- Bom dia, filho. Porque havia de falar com o teu tio? Já
não o vejo há semanas.
- A festa da final de período, na próxima semana. As
provas com os pais. Se o tio fosse contigo, podia entrar comigo nas provas. Já
que meu pai foi de viagem e nunca mais volta, o tio Ricardo podia fingir que
era meu pai.
- E eu não posso entrar nessas provas?
- Ias jogar futebol com os pais dos meus colegas? Não
mãe, as mães entram nas provas das meninas.
- Está bem. Vou falar com o teu tio. A festa é quando?
- No último dia de aulas, na Sexta-Feira da próxima
semana.
- Tudo bem, vou pedir ao teu tio. Agora acaba de comer e
vai escovar os dentes, estamos a ficar atrasados, a mãe não quer chegar
atrasada, e tu decerto também não.
Meia hora depois, estavam a sair de casa. Amélia deixou
Martim na escola e seguiu para o escritório, pensando que em breve teria que
ter uma conversa séria com o filho, sobre a história do seu nascimento. Quando
ele foi para o infantário e viu os pais dos outros meninos, começou a
questioná-la se o pai tinha morrido. Seria fácil para ela dizer que Afonso, era
o seu pai e sim tinha morrido, mas ela não quis mentir ao filho. Um dia mais
tarde, quando adulto, ele podia querer saber quem era o seu pai, e então o tio
podia dizer-lho. Ela não queria saber, mas o seu filho tinha direito a conhecer
a sua história genética, e daí, ter-lhe dito que o seu pai tinha ido fazer uma
grande viagem e ela não sabia quando ele voltaria. Agora com quase dez anos.
Martim, já podia entender muitas coisas, e ela devia contar-lhe a maneira como
tinha sido concebido, embora tivesse que omitir alguns factos, não fosse o
garoto pressionar o tio para saber do pai, porque para isso ainda era muito
cedo.
- Bom dia, Pedro. Como foi o dia ontem?
- Tudo bem. Elaborei a defesa daquele caso que me deste
ontem. Não parece muito difícil, é um caso típico de violência psicológica, que
o tipo exerce sobre a mulher e a filha.
- É Mas já viste quem é o advogado dele? Conhece-lo?
Antes de elaborares a defesa ou acusação de alguém, tens que estudar o advogado
do lado contrário. Tens que conhecer as suas manhas e truques, ou ele arruma-te
em dois tempos. Vamos lá então…
Duas horas mais
tarde, deixou Pedro e dirigiu-se ao gabinete de Carlos.
- Bom dia, Carlos, desculpa não vir mais cedo, mas estive
a trabalhar com o Pedro.
- Bom dia. Não te preocupes. Tenho estado a adiantar,
aqui o processo do teu amigo.
- Não brinques, Carlos. Não passa de um conhecido que me
prestou auxílio na estrada.
- Estava a brincar mulher, não te amofines. Vamos
trabalhar?Acabei de chegar. Vou jantar e já passo pelos vossos cantinhos.
