Foto da CP. Antigo barco de travessia Barreiro-Lisboa e vice-versa
- Ciiiiinco caaaartas, deeeez
tostõeeees!
Todas as manhãs, ao desembarcar no Terreiro do Paço, era sempre aquele o
primeiro pregão que ouvia. Procurei com o olhar a dona do pregão. Não consegui vê-la.
Mas sabia que ela estava lá, como de costume. A sua voz fazia-se ouvir entre o
burburinho dos que todas as manhãs faziam a travessia do Tejo, nos barcos da
CP. Gente que morava na progressiva vila do Barreiro mas que trabalhava em
Lisboa, como eu.
Estávamos a meio dos anos sessenta e eu, que nascera no Barreiro, tinha
começado a trabalhar em Lisboa, pelo que todos os dias fazia aquela travessia,
excepto aos fins-de-semana. Trinta e cinco minutos em barcos que tinham o nome
de alguns distritos de Portugal. Até aí, as idas a Lisboa sempre tinham sido
para ver alguém hospitalizado ou para visitar alguma das minhas tias residentes
na capital. Gostava de ver do barco o Cristo-Rei, que também via da minha casa
desde miúda mas tão pequenino que mais parecia um brinquedo. Já na cidade não
havia quem me arrancasse de junto das montras, onde tudo era novo e maravilhoso
para mim. Mas os anos passaram, eu cresci e agora ali estava a
caminho do trabalho como todas as manhãs. Quem conheceu o Terreiro do Paço
naquela época, sabe que ali havia um verdadeiro mercado ambulante.
Mulheres e homens vendiam bananas, amendoins, bolos, lenços, roupas de
bebé, bonecas, brincos, pentes, braceletes, rádios, óculos e muito mais.
Foi então entre todo aquele burburinho que ouvi:
-Ciiiiinco caaaartas, deeeez tostõeeees!
Olhei e vi-a. Era uma mulher que talvez não tivesse mais de quarenta anos,
embora aparentasse muitos mais. Mas é sempre difícil saber ao certo a idade das
pessoas para quem a vida foi madrasta. Envelhecem mais depressa pelos trabalhos
e provações por que passam.
Franzina, de pele morena, poderia ter sido muito bonita na juventude, mas
já não lhe restava nada dessa beleza. Poderia até ser considerada uma mulher
vulgar não fossem os seus maravilhosos olhos verdes, de brilho intenso, como se
neles se concentrasse toda a juventude que o seu corpo deixara para trás há
muito.
Fiquei fascinada com aqueles olhos. Reparei que olhava repetidas vezes para
o mar, porém não podia ficar ali mais tempo a contemplá-la pois estava na hora
de ir para o trabalho.
Mas todos os dias, ao ouvir o seu pregão, não podia deixar de olhar a
mulher enquanto imaginava bonitas histórias de amor em que ela era a protagonista. Foi
assim que um dia me apercebi que os olhos verdes da mulher ficavam às vezes de
um tom azulado, tal como o mar em dias de calmaria.
Chegou o mês de Agosto e, como todos os anos, o laboratório onde eu
trabalhava, encerrou para férias. Decidi passá-las em Lisboa, em casa dos meus
tios, já que não dispunha de verba, nem autorização dos pais, para ir para
qualquer lugar sozinha. Com os meus tios gozava de ampla liberdade enquanto não
arranjasse namorado. Como tinha passe dava, de vez em quando, umas voltas pela
cidade. E foi nessa altura que me ocorreu descobrir se as minhas fantasias a
respeito da vendedora de cartas tinham algum fundamento. Tomada a decisão, logo
a coloquei em prática.
