores e era um ai enquanto abriam de novo as suas cestas e espalhavam os produtos em panos no chão ou em pequenas mesas de campismo que alguns traziam. Era assim uma espécie de jogo do gato e do rato.
Quando tudo serenou, procurei com o olhar a mulher dos olhos verdes, mas não a vi.
- Não veio hoje a mulher que vende cartas? – Perguntei à velhota dos amendoins.
- Não. Já ontem também não veio. Mas ali o meu “home” também vende cartas.
E apontava um velhote que vendia variadas coisas um pouco mais à frente.
- Obrigada, mas eu queria falar com ela -menti. – Acaso sabe onde mora?
-Não. Ninguém sabe ao certo, embora digam que mora ali para os lados de Alcântara, na rua Prior do Crato. A menina é parente? – Perguntou a medo.
-Não. Apenas me pediram para lhe dar um recado e queria fazê-lo.
-Bem – a mulher pareceu ficar mais à vontade ao saber que eu não era da família da senhora que eu procurava. A Esperança apareceu aí um dia a vender cartas e aí ficou. Já lá vão muitos anos. Olhe, ainda eu nem tinha cabelos brancos.
Olhei a sua cabeça completamente branca e pensei que na verdade já devia haver uns bons anos.
- Esperança, dos olhos verdes, - murmurei
A mulher continuou:
-Olhe menina, eu, se estivesse no seu lugar, esquecia-me desse recado. Eu não sei porquê mas não gosto dela. Às vezes, até chego a pensar que tem pacto com o demo. Passa horas e horas a olhar o mar e depois, sabe, há uma coisa que nem sei se lhe conte…
- Diga, diga, - pedi eu com mal disfarçada ansiedade.
A mulher hesitou mas por fim decidiu-se:
- Sabe - disse baixando a voz como quem vai revelar um segredo - é que a Esperança, quando para aqui veio, tinha uns olhos castanhos, amendoados, que depois ficaram verdes. Ora eu penso que uma coisa assim só por bruxedo.
- Muito obrigada. Se a vir dou-lhe o recado senão…

12.1.14

ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES Parte I




 Foto da CP. Antigo barco de travessia Barreiro-Lisboa e vice-versa



- Ciiiiinco caaaartas, deeeez tostõeeees!       
Todas as manhãs, ao desembarcar no Terreiro do Paço, era sempre aquele o primeiro pregão que ouvia. Procurei com o olhar a dona do pregão. Não consegui vê-la. Mas sabia que ela estava lá, como de costume. A sua voz fazia-se ouvir entre o burburinho dos que todas as manhãs faziam a travessia do Tejo, nos barcos da CP. Gente que morava na progressiva vila do Barreiro mas que trabalhava em Lisboa, como eu.
Estávamos a meio dos anos sessenta e eu, que nascera no Barreiro, tinha começado a trabalhar em Lisboa, pelo que todos os dias fazia aquela travessia, excepto aos fins-de-semana. Trinta e cinco minutos em barcos que tinham o nome de alguns distritos de Portugal. Até aí, as idas a Lisboa sempre tinham sido para ver alguém hospitalizado ou para visitar alguma das minhas tias residentes na capital. Gostava de ver do barco o Cristo-Rei, que também via da minha casa desde miúda mas tão pequenino que mais parecia um brinquedo. Já na cidade não havia quem me arrancasse de junto das montras, onde tudo era novo e maravilhoso para mim. Mas os anos passaram, eu cresci e agora ali estava  a caminho do trabalho como todas as manhãs. Quem conheceu o Terreiro do Paço naquela época, sabe que ali havia um verdadeiro mercado ambulante.
Mulheres e homens vendiam bananas, amendoins, bolos, lenços, roupas de bebé, bonecas, brincos, pentes, braceletes, rádios, óculos e muito mais.
Foi então entre todo aquele burburinho que ouvi:
-Ciiiiinco caaaartas, deeeez tostõeeees!
Olhei e vi-a. Era uma mulher que talvez não tivesse mais de quarenta anos, embora aparentasse muitos mais. Mas é sempre difícil saber ao certo a idade das pessoas para quem a vida foi madrasta. Envelhecem mais depressa pelos trabalhos e provações por que passam.
Franzina, de pele morena, poderia ter sido muito bonita na juventude, mas já não lhe restava nada dessa beleza. Poderia até ser considerada uma mulher vulgar não fossem os seus maravilhosos olhos verdes, de brilho intenso, como se neles se concentrasse toda a juventude que o seu corpo deixara para trás há muito.
Fiquei fascinada com aqueles olhos. Reparei que olhava repetidas vezes para o mar, porém não podia ficar ali mais tempo a contemplá-la pois estava na hora de ir para o trabalho.
Mas todos os dias, ao ouvir o seu pregão, não podia deixar de olhar a mulher enquanto imaginava bonitas histórias de amor em que ela era a protagonista. Foi assim que um dia me apercebi que os olhos verdes da mulher ficavam às vezes de um tom azulado, tal como o mar em dias de calmaria.
Chegou o mês de Agosto e, como todos os anos, o laboratório onde eu trabalhava, encerrou para férias. Decidi passá-las em Lisboa, em casa dos meus tios, já que não dispunha de verba, nem autorização dos pais, para ir para qualquer lugar sozinha. Com os meus tios gozava de ampla liberdade enquanto não arranjasse namorado. Como tinha passe dava, de vez em quando, umas voltas pela cidade. E foi nessa altura que me ocorreu descobrir se as minhas fantasias a respeito da vendedora de cartas tinham algum fundamento. Tomada a decisão, logo a coloquei em prática.

