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12.9.18

HISTÓRIA DE ANTIGAMENTE - AVIAR A CADERNETA

Na Seca do Bacalhau, da Parceria Geral de Pescarias, havia duas quintas, cada uma com o seu caseiro, onde se produzia tudo o que a terra dá. Das batatas às frutas e ao feno para os animais. Numa delas, havia um depósito de água que servia toda a Seca e vários tanques que serviam para regas e para lavagens de roupa.  Na outra um poço e uma nora movida geralmente por uma vaca, completava as exigências. Havia uma casa grande, senhorial, com garagem, e quintal. Era a casa do senhor Capitão, o gerente deste pequeno mundo. Ficava isolada junto dum pequeno eucaliptal.


 Depois mais afastadas ficavam meia dúzia de casas, habitadas por pessoas que viviam todo o ano na Seca,e que tratavam da manutenção para que tudo sempre estivesse em ordem quando começava a safra.
 Os electricistas, os dois empregados de escritório, o ferreiro, os vigias, e o Ti'Abel.

Havia ainda uma casa em cada quinta, para os caseiros, uma casa junto ao portão principal, para a porteira e um barracão grande no portão junto à praia, para o pessoal do Barreiro que ia e vinha a pé para o trabalho pela "caldeira do alemão" O terceiro portão junto ao moinho de maré, para quem vinha de Palhais, atravessando a Quinta do Himalaia, era o próprio moleiro que abria e fechava à hora do pessoal entrar ou sair, sendo que à saída em qualquer dos portões tinham que mostrar a alcofa que traziam de manhã com o almoço, para ver se não levavam, alguma coisa que não lhes pertencesse. Havia ainda duas enormes camaratas, e o posto da guarda fiscal que ficava pegado a uma destas camaratas, que eram chamadas de "malta".
O Ti'Abel era o encarregado de ir todos os dias, levar a correspondência da firma, e também do pessoal que trabalhava nela, à estação dos correios no Barreiro. Na volta, trazia o correio, que havia para a Seca, e trazia também peixe, e carne do mercado, para quem lhe tinha encomendado. Tudo isto numa carroça, puxada por um manso cavalo. Os caseiros tinham também uma carroça, que usavam para levar para o mercado, os produtos da quinta que excediam os gastos da Seca.

A actividade da seca do bacalhau, decorria de Outubro até Abril. Durante esses meses a Seca chegava a ter quase meio milhar de trabalhadores, entre os residentes, aqueles que vinham do norte para fazer a safra e ficavam a viver nas camaratas, e o pessoal, maioria mulheres que vinham todos os dias das terras vizinhas, Telha, Quinta de Lomba, Barreiro, Baixa da Banheira, Alhos Vedros, Palhais, Santo António da Charneca, e Coina.  Do Norte, vinham homens e mulheres, muitos dos quais casados. E então acontecia uma situação algo caricata.


É que os casais não podiam viver juntos. Os homens viviam numa das "maltas", que além dos imensos quartos colectivos, tinha um grande refeitório, mesas de vários metros com bancos corridos, e uma cozinha com um enorme fogão a lenha, com imensas bocas, e dois cozinheiros que cozinhavam para os homens. No extremo oposto, a "malta" das mulheres, era em tudo gémea da que acaba de se descrever, só que em vez de cozinheiros, tinha cozinheiras. A única concessão que era feita aos casais, era a de poderem comer juntos, num ou noutro edifício. Mas antes das onze da noite, todos tinham que estar recolhidos na respetiva "malta",  sob pena de terem que dormir ao relento.
Bom, mas os casais precisavam de intimidade. Principalmente os homens, já que naquela época a sexualidade parecia ser privilégio deles. 
Talvez porque os homens se preocupassem mais em desfrutar do ato sexual, do que em proporcionar à sua companheira qualquer satisfação, as mulheres, encaravam o mesmo, como "um frete a que não podiam fugir, porque era a sua obrigação satisfazer o marido".  Não sei se a origem do nome de código "Aviar a caderneta" mas os homens usavam essa expressão para dizerem à mulher quando queriam ter sexo. Talvez pareça um tanto crua esta expressão, mas não me parece que se pudesse chamar aquilo fazer amor.
Na Seca havia também um pequeno pinhal com umas ribanceiras à volta, e um canavial que ladeava a vedação da Seca, estendendo-se até à Telha.

