12.2.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE IX






Os três anos seguintes foram para Manuel, uma nova rotina. Em Setembro ia de camioneta até S. Pedro do Sul, e aí apanhava o comboio para Lisboa. Atravessava o Tejo e ia a pé pela margem do Coina, até à Azinheira Velha, arredores do Barreiro, onde funcionava a Seca de Bacalhau. Aí trabalhavam perto de quatrocentas pessoas, muitos “ratinhos” como ele. Mas também muita gente dos arredores, especialmente da Baixa da Banheira, Barreiro e Palhais. Os “ratinhos” eram os homens e mulheres do norte, e eram assim chamados pelos “camarros”, nome antigo porque eram conhecidos os barreirenses, e que segundo a lenda era atribuído aos pescadores, que utilizavam as terras barrentas para descansar. Cama sobre o barro, Camarro. Muito embora nessa altura, o pessoal do sul, fosse na sua maioria, algarvios e alentejanos, que tinham vindo para o Barreiro atrás de uma vida melhor e de um emprego nas fábricas da CUF, e nas fábricas de cortiça do Nicola e do Alemão. E então, a grande maioria das mulheres não "ratinhas" que trabalhavam na Seca, e viviam nas redondezas ou eram mulheres ou filhas de homens que trabalhavam nessas fábricas. A maioria dos homens vinha do Norte, onde quase não havia trabalho, a não ser nos campos. Claro que quando os homens eram casados e tinham filhos, a família os acompanhava. Na Seca havia meia dúzia de habitações. Para o Capitão, - o gerente –  para os empregados de escritório, para o eletricista, o ferreiro, e os capatazes. O resto do pessoal se dividia por dois enormes edifícios, as "maltas”. Um para os homens, outro para as mulheres. Os filhos se havia ficavam com a mãe, se eram muito pequenos, se eram crescidos ficam separados com o progenitor do seu sexo. As "maltas" tinham uma enorme cozinha cada uma, e um grande refeitório com mesas de pedra e bancos corridos de madeira, vários quartos com muitas camas, e três ou quatro quartos para duche. Casa de banho propriamente dita, não havia na altura. Embora houvessem vários duches.Mas os edifícios, embora distantes um do outro, estavam situados pertinho do rio e aí havia umas espécies de “guaritas” com um buraco que dava para o rio e onde o pessoal aliviava as suas necessidades fisiológicas. Aliás havia várias dessas “guaritas” estrategicamente espalhadas pela margem para alívio do pessoal durante as horas de trabalho. Na “malta” dos homens havia dois cozinheiros, que faziam a comida para os homens, e na malta das mulheres duas cozinheiras que faziam a comida para as mulheres. Marido e mulher, podiam comer juntos em qualquer uma, mas à noite, quando soassem as 11 badaladas no sino da Seca, cada qual teria que estar na que lhe correspondia, sob pena de dormir ao relento. Em Setembro chegavam os navios, carregados de bacalhau, pescado na Terra Nova e na Gronelândia, e a Azinheira ganhava vida. Em Março quando partiam para a pesca, todos os trabalhadores ficavam sem trabalho, e cada um regressava à sua terra, à sua casa, e na Seca ficavam meia dúzia de pessoas, que ajudavam o gerente na manutenção, bem como os caseiros, que trabalhavam as duas quintas, o moleiro,pois na seca havia um moinho de maré onde se moíam os cereais cultivados nas quintas que mais tarde iam servir para levar nos barcos quando estes partiam para a pesca e os militares da guarda-fiscal, que preenchiam a guarnição do posto que havia na Seca. Manuel também regressava à aldeia em Março e embora sempre voltasse para o trabalho no campo ficava a contar os dias até Setembro, para voltar.


AGRADEÇO A TODOS QUE POR AQUI PASSAM E DEIXAM UMA PALAVRA DE INCENTIVO. 
PRÓXIMA POSTAGEM DIA 15



15 comentários:

AC disse...

Elvira,
Quando a leio dá-me sempre a impressão que estou sentado em frente de alguém, que me vai contando, com ar sério e sentido, as peripécias dum mundo a que há que avivar a memória. E o meu silêncio, ao ouvi-la, é de um profundo respeito.