8.1.14

SER FELIZ







Ser feliz...
é não ter medo dos próprios sentimentos.

É saber falar de si mesmo...
É ter coragem para ouvir um "não"...
É ter segurança para ouvir uma crítica,
mesmo que seja injusta...
É beijar os filhos, curtir os pais, e ter
momentos poéticos com os amigos,
mesmo que eles nos magoem...

Ser feliz é deixar viver a criança livre,
alegre e simples que mora dentro,
de cada um de nós...
É ter maturidade para falar "eu errei"...
É ter ousadia para dizer " me perdoe"...
É ter sensibilidade para expressar " eu
preciso de você"...
É ter capacidade de dizer " eu te amo"...

Desejo que a vida se torne, um canteiro
de oportunidades, para você ser feliz...
E quando você errar o caminho,
recomece tudo de novo...
Pois assim você será cada vez mais
apaixonado pela vida.
E descobrirá que...
Ser feliz não é ter uma vida perfeita...
Mas usar as lágrimas para irrigar a tolerância...
Usar as perdas para refinar a paciência...
Usar as falhas para esculpir a serenidade...
Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência...

Jamais desista de si mesmo...
Jamais desista das pessoas que você ama...
Jamais desista de ser feliz...



(autor desconhecido)


Recebi por email. Embora não seja hábito, postar artigos que não sejam meus,  ou que não o sendo, também não estejam identificados. Ainda assim como achei este texto interessante e resolvi partilhá-lo. Afinal ser feliz é desejo da humanidade.

6.1.14

EUSÉBIO DA SILVA FERREIRA

                                                                     Foto da net

Não costumo falar de futebol neste espaço.  Não é o meu desporto favorito, embora já tenha assistido ao vivo em alguns jogos. Os adeptos têm os seus gostos e o seu clube favorito, que raramente coincide com o meu e gostos respeitam-se não se discutem.  Porém não posso deixar de assinalar esta data como uma data triste para todos os portugueses. Eusébio, não foi só o melhor jogador português de todos os tempos e um dos melhores do mundo. Com a sua arte e o seu talento ele deu a conhecer ao mundo este pequeno País. Vi-o jogar uma única vez ,e até eu que pouco entendo de futebol fiquei deslumbrada. Que descanse em Paz. À família enlutada, e a todos os benfiquistas deixo os meus pêsames.

Morreu o Rei, Viva o Rei.


30.12.13

FELIZ ANO NOVO

Com um enorme obrigada por me terem acompanhado no ano que ora termina, desejo a todos os meus amigos um 2014, tão somente como cada qual desejaria que fosse, e sobretudo que a benção divina caia sobre a humanidade para que ela se torne menos egoista e mais justa.

FELIZ ANO NOVO.

23.11.13

VOCÊ VAI SABER PORQUÊ - ANDRÉ MANSIM

Recebi há dias numa gentileza do autor,  um exemplar do primeiro livro de André Mansim. "Você vai saber porquê" é um policial empolgante. Daqueles que o leitor começa a ler e fica tão embrenhado na leitura que só deseja lê-lo de seguida. Dois investigadores são chamados a resolver um crime, que à partida parece ser muito simples. Parece. Porque neste livro, nada é o que parece e de cada vez que se pensa que se encontrou o ponta da meada, verifica-se que existem várias pontas e voltamos ao ponto de partida. Há muito tempo que não lia um livro que me entusiasmasse tanto.
Parabéns André.

                                                           Por favor ampliem as fotos


A todos os que gostam de ler, aqui deixo a explicação da contra-capa para aguçar a vossa curiosidade e vontade de o lerem. Podem contactar o autor em  http://amansim.blogspot.pt/  no Facebook
https://www.facebook.com/andre.mansim?fref=ts.



Aproveito este espaço para agradecer  publicamente a outros amigos que me têm oferecido livros e a quem já agradeci por escrito.
Luís Filipe Maçarico    
Luis Milheiro
Jorge Esteves
Maria José Areal

A todos um enorme obrigada pelo carinho e amizade.