 Então quando os casais, queriam "aviar a caderneta", recorriam a estas instalações. O pinhal, ou o canavial.
Parece que a pessoa que vos está a contar esta história, é filha de um "aviamento de caderneta". Corria o ano de 1946, já tinha acabado a II Guerra Mundial.

Vou deixar para outro dia o trabalho de pôr o Bacalhau seco e salgado, como todos o conhecem.

Para todos uma excelente semana 

11.5.13

VIDAS CRUZADAS - PARTE XI







Depois daquela tarde era frequente encontrar os dois jovens juntos. Primeiro como dois amigos, depois como namorados, passeavam-se pela beira do rio, olhos nos olhos, dedos entrelaçados, sempre na companhia do pequeno Pedro.
Naquela tarde recebeu um telegrama da mãe, dizendo que como a sua irmã tivera de regressar a casa, ela resolvera ir também, e estava agora na casa da tia Rosa em Santarém.
  Pedro sentia-se perfeitamente. Nunca mais se sentira cansado, tinha perdido a palidez com que chegara, dormia bem e até engordara um pouco. Recordando a sua doença, e o que o médico lhe dissera, ele não se atrevia a fazer promessas a Rita. Às vezes lembrava-se de ter ouvido a mãe falar nas "melhoras da morte". Melhoras que muitos doentes terminais experimentam pouco antes da morte. E perguntava-se se era isso que lhe estava a acontecer. Os dias sucediam-se, e nada de novo acontecia. Uma tarde Rita disse-lhe:
- Estamos a acabar as férias. A mãe acabou a segunda série de tratamentos. Só pode fazer mais para o ano.
Naquele momento decidiu regressar. Precisava ir ao médico. Tinham-se passado quase três meses, e a verdade é que se sentia melhor que nunca, mas não se atrevia a contar a Rita o que se passava, nem se permitia fazer projectos para o futuro. Ela estranhou o seu silêncio. E quando nessa tarde compareceu no jardim não encontrou a jovem. Apenas a D. Célia e o pequeno. A senhora olhou-o com reprovação, quando a cumprimentou, e o pequeno soltou a língua.
- Zangaste-te com a minha irmã?
 – Não. Porquê?
 – Porque ela não quis almoçar e foi para o quarto chorar...
Sentiu-se um canalha, por ter feito chorar a jovem. Mas consolava-o o facto de que se ela soubesse a verdade ia sofrer muito mais. Despediu-se da senhora, fez uma festa na cabeça do pequeno e regressou a casa da tia. Aí chegado, foi directo ao quarto, abriu o guarda-fatos e colocando a mala em cima da cama, começou a meter nela as roupas de qualquer maneira.
Logo de seguida batiam à porta do quarto.
- Entre.
A figura da tia perfilou-se no umbral, seguida da fiel empregada.
- Vais-te embora filho? Aconteceu alguma coisa grave com a tua mãe?
 – Não tia. Graças a Deus não. Foi do emprego. Dizem que se não estiver lá amanhã, escuso de ir mais. Já estou ausente há muito tempo, as férias acabaram, não tenho baixa nem atestado médico.
- Bom, se é isso tudo bem. Mas podias ter dito quando entraste. Fiquei assustada. E sair assim de corrida, vais chegar de noite...
 – Talvez não, tia. Os dias são grandes e escurece tarde, não se preocupe.
- Então vamos mulher, vamos preparar um farnel para a viagem.
E dizendo isto empurrava a empregada na sua frente.
- Não se preocupe tia, eu como alguma coisa pelo caminho.
- Era o que mais faltava! - Zangou-se ela – Da minha casa, nunca saiu ninguém sem farnel.
Quando Pedro saiu com as malas para o carro, já as duas mulheres tinham preparado uma cesta, onde não faltava a broa, o presunto, um belo salpicão, várias frutas, e uma garrafa de água.
Na verdade a tia tinha-se cansado durante todo o tempo que ele estivera em sua casa, para que bebesse vinho, mas Pedro sempre fora abstémio.
Abraçou as duas mulheres e saiu. Tinha pressa de viajar. Não queria correr o risco de encontrar Rita, não queria que ela o visse partir.



BOM FIM DE SEMANA. E PARA AS AMIGAS DO OUTRO LADO DO ATLÂNTICO UM FELIZ DIA DAS MÃES.