Cláudio, levantou-se antes do nascer do sol. Foi à cozinha, tirou um café, que bebeu e de seguida saiu para os vinhedos. O sonho que tinha tido perturbava-o. Claro que ele já tinha tido, sonhos eróticos. Como qualquer jovem teve a sua fase de sonhos eróticos e de molhar o lençol. Mas era um adolescente. Era normal. O que não era normal era isso acontecer-lhe aos trinta anos. E o que lhe fazia mais confusão, é que a cena fora tão real, que ainda agora, passadas tantas horas, lhe custava a encará-la como um sonho. Procedeu à recolha dos cachos para a análise que levou para a adega, onde encontrou o Manuel Carreto a tratar dos barris de carvalho, que eles iam usar para a maturação do próximo vinho. Cumprimentou-o, trocaram umas palavras sobre o processo e despediu-se entrando em casa para tomar o pequeno-almoço.
-A mãe já se levantou?- Perguntou à empregada.
- A enfermeira está a cuidar dela. Ainda vai levar muito
tempo a ficar bem?
- Segundo sei, está tudo a correr bem, mas é preciso
cuidado para a costura não reabrir. E o pai já saiu?
- Já sim menino, - disse pondo em cima da mesa um jarro
de sumo de laranja, um cesto com pão fresco, queijo e doces.
Cláudio cortou uma fatia de pão, espalhou sobre ela, uma
fina camada de manteiga, e uma fatia de queijo. Colocou sobre o queijo outra
fatia de pão, e iniciou a refeição.
Quando acabou de comer, foi ver a mãe. Encontrou-a
sentada na cama, recostada sobre várias almofadas.
- Bom dia, mãe. Como te sentes hoje, - perguntou
inclinando-se para a beijar.
- Farta de não fazer nada, -respondeu ela levantando a mão
para lhe acariciar a face.
-Tem paciência. As pressas às vezes dão mau resultado. E
se não queres problemas tens que seguir à risca o que te dizem. Tenho de ir. Se
precisares de mim, manda a Rosa chamar-me.
Ia a sair de casa quando o seu telemóvel tocou. Atendeu.
-Estou…
- Doutor Cláudio, estou a ligar para informar que acabou
de chegar a nova bomba de trasfega que encomendou. Pode vir buscá-la quando
quiser.
- Obrigado. Vou agora mesmo.
- Muito bem. Então até já.
Voltou ao quarto, Mudou de roupa, avisou a mãe de que ia
a Viseu buscar a bomba e saiu. Tinha acabado de colocar a bomba no carro,
quando ao levantar a cabeça, viu o pai sair de um prédio no passeio contrário umas
três portas mais à frente. Preparava-se para ir ter com ele, quando viu a jovem
que saía do mesmo prédio. Ficou sem ação ao reconhecer a jovem, e ver como o
pai lhe passava um braço pelos ombros e assim seguiam pelo passeio. Entrou no
carro, ligou o motor e seguiu muito lentamente, na mesma direção. Uns bons metros adiante, viu-os entrar no
hotel Avenida.
Parou o carro tentando acalmar-se. Tremia de raiva. Ele
tinha percebido que o pai lhe escondia alguma coisa. Até pensara numa aventura.
Mas o hipócrita, afirmara que amava a mulher e nunca seria capaz de a trair.
Mentira. Um homem vai buscar uma mulher e leva-a para um hotel para outra coisa
que não seja irem para a cama? Uma miúda! E ela? Fugira dele, fingira ser muito
ingénua, e afinal… Claro deve ter percebido que ele era o filho do amante. Por
isso fugira quando ele disse que a ia levar ao hospital para lhe apresentar os
pais. Maldita. E o pior é que ele, o idiota, estava apaixonado por ela. A
vontade que tinha, era ir ao hotel e mostrar-lhes toda a sua raiva. Mas não
podia fazer semelhante coisa. Não podia armar um escândalo que mais dia, menos
dia chegasse aos ouvidos da mãe. Ligou de novo o motor e arrancou. E já não viu
que o pai e a jovem Helena voltavam a sair do hotel.
