- Ou seja, estás a pensar partir de novo para uma
dessas missões?
- Tenho esta semana de licença pelo casamento. Devo partir para a semana. Por isso era tão urgente o casamento.
-E amas, os teus filhos?
-Como te atreves a fazer semelhante pergunta, depois de
tudo o que te contei? Não ficou claro o grande amor que lhes tenho?- Perguntou
zangado
- Para mim, o que ficou claro, foi o grande amor que
tens pela tua carreira. Por ela, tu vais deixá-los entregues a uma
desconhecida, que tu compraste através de um casamento maluco, que em nenhum
momento desejarias, não só porque não há entre nós nenhum sentimento, como
porque pensas que todas as mulheres são falsas e traidoras, e não confias em
nenhuma.
- É a segunda vez que censuras este casamento. Devo lembrar-te
que não pareceste ter esses pruridos de consciência, quando assinaste o acordo.
Ou será que já te arrependeste - perguntou fuzilando-a com o olhar.
- Tens razão,- respondeu. - Do mesmo modo que foste capaz de mentir,
e de moveres todas as influências por amor da Soraia, eu também faria qualquer
coisa por amor do Tiago. Até hipotecar os meus sonhos e abdicar da minha
liberdade por quinze anos, abdicando até do sonho de qualquer mulher. O casamento e os filhos, contentando-me com o arremedo que me ofereceste. Mas isso não me impede de analisar a questão com objetividade.
E de dizer o que penso, gostes ou não. Não me sentiria de bem com a minha
consciência, se o não fizesse.
Pergunto-me o que direi aos teus filhos, quando o
tempo passar e eles me perguntarem, porque o pai, não está presente nos seus
aniversários, nas festinhas escolares, ou em qualquer outro momento que eles
considerem importante nas suas vidas. E se perderes a vida numa dessas missões
arriscadas? O que é que eu faço? Digo-lhes que o seu pai foi um herói, porque
trocou os seus abraços, a sua companhia, e o seu amor, em prol da carreira e das missões ao serviço da Pátria? E que vão receber uma medalha, que vai ser a partir desse dia, tudo o que poderão esperar do homem que devia amá-los e protegê-los? Não, não me respondas, garanto-te que nunca mais mencionarei
este assunto, apenas pretendo que penses naquilo que são as verdadeiras
prioridades da tua vida.
E agora que já nos conhecemos um pouco melhor, vamos
falar da educação das crianças. Uma vez que não pensas estar presente a maior
parte do tempo, educá-las-ei livremente, como os educaria se fossem meus filhos biológicos, ou deixarás expressa uma linha de conduta que terei de seguir à risca?
- Que sejam educados, no amor e respeito pelos seus
semelhantes, pela natureza, e pelos animais. Essa é a base de educação que
quero para eles.
- Nada mais?
- Não. Acredito que farás o melhor por eles.
- Se me permites gostaria de te dizer que aproveites
ao máximo o tempo que possas estar com eles até à partida. Eles precisam de ti
– disse pondo-se de pé e dirigindo-se à saída. Ao chegar à porta, voltou-se e
disse:
-O meu noivado com o Júlio terminou, quando ele me
disse textualmente: “Após o casamento, o teu irmão terá que se desenrascar sozinho. Já não é
uma criança, e nós não temos obrigação nenhuma de sustentá-lo. A nossa
obrigação será com os filhos que vierem”. E sabes que mais? O casamento nunca
foi, uma prioridade para mim. O meu irmão, sim!