Beijo :)

Pascoalita disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pascoalita disse...

Acredito que muitos dos que lêem estes textos, se revêem nas narrativas, se não por experiência própria, pelos relatos de seus progenitores. A vida era de facto uma labuta constante e lutava-se diariamente pela sobrevivência.

Não tem comparação possível com os dias de hoje, mesmo tendo em conta a crise e as situações de maior carência.

E o Manel lá ia fazendo pela vida ...

Venha novo capitulo eheheh


jinho grande

Green Knight disse...

Olá Elvira!
Também estou a acompanhar a sua narrativa. Como diz a Pascoalita,
vem-me à memória, tempos de criança,em que a vida, na minha aldeia,era semelhante, á da sua estória,tão bem descrita.
Beijinhos,desejo que esteja bem.
Mariana

esteban lob disse...

Hola Elvira:

Recibe el testimonio renovado de mi lectura y de mi afecto, desde Chile.

Un beso.

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Hoje vim só para te agradecer a visita ao Começar de Novo e os parabéns lá deixados. Virei com mais tempo para apreciar o teu cantinho, pois hoje já é muito tarde. Já me fiz tua seguidora e prometo que voltarei. Um beijinho e uma bela semana
Emília

as-nunes disse...

Narrativas como esta são documentos importantes para melhor as pessoas que as lêem ficarem a conhecer momentos/vidas passadas e que são a origem de muitas vidas que hoje vivemos.
Algumas bem amarguradas, apesar de termos andado demasiado convencidos que tudo estaria a ser ou a encaminhar-se para um mar de rosas.

Obrigado pela saudação aniversariante.

Abraço
António

Mariangela disse...

Bom dia Elvira!
Estou gostando muito de ler as suas histórias, você escreve muito bem e eu sempre fico aguardando as novas que virão!
Um grande abraço!!!
Mariangela

jorge esteves disse...

Continuo, atento leitor destes nacos de excelentes narrativas.
abraço.

jorge

Leninha disse...

Estou,atenta e curiosa a acompanhar tua história,amiga.Gostaria que desses tua opinião sobre as minhas Memórias de Menina,no blog Sonhoseencantos.

E cá estou a aguardar o dia 15.
Bjssss,
Leninha

Paulo Cesar PC disse...

Elvira, a narrativa e a maneira como conduz a história, nos faz ficar dentro dela. É prazeroso ler um texto dessa maneira. Um beijo no seu coração.

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Como prometido, voltei. Li com muita atenção este texto que me fez voltar àqueles tempos difíceis na aldeia onde nasci e vivi durante muitos anos; também lá as dificuldades eram imensas e casa de banho...nem pensar...eram como essas que aqui descreves e o bano, bem...eram em bacias com àgua aquecida no fogão a lenha. Tempos dificéis hoje??? Meu Deus...nem se comparam aos de antigamente; a diferença é abismal e quanto a crise financeira, ninguém tinha tempo para pensar nisso. Até aos meus 6 ou 7 anos, nem luz electrica havia. Mas, sabe, a Hermínia, colaboradora do começar de Novo ( é das duas o blog) é se S. Pedro do Sul. Vou-lhe dizer que passe por aqui. Beijinhos e parabéns pela narrtiva; fiquei a saber muita coisa desses tempos nessas paragens
Emília

manuela barroso disse...

Olá Elvira,
Impossível ficar indiferente à sua narrativa.
Primeiro, porque consegue cativar-nos com a sua forma transparente de contar acontecimentos que nos fazem querer continuar...
Segundo, a partilha de fatos que nos transportam a um passado desconhecido para grande parte . Sabia dos "ratinhos" e da migração...mas não com esses pormenores. Por isso, obrigada por nos deliciar, não com os penosos trabalhos, mas com o enriquecimento que trouxe.
Grande abraço

Zé do Cão disse...

Elvira
Gostava de estar presente enquanto escreve estes textos.
Gostaria de ver seus olhos a brilhar de saudades e das recordações boas e más passadas em tempos tão difíceis.
o meu abraço

BlueShell disse...

Excecional, Elvira. É como digo...está-te no sangue! eadmiro o imenso conhecimento que tens: alma boa, pessoa linda!
Um beijo imenso, querida.