De volta a Lisboa, Helena começou a procurar trabalho. Naquele tempo que estivera fora, gastara a maior parte das suas economias.
Certo que a generosidade, do tio, fazia com que tivesse
como se bastar durante um tempo, já que não tinha que pagar a habitação, mas era
urgente que arranjasse outra fonte de economia. Ela bem sabia que o dinheiro é
como papel caído em dia de vendaval. Voa rápido. Enviou vários currículos, em
resposta a anúncios que figuravam na Internet, inscreveu-se no centro de
emprego da sua zona, colocou um anúncio no placar do supermercado. Sabia que é
sempre difícil o primeiro emprego. Todos os empregadores pedem alguém com
experiência. E isso é coisa, que quem quer entrar no mercado de trabalho pela
primeira vez, não tem. Ainda assim não desanimou. Sabia alguma coisa de
costura, que a mãe lhe tinha ensinado. Não muito, Mas subir bainhas ou fazer um
aperto sabia, e também mudar um fecho. Às vezes, quando a mãe tinha mais trabalho ajudava-a. Fez saber
às vizinhas que aceitaria trabalhos do género, quando precisassem. Sabia que o
boca-a-boca entre vizinhos é o maior meio de espalhar uma notícia.
Assim cinco dias depois, recebeu os dois primeiros pares
de calças para subir bainhas. Atrás desses trabalhos viriam outros, tinha a
certeza. Entretanto a ansiedade pelo resultado do exame, ia crescendo dia a
dia. Desde que chegara a casa, Jorge
telefonara-lhe várias vezes. Primeiro para saber se tinha chegado bem, depois
zangado por ter recebido o cheque do hotel, e depois simplesmente para saber como estava, se precisava de alguma coisa, enfim preocupações de pai. Em todas as chamadas ela lhe perguntava como estava a saúde da esposa e
notava que nesse aspeto ele estava cada dia mais otimista. Na véspera
contara-lhe que tinham começado as vindimas, falara-lhe do processo, do vinho que
produziam, através da Vinícola da qual eram sócios. E daquele que eles
fabricavam no seu lagar como produtores independentes, um vinho de reserva que
maturava três anos em barris de carvalho antes de ser engarrafado. Ela não
entendia nada de vinhos, habitualmente nem bebia, mas o entusiasmo de Jorge
quase a contagiou. Demais, ao contar-lhe aquelas coisas, ele estava a fazê-la
participar da sua vida, e isso emocionava-a.
O tio Alberto, também não se esquecia dela. Ou passava lá
por casa e durante uma hora conversavam de tudo e de nada, ou lhe telefonava
para saber como estava, e se precisava de alguma coisa. Naquela manhã, quando
regressou do cemitério, onde visitara as campas da mãe e do primo, abriu a
caixa do correio e entre folhetos publicitários, estava uma carta da Segurança Social.
Pensou nalguma convocatória para entrevista de trabalho, mas dentro do envelope, havia um
cheque. Tratava-se do subsídio de funeral, que o agente funerário lhe dissera
que havia de receber e que com tudo o que acontecera na sua vida, após a morte
da mãe, acabara esquecendo.
Foi uma boa surpresa, mas apesar disso, ela ficou triste.
Já tinham passado dez dias, depois de ter feito o teste de paternidade, e
esperava ansiosa pela carta do laboratório, que não chegava.