12.11.13

AGUARELA


Um barco apita ao longe...
Um galo canta...
Amanhece...
Ouvem-se os primeiros sons,
alguém que se levanta.
O dia começa...
Apressados os mais velhos seguem
preocupados para o trabalho.
Ás creches chegam os risos das crianças...
Trocam carícias os namorados...
um autocarro passa rápido...
Num banco de jardim, um velho, engole a solidão..
Ergue-se altiva a papoila,
humilde a roxa violeta...
Sai e entra gente nos mercados...
Apressada a dona de casa, descasca as batatas.
Chora o bebé na camita...
Brinca o menino na areia,
perante o olhar atento, do velho avô...
Desliza um barquito de à vela,
a lembrar aqueles de papel,
que fazíamos em criança.
Duma chaminé sai fumo...
Um cão ladra...
Um barco apita ao longe...

Elvira Carvalho

10.11.13

Centenário do nascimento de Álvaro Cunhal


Álvaro Cunhal nasceu há 100 anos.  Nasceu em Coimbra, mas foi em Seia que viveu a sua infância e decerto retirou da dureza daquelas terras a força com que defendeu os seus ideais. Para mim o que mais me fascina nele, é a convivência dessa força, de antes quebrar que torcer com a sua alma de artista.
Cunhal foi um homem a quem ninguém podia ficar indiferente, comungue-se ou não os seus ideais, e a história portuguesa do  século XX não seria a mesma sem a sua existência.
Gostaria de ter engenho e arte para fazer um belo texto a assinalar esta data. Como não tenho limito-me a assinalar a data.

4.11.13

ELISA II



Elisa viu-se nessa altura obrigada a contar a verdade aos pais. Tinha que deixar o filho com alguém para ganhar-lhe o sustento. E quem melhor que os pais? O pai só lhe disse que devia ter contado antes. E que tomaria conta do neto, como se fora um filho. Elisa deixou o filho lá na aldeia e veio para Lisboa ser criada de servir. Não pensava em namorados. Tudo o que juntava mandava para os pais, para o sustento do filho. Mas um dia conheceu o António. António era moço de Lisboa, com muito mais experiência de vida, e não foi difícil dar a volta à cabeça da jovem. Prometeu-lhe casamento, criar-lhe o filho, dar-lhe até o seu nome. Elisa ia viver com ele, e logo que acabasse a tropa, tratavam do casório. E mandavam vir o filho. Elisa acreditou. E um tempo depois deu-se conta que estava outra vez grávida. Quando António soube da gravidez, os seus modos alteraram-se. Começou a chegar cada dia mais tarde, com a desculpa de que tinha serviço no quartel. E um dia deixou de aparecer. Elisa foi lá ao quartel. Queria saber o que se passava. Mas lá disseram-lhe que ele tinha pedido para ser transferido. E começou novo calvário para Elisa. Quando o adiantado estado de gravidez não a deixava já trabalhar, recorreu à instituição de Santa Zita, que a ajudou até que a menina nasceu, bem como nos primeiros tempos, até que ela conseguiu com a ajuda da instituição arranjar trabalho.
A vida de Elisa foi uma vida de escravidão ao trabalho para criar os filhos. Porque depois da morte da mãe, teve que ir buscar o filho mais velho, para junto de si. Foi pai e mãe dos filhos.
Nunca mais quis ouvir falar de homens na sua vida.
Quando os filhos cresceram, Portugal tornou-se pequeno para os seus sonhos. Só pensavam em emigrar para o Brasil. O sonho duma vida melhor fez com que juntassem todos os tostões para a viagem. E lá foram deixando a promessa de mandarem ir a mãe tão logo tivessem casa e trabalho.
A principio as cartas do Brasil chegavam todas as semanas. Eram cartas cheias de novidades e promessas. Depois passaram a ser de mês a mês. A vida corria bem, a filha tinha até casado, e só estavam esperando mudar de casa para mandar a passagem. É que a casa era pequena. Mais tarde nascera a neta, a despesa era maior. Depois o filho casou, tinha mais despesas. Aos poucos Elisa apercebeu-se que tinha perdido os filhos quando se despediu deles em Alcântara.
Por fim as cartas deixaram de chegar. O olhar perdeu-se no horizonte, o corpo foi-se vergando ao desgosto e ao peso dos anos.
Elisa foi hoje a sepultar...
Nunca vi um funeral tão triste. Meia dúzia de vizinhos, ninguém de família. E enquanto a terra caía sobre a urna, eu pensava se os filhos iriam pensar algum dia no abandono a que votaram a mãe.
Elisa foi hoje a sepultar... e enquanto jogo uma flor sobre a sepultura murmuro uma prece:
Senhor, se é verdade que existe o paraíso, tem piedade desta tua serva, que já teve o seu inferno...

Maria Elvira Carvalho