A convivência, num dia-a-dia, em que estiveram juntos, quase de manhã à noite, fez com que Clara se esquecesse um pouco da sua posição
de assalariada, libertando as suas fantasias. Nelas, a jovem imaginava-se num
casamento a sério, fazendo parte de uma família real. Porém a sua consciência,
logo a fazia descer à terra alertando-a.
“Não vás por aí. É um caminho que só te trará
sofrimento. Pensa na realidade desse contrato. És uma empregada. Podes até ter
um estatuto social e especial, mas ainda assim uma empregada.”
Em todos aqueles dias, após o casamento. Ricardo nunca
lhe tocara.
Dera-lhe um leve beijo na igreja e a mão para saírem
até ao carro. E fora tudo. Com os filhos ele era um pai carinhoso, que abraçava
e beijava. Também já por duas vezes, o vira pousar a mão no ombro do irmão, num gesto afetuoso.
Dela nem sequer se aproximava muito. Isso devia bastar para ela ter juízo e se deixar de fantasias, por muito agradáveis que fossem.
Dela nem sequer se aproximava muito. Isso devia bastar para ela ter juízo e se deixar de fantasias, por muito agradáveis que fossem.
E chegou o dia da partida. Estavam todos reunidos na
biblioteca. Ricardo fez as últimas recomendações aos empregados e despediu-se
abraçando-os. Não era de estranhar, pois que mais que empregados os considerava
quase como família. Especialmente Antónia, por quem sentia um carinho especial, apesar dela sempre o tratar por senhor. Eles saíram em silêncio, emocionados.
Na sala, ficaram os seus filhos acompanhados por Clara
e o irmão. Ele dirigiu-se ao cunhado
- Conto contigo para ajudares a tua irmã. Lembra-te que a partir de agora
és o homem da casa, - disse abraçando-o.
- Não te preocupes- disse o jovem com voz trémula. - Cuida de ti.
Depois Ricardo ajoelhou, abriu os braços, e as
crianças correram para ele. Abraçavam-no e beijavam-no com tanto amor, que os
dois irmãos estavam impressionados.
- Toma pai, leva isto contigo. É um presente para te
dar sorte, - disse Bernardo.
- E para te lembrar que te amamos,- acrescentou a
irmã.
- Obrigado, meus filhos. Vocês estão sempre aqui - disse pondo a mão no peito - no meu coração. E agora vão com o
Tiago, e portem-se bem. O pai precisa falar com a Clara.
As crianças obedeceram, e os três abandonaram a sala.
-Queria agradecer-te este presente – disse ele abrindo a mão e mostrando a pen. – Seja
o que for que aqui está, sei que foi ideia tua.
Voltou-lhe as costas e aproximou-se da janela.
-Daqui a pouco virão buscar-me, mas antes, quero
dizer-te que foste uma grata surpresa para mim. As tuas sábias palavras fizeram-me
repensar a minha vida. E a maneira como cuidas dos meus filhos, fazem com que me
sinta feliz por teres aceitado entrar nas nossas vidas - disse com voz rouca.
Clara aproximou-se dele e pousou a sua mão no ombro
masculino.
- Eles são amorosos e eu teria que ser uma desalmada
para não amá-los. E sabes uma coisa? Eu também estou feliz por me teres
escolhido.
E então, Ricardo voltou-se e abraçou-a.
Nada na vida preparara Clara para aquilo que sentiu
quando ele a abraçou. Foi como se um choque elétrico percorresse o seu corpo da
cabeça aos pés. Surpresa, levantou o rosto para o olhar, e sentiu-se perplexa
ao perceber emoção no seu olhar. Os segundos que estiveram assim, em silêncio, olhos nos olhos, cada um querendo ler no outro se as emoções que estavam a sentir eram recíprocas, de tão intensos, pareceram horas. Nunca na sua vida, Clara desejara tanto ser beijada. Então Ricardo baixou a cabeça, e assustada com a intensidade daquilo que estava a sentir, ela fechou os olhos e aguardou.
Mas o beijo não chegou. Ele limitou-se a apertar o
amplexo como se quisesse fundir o corpo dela ao seu, e a roçar os seus lábios pelos cabelos femininos.
Lá fora um carro apitou
Ele largou-a murmurando:
Lá fora um carro apitou
Ele largou-a murmurando:
- Chegou o meu transporte.
Agarrou na mala e encaminhou-se para a porta, dizendo
sem se voltar.
-Sempre que seja possível, entro em contato via Skype.
E saiu fechando a porta atrás de si.

